Imagem Ugo Giorgetti
Colunista
Ugo Giorgetti
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Profundamente

Não me interessam detalhes técnicos, hipóteses, opiniões

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2016 | 06h00

Não quero saber o que houve. Não me interessam detalhes técnicos, hipóteses, opiniões. Almir Leite, colega aqui do Estado, foi quem me deu a notícia e me deu só o essencial, como compete a um bom jornalista. No meio da névoa que se formou em minha cabeça, me ouvi perguntando: “E o goleiro, o Danilo?”. Resposta: “Sobreviveu por pouco tempo. Morreu logo”. “E o Cleber Santana?” Resposta: “Morto”. “E o Caio Junior?”. Resposta: “Morto”. 

Não perguntei mais nada. Consegui mencionar os que mais conhecia e admirava. Alguém depois informou que havia jornalistas entre os mortos, inclusive Mário Sérgio. Não sei o que dizer, como de hábito. Não há frases de consolo diante do absurdo. Prefiro conservar a última semana pela qual a Chapecoense passou pela minha vida. Quarta-feira havia dois jogos na TV: Grêmio x Atlético e Chapecoense x San Lorenzo. Sabendo que o Palmeiras enfrentaria a enigmática equipe de Santa Catarina, vi o jogo de Chapecó para avaliar o time. Jogou para o resultado, fechado dramaticamente e com poucas, mas perigosas, investidas. Destacou-se o de sempre: Danilo e Cleber Santana, este um antigo centro médio, um daqueles imperadores do meio-campo, pela postura e pela majestade. 

Pensei: ainda bem que ele vai ser poupado domingo e o Danilo também. Domingo, na entrada em campo no Allianz Park, não acreditei no que via: na frente vinha Danilo e, um pouco atrás, reconheci, Cleber Santana. Mas como? Caio Júnior ia colocar os dois no jogo? E a decisão na Colômbia? Fiquei preocupado antevendo aquelas bolas que Cleber gira de um lado a outro do campo pegando sempre alguém livre nas pontas. 

Aguentei o primeiro tempo e só relaxei quando ele não voltou para o segundo. No fim do jogo eles sumiram e no campo só dava Palmeiras. Por ironia, em seu último jogo, tinham sido vistos pelo Brasil inteiro. Mesmo voluntariamente desfalcados, sua dignidade, luta e talento ficaram em todas as imagens. 

No dia seguinte, eles entraram num avião e partiram para algum lugar, ou para o nada. Não quero saber o que houve. Porque pode se saber o que aconteceu, mas não por que aconteceu. Perguntas tresloucadas passam pela minha cabeça. O que essa gente estava fazendo fechada dentro de um avião na noite gelada da Colômbia em vez de estar em suas camas dormindo, como o resto de nós? Que trabalho é esse que desloca seres humanos pelos céus e os atiram de São Paulo para a Colômbia e da Colômbia para Chapecó, tudo no espaço de um ou dois dias? Que trabalho é esse em que garotos são arremessados para dentro de jatinhos e quatro horas depois estão em campo, sem se dar conta de que viajaram milhares de quilômetros? 

Mas não adianta falar. Na essência, o que aconteceu é incompreensível. Para as famílias, depois que o espetáculo da tragédia diminuir, substituído por outras tragédias, vai sobrar a dor. Uns vão se consolar com a fé, outros, que não têm fé alguma, vão continuar perplexos, esmagados diante do absurdo. Na última semana, a Chapecoense entrou com a velocidade de um meteoro pelas nossas vidas. Passou, e ficou o silêncio.

Quando ontem adormeci / Na noite de São João / Havia alegria e rumor / Estrondo de bombas luzes de Bengala / Vozes, cantigas e risos / Ao pé das fogueiras acesas

No meio da noite despertei / Não ouvi mais vozes nem risos / Apenas balões / Passavam, errantes

Silenciosamente

Onde estavam os que há pouco / Dançavam / Cantavam / E riam / Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo / Estavam todos deitados / Dormindo / Profundamente...” 

(trechos de Profundamente, poema de Manuel Bandeira) 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.