DANIEL TEIXEIRA/ ESTADÃO/ 17-10-2018
DANIEL TEIXEIRA/ ESTADÃO/ 17-10-2018

Protocolo 'modificado' do VAR ainda cria dúvida na prática

Análise de lances interpretativos não estava prevista, mas casos na Copa da Rússia trouxeram novo entendimento

Renan Cacioli, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2018 | 05h00

De acordo com ex-árbitros ouvidos pelo Estado, a aplicação do VAR (árbitro de vídeo) na final da Copa do Brasil entre Corinthians e Cruzeiro, na última quarta-feira, foi correta. O problema, segundo eles, está no protocolo, que teria sido alterado durante a Copa do Mundo da Rússia.

"O protocolo foi modificado, mas não oficialmente, pela Fifa. Prova disso é o pênalti na final da Copa, quando a bola bate na mão do croata, o juiz não marca, mas é chamado pelo árbitro de vídeo num lance interpretativo. O Wilton (Sampaio, que operou o VAR na quarta) seguiu esse protocolo", explica Leonardo Gaciba, comentarista de arbitragem da Rede Globo.

Gaciba se refere ao lance ocorrido na decisão entre França e Croácia, no dia 15 de julho. Aos 35 minutos do primeiro tempo, quando a partida estava empatada em 1 a 1, o croata Perisic subiu com francês Matuidi para cabecear uma bola cruzada na área. Ela desviou no braço do jogador, mas o árbitro argentino Nestor Pitana não marcou inicialmente nenhuma infração. Depois, orientado pelo VAR, foi até o monitor checar a jogada e assinalou a penalidade. Relembre abaixo:

Seria um exemplo parecido com o do pênalti inicialmente não assinalado pelo árbitro Wagner Magalhães de Thiago Neves em Ralf, na Arena Corinthians. Também avisado pelo árbitro de vídeo, ele checou a jogada na tela à beira do campo e mudou sua decisão inicial.

"O VAR tem se mostrado extremamente eficiente para impedimentos, se a falta foi dentro ou fora da área, se a bola saiu ou não. Mas em lances interpretativos, estamos transferindo a interpretação do vídeo para dentro do campo", opina Gaciba.

Entenda o 'duelo' entre protocolos

A CBF alega que no seu projeto original do VAR, lances interpretativos, como bola na mão e contato entre jogadores dentro da área dando margem à marcação de pênaltis, não poderiam ser revisados após a decisão inicial do juiz de campo. Mas, como já foi dito, a Fifa acabou adotando outro procedimento na Copa.

"O protocolo da Fifa dá autoridade ao VAR de chamar o árbitro de campo em lances interpretativos, que não são claros. Não houve erro, mas o protocolo é errado. Se o árbitro viu o lance, não interpretou como pênalti e aí chamam ele para olhar no monitor, o que se subentende?", questiona Arnaldo Cezar Coelho, ex-árbitro e comentarista. Na visão dele, Wagner Magalhães foi influenciado pelas interferências do árbitro de vídeo.

"O Wilton atuou nove vezes na Copa, fez todos os cursos da Fifa e foi indicado para apitar o Mundial de Clubes. E provavelmente será indicado para a próxima Copa do Mundo. Então, imagina você indo apitar um jogo onde tem esse cara com toda essa experiência, esse know how, e ele começa a interferir. Ele está te levando a mudar suas opiniões e isso causa uma grande insegurança", diz.

Na próxima terça-feira, no Rio, a CBF vai traçar um balanço do VAR na Copa do Brasil, nos moldes do que a Fifa fez na Rússia. A reportagem apurou que, internamente, a aplicação do árbitro de vídeo anteontem teve avaliação positiva e se deu em dois dos lances previstos no protocolo: pênalti e gol. Os demais são cartão vermelho e identificação equivocada de atleta advertido.

 

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