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Quando só resta ele

A partida antiga solidifica o orgulho de quem vê que seu clube era já grande e temível

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 04h00

As televisões estão dominando todo o universo de entretenimento. Já muito antes do confinamento, a TV era preponderante. Agora, com o fechamento dos cinemas, dos teatros e do futebol, parece absoluta. Sofre a concorrência dos computadores, mas como não tenho dados precisos não sei quanto significam. O fato é que as TVs sabem de seu absolutismo no momento e não dão tréguas. Inventam uma situação atrás da outra para que se permaneça diante dela.

Ao criar alternativas para os sinistros noticiários sobre o vírus, no entanto, acabam realizando algo de útil. Em termos de futebol, por exemplo, há verdadeira onda de passado, com exibição pelos canais de esporte de tapes de velhos clássicos e jogos da seleção brasileira na íntegra, A exibição na íntegra é importante. É muito diferente de um recorte rápido de um jogo antigo, com menos de 1 minuto de duração para ilustrar matéria jornalística e, para isso, mostra o óbvio já visto mil vezes.

Não se destina, portanto, a recriar o passado. O que recria o passado é a sutileza escondida, o detalhe que ficou na lembrança por motivos ignorados e que está lá, perdido em algum lugar. Só ao vê-lo de novo o reconhecemos, é para isso que serve a partida na íntegra. Muitos amigos meus já descobriram isso e estou notando uma verdadeira febre de acompanhar antigos jogos.

O bom disso é que os canais de esporte, desesperados pela falta de sua matéria-prima, já descobriram esse filão e fornecem material abundante para uma audiência que só aumenta. E fazendo isso prestam, talvez involuntariamente, inestimável serviço ao futebol brasileiro. Colocam as coisas no seu devido lugar. O interesse do torcedor por partidas distantes no tempo só se remete a jogos dos campeonatos e torneios jogados no Brasil ou pelo Brasil. Fica claro que no espírito do torcedor uma coisa é o Real Madrid; outra, muito diferente, é sua relação com seu velho clube aqui da terra.

Por um momento fica esquecido o futebol humilhado e ofendido jogado por aqui, esquecem-se as críticas, o atraso tático, os treinadores burros. Quando se trata de captar a atenção do torcedor para valer é a nós mesmos que somos obrigados a recorrer. A televisão está à cata de grandes partidas de qualquer lugar e época. Vi há pouco o anúncio da íntegra de um Náutico x Sport, só para mostrar que a coisa vai bem além do Rio e São Paulo.

Quando é muito necessário, recorre-se ao futebol brasileiro, parte do patrimônio espiritual dos torcedores que, nos momentos de angústia como esse, instintivamente se voltam para ele. A partida antiga solidifica e consola. Solidifica sentimentos de satisfação e orgulho para quem vê que seu clube, ainda hoje vencedor, era já grande e temível. E consola quem não vê seu time vencer por longo tempo, ao rever as velhas glórias.

Nesse momento em que o Brasil é atirado ao charco mais abjeto por alguns políticos e a descrença e o temor do futuro é o sentimento mais comum, é bom ver na televisão algo de bom. Ainda que seja o passado. Vamos olhar ao menos aquela fantástica seleção de 1982. A íntegra de suas partidas volta para que possamos fazer justiça àquela equipe cuja memória foi esmagada e soterrada pelo futebol prático de resultados que vingou até há pouco tempo.

Se a seleção brasileira de 1970, campeã do mundo, tinha mais gênios, a de 1982 tinha mais craques. Suas partidas estão sendo reprisadas, também sua derrota para a Itália, partida em que perdeu porque venceu. Venceu no sentido de não aceitar segurar o empate. Para mim essa seleção foi campeã do mundo e se os fatos desmentem isso, pior para os fatos. Ao terminar um jogo dessa seleção extraordinária fica um vazio em cada um de nós. Aí vamos até a janela e lá fora há mais vazio.

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