Tiago Queiroz/ Estadão Conteúdo
Tiago Queiroz/ Estadão Conteúdo

Projeto inspirado no Barcelona se dedica apenas à base e quer ser modelo para o futebol brasileiro

Referência FC ocupa boa posição no Campeonato Paulista sub-17 e sub-15 e alimenta sonhos de garotos na busca pela profissionalização

Marcos Antomil, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 15h00

De segunda a sexta-feira, garotos com idade entre 14 e 17 anos adentram o Clube Atlético Jaguaré Unido, na zona oeste da cidade de São Paulo, para dar novos passos rumo ao sonho que move milhões de jovens: o de se tornar atleta de futebol profissional. Suporte e treinamento são fornecidos pelo Referência FC, projeto liderado por Walter Junior, ex-jogador e mestre em biomecânica pela Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Aos que ali chegam desavisados, antes de a bola rolar, se deparam com uma fórmula comum às famosas escolinhas de futebol. São dois campos de gramado sintético, um de proporções profissionais e outro society. Um cachorro aproveita as borrachas granuladas da 'grama' para se coçar, um espaço de convivência chama a atenção logo na entrada e uma pequena arquibancada de quatro degraus completa o cenário. Os garotos chegam prontos para as atividades. Passam rapidamente pelos vestiários improvisados para terminar de se aprontar. Uniforme no jeito, chuteira calçada e o campo já ganha as primeiras bolas, cones e outros equipamentos. Treinador e auxiliar reúnem os jovens à beira do campo, junto a uma lousa tática. Naquele instante o panorama se redesenha e a impressão inicial se transforma completamente.

Goleiros fazem um trabalho específico com um preparador, os demais se posicionam para uma atividade de posse e recuperação de bola. Do alto de um andaime, uma plataforma serve de observatório para visualizar detalhes do treinamento que da altura do gramado, por vezes, passam despercebidos. A organização da atividade ganha proporções que fazem esquecer qualquer comparação a uma escolinha de bairro.

Nem mesmo o céu nublado e a chuva que caiu horas antes naquele dia atrapalharam o desenrolar do treino. Ao longo de pouco mais de uma hora de atividade do sub-17 do Referência FC, o treinador planejou diferentes exercícios de estímulo à capacidade técnica e tática dos meninos. A qualidade do trabalho que se assistiu naquele período é comum ao que se pratica nas categorias de base dos principais times do futebol. A inspiração é o Barcelona. Waltinho morou na capital da Catalunha, na Espanha, por oito anos. Foi lá que desenvolveu seu conhecimento em gestão esportiva e formação de atletas.

"O que a gente quer é que aquele menino bom de bola potencialize seu repertório e consiga jogar em equipe. Quando você trabalha taticamente, você está valorizando essa parte do jogador ser diferenciado. Temos uma filosofia, uma ideia de atuação em tudo, como se comportar, uniforme... Você não vai ver um xingamento, todos se cumprimentam. E essa ideia passa por todas as categorias", explica Walter Junior.

O Referência FC surgiu em 2018 com o objetivo de ser apenas um clube formador, sem interesse em disputar competições profissionais. Hoje conta com 120 jogadores, das categorias do sub-9 ao sub-17, e já participa de torneios da Federação Paulista de Futebol com o sub-15 e sub-17. O próximo passo é estar nas competições oficiais sub-11 e sub-13. O projeto tem um único investidor e tem na figura de Bruno Petri - que já foi técnico da base de Palmeiras e São Paulo - seu gerente de captação, responsável por encontrar talentos para se juntar ao time.

O Referência, à sua maneira, compreendeu a posição que o Brasil exerce no mercado da bola, fato que algumas grandes agremiações ainda não notaram ou intensificaram há pouco tempo. As categorias de base alimentam o caixa e fazem o futebol acontecer no profissional. A revelação de atletas rende bons frutos a médio e longo prazo. Santos e São Paulo são exemplos dessa postura. "O mercado pede, e o futebol brasileiro tem de acompanhar esse ritmo. Muitos clubes já entenderam isso. Estamos bem conscientes. Entramos sabendo que seria muito difícil, mas conhecemos o caminho", concorda Waltinho.

5% nos contratos

O clube não faz contrato de formação com seus jogadores, tampouco cobra qualquer valor dos atletas para participação nos treinamentos. Tudo é bancado pelo investidor, que pretende acumular receitas a longo prazo, quando obtiver a certificação do Referência FC como clube formador junto à CBF e a consequente proteção dada pela Fifa com o mecanismo de solidariedade, que garante ao time formador uma compensação financeira de até 5% (escalonado pelo tempo do jogador no time entre os 12 e os 23 anos) mediante qualquer negociação de direitos econômicos de jogadores. Desse modo, garante-se uma receita pelo volume de atletas negociados para períodos posteriores à venda após a formalização do contrato profissional (que só pode ser assinado com 16 anos).

O clube já está presente no mercado do futebol. Acordos foram sacramentados com Athletico-PR, Flamengo e São Paulo. O time do Morumbi terá preferência na compra de atletas do Referência FC, que também será indicado para receber jogadores que porventura não sejam aproveitados em Cotia, onde treina a base do São Paulo.

"A gente preza pelos valores. Nem todos chegam ao futebol profissional. Temos um controle das questões dos estudos para caminharmos lado a lado, sem que um prejudique o outro", argumenta Herlon Silva, técnico do sub-17, sobre a importância de transcender a capacitação esportiva e aplicar importantes conceitos na formação social e humana de cada jovem. "Nosso principal objetivo é colocá-los no cenário do futebol. A gente sabe que esse esporte é um meio muito competitivo e, por mais que hoje tenhamos 35 atletas no sub-17, não conseguimos garantir quais e quantos deles serão profissionais e, por isso, precisamos prepará-los, inclusive para ambientes fora do futebol."

Embu das Artes

A sede oficial do Referência FC fica na cidade de Embu das Artes, no entanto, os treinamentos são realizados no Jaguaré por ser um local mais central e que facilite o translado dos jogadores, que vêm de todos os cantos da Região Metropolitana. Em Embu das Artes, o projeto realiza seus jogos oficiais das categorias de base do Campeonato Paulista aos sábados de manhã. O acanhado Estádio Hermínio Espósito foi reformado pelo Referência FC e ganha retoques no fim da semana para recepcionar as partidas.

"Estamos vivendo um sonho que sempre tivemos. Estamos conquistando os objetivos por causa da organização e não podemos perder esse ímpeto de jeito nenhum. Um alimenta o sonho do outro: os meninos, profissionais e dirigentes", valoriza Walter Junior, durante a visita do Estadão à sessão de treinamentos do Referência. "Hoje temos os problemas que sempre quisemos ter: quem vou convocar para o jogo, quem será o titular. O comprometimento é máximo, os garotos não perdem um treino. É um salto importante em um cenário tão difícil como o do futebol."

Um dos objetivos do Referência FC é formar uma equipe sub-20 e futuramente disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior. A direção do projeto, no entanto, faz ressalvas e entende ser necessário encontrar uma solidez do grupo dessa faixa etária e ter um trabalho estruturado para entrar no torneio sem correr o risco de derrotas acachapantes, que possam borrar a imagem do clube.

No Campeonato Paulista Sub-17 e Sub-15, o Referência ocupa atualmente a vice-liderança do Grupo 11, que tem o São Paulo na primeira colocação e conta também com Água Santa, EC São Bernardo e SC Brasil. Os dois primeiros de cada grupo avançam para a próxima fase.

Após passarem por todas as etapas nas categorias de base, os jogadores que não conseguirem contrato com equipes de grande porte também fazem pontes com clubes menores que possam ajudar a qualificar o atleta e mostrá-lo para novos interessados futuramente. Caso essa saída também não seja encontrada, o Referência se propõe a conseguir junto a universidades no exterior, principalmente nos Estados Unidos, uma bolsa vinculada à prática esportiva.

"É uma grande responsabilidade. Muitos meninos almejam estar aqui. Por isso, é uma atividade gratificante. Temos garotos que querem alcançar esses objetivos e desse modo fica muito mais fácil de fazê-los crescer", conta o técnico Herlon Silva. "Uma das coisas que valorizamos é a questão mental. O enfrentamento dos problemas diários pode fazer o foco profissional se perder, por isso atuamos em todos esses cenários para deixá-los prontos. Passamos para eles que o futebol acontece à base de muito esforço e é este esforço que poderá recompensá-los lá na frente", acrescenta.

Para além da formação esportiva, o Referência FC se propõe a estruturar o desenvolvimento social e humano de cada jogador. A proximidade com a família e o convívio saudável com todos os companheiros do time ajudam a perseverar essa ideia e construir um atleta inteligente e competitivo.

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