Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Quando um dia de jogo na Europa vira uma cena de crime e roubos na casa dos atletas em campo

Uma onda de furtos a residências de jogadores de futebol revelou os mais novos itens de segurança usados pelos ricos jogadores e familiares: cães de guarda, agentes de segurança particular e até quartos do pânico

Tariq Panja The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 12h00

Ángel Di María soube da notícia assim que saiu de campo. Tirá-lo do jogo no meio de uma partida empatada parecia fazer pouco sentido, mas o técnico do Paris Saint-Germain lhe explicou rapidamente: a mulher de Di María tinha ligado para o chefe de segurança do time. O jogador tinha de ir para casa imediatamente. O lar de sua família acabava de ser assaltado. Seu companheiro de equipe Marquinhos recebeu uma mensagem parecida quase no fim de uma partida de domingo: um imóvel que ele comprou para os pais fora da cidade de Paris tinha sido invadido, e o pai dele tinha brigado com os ladrões.

Um terceiro jogador do PSG, o atacante Mauro Icardi, entendeu bem o que seus colegas sentiram: menos de dois meses antes, a casa de Icardi foi saqueada enquanto ele jogava uma partida. Naquele dia, de acordo com reportagens, os ladrões levaram roupas de grife, jóias e relógios avaliados em centenas de milhares de dólares.

Os astros milionários do PSG não são os únicos jogadores de futebol na mira dos bandidos, para quem as partidas têm representado cada vez mais uma lucrativa oportunidade. Em anos recentes, sofisticados criminosos têm analisado agendas de campeonatos e postagens em redes sociais como se fossem guias para seus golpes, para surrupiar os frutos da fama e da riqueza de alguns dos maiores nomes do esporte.

Por anos, quadrilhas da Inglaterra miraram os bem cuidados bairros e condomínios de luxo que servem de lar aos astros de clubes como Manchester United e Liverpool. Em maio, o jogador Riyad Mahrez, do Manchester City, disse à polícia que perdeu itens avaliados em centenas de milhares de dólares quando seu apartamento foi roubado. Semanas antes, Dele Alli, astro do Tottenham, revelou que foi ameaçado por ladrões que invadiram sua casa em Londres.

Conforme os casos envolvendo os jogadores do PSG mostraram, porém, os assaltos a casas de jogadores não são um problema apenas da Premier League. Na Espanha, a polícia desbaratou uma quadrilha que, de acordo com as autoridades, tinha como alvo casas de jogadores de clubes como Real Madrid e Barcelona. Na Itália, o meio-campo americano Weston McKennie contou à ESPN local que teve roupas de grife e outros itens roubados enquanto jogava uma partida pela Juventus.

Com as invasões às casas dos jogadores se tornando mais comuns - Robin Olsen, goleiro do Everton, relatou ter sido roubado por bandidos mascarados, armados com machadinhas, no início deste mês -, os atletas ricos estão cada vez mais expandindo sua lista de itens de luxo indispensáveis para além das jóias caras e dos eletrônicos de última geração, acrescentando cães ameaçadores, agentes de segurança particular e até quartos do pânico. "Isso representa um problema para os jogadores aqui, pois todo mundo sabe onde eles estarão", afirmou Paul Weldon, diretor administrativo da The Panic Room Co., uma empresa inglesa que agora tem entre seus mais abastados clientes vários astros da Premier League.

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Isso representa um problema para os jogadores aqui, pois todo mundo sabe onde eles estarão
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Paul Weldon, Empresário da área de segurança

Outros jogadores optaram por uma abordagem mais esquentada. Meses após ter relógios e outros itens roubados por bandidos armados com facas, Alli, do Tottenham, foi fotografado levando para passear um cão de guarda da raça doberman, que comprou depois do assalto. Cães como o de Alli são tão comuns entre astros do futebol que Richard Douglas, cofundador da Chaperone K-9, uma empresa que treina cães de guarda, afirma que sua firma tem pelo menos um cliente em cada time da Premier League.

Em Paris, a polícia e dirigentes de clubes ainda estão tentando entender o que aconteceu na semana passada. Ao contrário dos relatos iniciais, a mulher de Di María não foi atacada pelos ladrões e só reparou que o cofre da família havia sido furtado depois que os bandidos deixaram o local, de acordo com uma fonte a par da investigação. Assustada, ela imediatamente contatou um dirigente do clube, que fez o alerta ao chefe de segurança do  PSG. Isso levou a um telefonema - capturado em vídeo - ao diretor esportivo do time, que berrou da arquibancada para o treinador Mauricio Pochettino, que, por sua vez, decidiu rapidamente tirar Di María da partida.

NEYMAR

Como todos os jogadores do clube, Di María teria recebido orientações de segurança que incluíram uma visita à sua casa e conselhos sobre medidas de segurança, quando foi contratado pelo PSG. Mas o clube normalmente deixa as decisões por medidas adicionais de segurança a cargo dos jogadores e suas famílias. Os maiores astros do time, Neymar e Kylian Mbappé, contam com equipes próprias de segurança pessoal.

Jonathan Barnett, um grande empresário de jogadores cuja lista de clientes inclui Gareth Bale, colega de Dele Alli no Tottenham, afirmou que alguns dos atletas que representa fazem o mesmo quando são vítimas de roubos. "Os principais jogadores acionam suas próprias equipes de segurança, especialmente quando estão longe das mulheres e das famílias", afirmou Barnett.

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Os principais jogadores acionam suas próprias equipes de segurança, especialmente quando estão longe das mulheres e das famílias
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Jonathan Barnett, Empresário de jogadores

Ainda assim, após os roubos mais recentes, a administração do PSG decidiu, pelo menos no curto prazo, fornecer segurança extra no entorno das casas dos titulares sempre que o time jogar. Um porta-voz do clube se recusou a responder perguntas a respeito dessas medidas ou sobre os roubos, afirmando que o time não comenta questões de segurança. Mas sua decisão será similar àquelas tomadas por vários dos principais times da Premier League, que estão muito cientes de que os movimentos de seus jogadores são cada vez mais documentados em tempo real nas redes sociais, incluindo os momentos em que eles estão hospedados em hotéis, chegando aos treinos ou viajando para jogar.

Além de patrulhas rotineiras em torno das casas dos jogadores, afirmou um graduado dirigente de um clube inglês, a maioria dos principais times passou a investir quantias significativas de dinheiro no aconselhamento de especialistas em segurança doméstica. "Vimos o impacto corrosivo que esse tipo de situação pode ter nos jogadores, principalmente nos recém-contratados", afirmou o dirigente de time da Premier League, que pediu para não ser identificado porque não está autorizado a falar publicamente a respeito de questões de segurança. "Isso pode realmente desestabilizar um jogador, fazendo com que suas famílias digam que não querem mais ficar por aqui." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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