Paul Burrows / Reuters
Paul Burrows / Reuters

Quando o futebol é só uma narrativa: clubes estão se transformando em conteúdo de TV e cinema

Há um fluxo constante de séries de documentários também em streaming, mas onde termina o espetáculo e começa o esporte?

Rory Smith / The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 10h00

As câmeras começaram a rodar antes mesmo que os atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney pudessem ter certeza de que haveria algo para filmar. Era novembro do ano passado, e eles aguardavam ansiosamente para descobrir se sua oferta para comprar o Wrexham, um clube galês abandonado na quinta divisão do futebol inglês, sobreviveria a uma votação do Conselho de Torcedores, o grupo que resgatara o time da falência e por anos o administrara com um orçamento maltrapilho.

Os atores tinham motivos para estar confiantes: quando apresentaram suas ideias ao Conselho numa videochamada, a reação tinha sido positiva. Ainda assim, enquanto esperavam pelo telefonema que os informaria do resultado da votação, eles não sabiam se seria uma boa ou má notícia - e isso os deixava numa espécie de dilema.

McElhenney inventara a ideia de comprar um time de futebol depois de devorar as duas temporadas de Sunderland 'Til I Die', série de sucesso da Netflix que detalhava os muitos altos e baixos de outro clube decadente com raízes na Grã-Bretanha pós-industrial. “Ele me disse: ‘A gente devia fazer isso. A gente devia comprar um clube e fazer um documentário’”, disse Humphrey Ker, um dos roteiristas de McElhenney e a pessoa que recomendara a série Sunderland para ele.

Se o conselho do Wrexham rejeitasse a oferta dos atores, o plano iria virar fumaça, afinal, sem clube, não haveria documentário. Mas, para o documentário funcionar, tinha que acompanhar a aventura deles no futebol desde o início. Então, enquanto esperavam o telefone tocar, McElhenney e Reynolds precisavam decidir, efetivamente, o que vinha primeiro: o conteúdo ou o clube?

Wrexham não é o único lugar que está enfrentando essa questão. Faz tempo que o futebol fornece terreno fértil para o cinema e a televisão, mas o surgimento das plataformas de streaming - com seus apetites insaciáveis, bolsos generosos e séries inovadoras envolvendo times inteiramente fictícios - desencadeou um dilúvio de produções.

Algumas, como a série de documentários All or Nothing, da Amazon, tentaram aproveitar o apelo inerente de alguns dos maiores clubes do mundo, incorporando várias equipes de câmera ao longo das temporadas de times como Manchester City, Tottenham e Juventus.

Outras evitaram o controle editorial - e as consideráveis comissões - que os superpoderes do jogo exigem e preferiram uma estética mais autêntica, personificada por Sunderland ‘Til I Die, em que o clube é menos o assunto do documentário e mais um pano de fundo contra o qual se desenrola um drama humano.

“Os clubes de futebol são os melhores investimentos de conteúdo do mundo”, disse Matt Rizzetta, presidente da empresa de investimentos North Sixth Group e, desde 2020, o principal proprietário do Campobasso, um time da terceira divisão da Itália. “Eles representam um conjunto de valores e se conectam automaticamente com as pessoas de uma forma que não tem comparação com quase mais nada”.

Rizzetta disse que sua decisão de investir no futebol foi impulsionada por seu coração - era um “sonho de vida” ser dono de um time, ele disse, especialmente de um time da região italiana onde seus avós cresceram - mas a ideia de comprar o Campobasso, em particular, foi governada por sua cabeça.

“Vimos cerca de vinte equipes, todas nessa região”, disse ele. O Campobasso se destacou. O clube já havia alcançado a segunda divisão, mas vinha encontrando muito mais buracos que caminhos nos últimos anos. A sede fica em Molise, uma região que muitas vezes se queixa de ser negligenciada pelo resto do país: Molise Non Esiste, diz o autodepreciativo slogan local: Molise não existe.

Era perfeito para Rizzetta. Sua estratégia se centrava em “conteúdo, narrativa, marketing e mídia”, disse ele. “Ser proprietário de um clube agora é diferente das décadas de 1980 e 1990. As equipes provinciais, em particular, precisam de novos fluxos de receita para reinvestir no produto, e o conteúdo é um dos canais mais subutilizados”.

Para remediar esse problema, o North Sixth Group de Rizzetta assinou um contrato com a Italian Football TV, um canal do YouTube, para uma série de documentários que seguiria o Campobasso em sua (no fim, bem-sucedida) tentativa de conquistar sua primeira subida de divisão em décadas.

“Era uma história que precisava ser contada, essa equipe de uma região do país que foi esquecida”, disse Rizzetta. Essa obscuridade, em certa medida, ajudou a viabilizar o projeto. “Era um clube pequeno e sonolento”, disse ele. “Parecia uma start-up. Nós meio que tínhamos um quadro em branco. Não tinha nada que pudéssemos fazer de errado."

Mas nem todo torcedor gosta desse tipo de abordagem. Neste verão, foi anunciado que Peter Crouch, ex-atacante da Inglaterra, entraria no conselho do Dulwich Hamlet, time de um enclave abastado do sul de Londres, onde ele fez algumas aparições nos primeiros anos da carreira.

A jogada não era movida por puro altruísmo: as experiências de Crouch, que vieram a público alguns dias depois, serviriam de base para um documentário financiado pelo Discovery+. De acordo com várias pessoas envolvidas no projeto, a rede concebeu explicitamente a ideia como uma chance de criar sua própria versão de Sunderland ‘Til I Die.

A ideia “se deparou com reações variadas”, disse Alex Crane, ex-presidente do Conselho de Torcedores do Dulwich Hamlet. “Alguns torcedores estão verdadeiramente animados”, escreveu Crane numa mensagem de WhatsApp. “Outros são muito céticos e questionam o que o clube vai ganhar com isso”.

Sem dúvida, o enredo central do documentário - Dulwich enfrentando um “futuro sombrio” e Crouch saltando de paraquedas para salvá-lo - não foi universalmente aceito. O Brixton Buzz, um meio de comunicação da comunidade, sugeriu, não sem alguns palavrões, que a “narrativa da TV” tinha sido inventada exclusivamente para o bem da série.

Essa armadilha - distorcer um pouco as coisas para gerar mais valor comercial - é algo que Rizzetta insiste que os clubes devem evitar. Em setembro, o North Sixth Group adicionou o Ascoli - hoje na segunda divisão da Itália - à sua lista de investimentos em mídia, marketing e entretenimento. O North Sixth garantiu ao ex-proprietário do clube, disse Rizzetta, que poderia reproduzir seu sucesso com o Campobasso numa escala maior. Uma das primeiras coisas que os novos proprietários fizeram foi assinar um contrato de exclusividade com a Italian Football TV.

“O conteúdo ainda é uma grande parte da nossa estratégia”, disse Rizzetta. “Mas terá que ser feito de um jeito diferente. O Ascoli tem uma mensagem, uma marca e uma história diferentes. É sagrado para sua comunidade”.

Reynolds e McElhenney foram igualmente explícitos sobre seus planos. “O documentário é uma grande parte” do projeto, disse McElhenney na primeira visita dos atores a Wrexham, em outubro. “Achamos que é a melhor maneira de realmente mergulhar fundo na comunidade. Você pode televisionar os jogos, mas, se não estiver seguindo a história dos jogadores e a história da comunidade, no final das contas ninguém vai dar a mínima”.

Wrexham já está sentindo os benefícios de seu glamour hollywoodiano. Durante o verão chegou uma série de contratações impressionantes para fortalecer a equipe. Também houve investimento na infraestrutura do clube.

“O estádio está sendo reformado”, disse Spencer Harris, diretor do clube antes da aquisição. “As instalações de treinamento da equipe principal estão muito melhores. O clube está se preparando para o sucesso de longo prazo. Parece sustentável”.

Parte desse dinheiro novo veio da venda de ingressos - as multidões estão aumentando nesta temporada - e parte de um pico nas vendas de camisetas. Em outubro, o Wrexham vendeu mais de 8 mil - quase tantas quanto normalmente venderia num ano bom - com as compras de Natal ainda no horizonte.

Mas tem uma coisa que talvez seja mais significativa (e lucrativa): as próprias camisas estão um pouco diferentes. A camisa alternativa agora é verde e cinza, uma homenagem de McElhenney ao Philadelphia Eagles de sua cidade natal. A Ifor Williams Trailers, até então a principal patrocinadora do clube, foi substituída por uma insígnia mais reconhecível: o TikTok. E o logotipo da Expedia agora aparece nos ombros.

Embora o primeiro jogo do time da temporada tenha sido transmitido nacionalmente na Grã-Bretanha, não foi o público que sintoniza o BT Sport para assistir à Liga Nacional que induziu marcas dessa estatura a investir no Wrexham. Muito mais atraente era a perspectiva de ser o centro das atenções no horário nobre da televisão.

Em maio, Reynolds e McElhenney anunciaram - no estilo irônico que vem caracterizando sua gestão até agora - que tinham vendido duas temporadas de seu documentário, ‘Welcome to Wrexham’, para a FX. O documentário vai trazer o momento em que os dois receberam o telefonema para confirmar que a sua oferta de compra do clube fora aprovada pelos torcedores. Tudo foi filmado. O conteúdo, eles acabaram descobrindo, era inseparável do clube. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU. 

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