Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Projeto dos treinadores de futebol pode virar lei em Brasília

Parreira diz que técnicos só terão respaldo se regulamentação da profissão tiver força de lei

ALMIR LEITE - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2013 | 08h50

GENEBRA - Carlos Alberto Parreira tem uma certeza: a situação dos treinadores do futebol brasileiro não pode continuar como está. Técnico por mais de 40 anos, o atual coordenador da seleção brasileira entende que já passou da hora de a relação empregado/empregador tornar-se mais digna e profissional. Ele aposta na criação de um sindicato forte, mas ressalta: isso só ocorrerá se houver apoio do governo federal.

Parreira participou na semana passada, no Rio, do encontro para discutir o assunto na Abex (Associação Brasileira dos Executivos de Futebol). Entre os presentes, estavam o técnico da seleção, Luiz Felipe Scolari, e seu auxiliar, Flávio Murtosa.

“A ideia é juntar forças com essa associação e formar o sindicato dos treinadores”, disse Parreira ao Estado em Genebra, na última sexta-feira.

Ele admite que desde que entrou no futebol escuta falar de fortalecer a profissão. Lá se foram quatro décadas e nada foi feito. Por causa disso, sonhar com uma relação como a que existe na Europa é ainda um sonho. Possível de virar realidade, desde que se tenha o apoio de toda a classe.

“Nós estamos praticamente no zero, então temos de fazer muita coisa. O que não pode continuar é essa situação. Sempre ouvi falar nessa associação dos treinadores, mas a coisa não sai, fica só no papo.”

A ideia da criação de um sindicato dos técnicos não passa por estabelecer somente benesses para a categoria. “Não é para garantir emprego de treinador, mas para dar segurança, tranquilidade e dignidade aos profissionais”, ressalta Parreira.

O campeão do mundo em 1994 admite que, de certa forma, o que se quer é atingir o nível de relação existente na Europa entre técnicos e clubes. Uma relação baseada no respeito e no cumprimento das leis.

“Vou usar o exemplo que dei na reunião. Quando fui trabalhar na Espanha (Valencia), meu primeiro salário veio com um desconto de US$ 35 mil”, conta Parreira. “Fui reclamar na tesouraria do clube e me disseram que era a contribuição para o sindicato e que isso era descontado sempre do primeiro salário dos treinadores. Mas me avisaram que, dali para frente, tudo o que acontecesse de errado comigo eu teria o respaldo do sindicato.”

Na Espanha, há uma lei que impede o clube que demite um técnico de contratar um substituto antes de acertar as pendências financeiras e jurídicas com o que está saindo, conta Parreira. “São os clubes que correm atrás do treinador para acertar tudo e poder contratar outro.”

Em compensação, técnico que deixa o clube no meio da temporada não pode assumir outro da mesma divisão por estar tirando o emprego de um colega.

Para Parreira, todos esses aspectos podem ser colocados em uma regulamentação para a relação entre empregadores e empregados no futebol brasileiro. Mas ele alerta: os técnicos só terão respaldo se essa regulamentação tiver força de lei. “No que precisar, vamos até Brasília fazer um movimento.”

CONTRATO

Ele entende que, no Brasil, não cabem mais situações em que o treinador chega ao clube, fica um mês e, depois de apenas cinco ou seis partidas, se os resultados não forem do agrado dos dirigentes, simplesmente ocorrer a demissão.

Parreira, no entanto, também vê culpa dos próprios treinadores nisso. “Eu entendo que o treinador precisa trabalhar, mas aí não assina contrato. Joga seis vezes, ganha duas, perde três, empata uma e acaba demitido. Vai reclamar e, como não tem contrato assinado, o clube manda que procure os seus direitos na Justiça. Está na hora de esse tipo de situação acabar.”

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