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Antero Greco
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‘Quarta força’ pinta o 7

No início do ano, o Corinthians parecia menos forte do que os rivais locais. Engoliu todos

O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2017 | 04h00

Há conceitos no futebol, como na vida, que surgem não se sabe de onde e à custa de repetição se tornam verdades pé- treas, quase dogmas. Mas desaparecem com a velocidade com que despontam, num piscar de olhos. Não resistem a dois golpes de realidade.

Quer um exemplo? Aqui vai. No início do ano, naquele período de noticiário modorrento provocado pelo calor e pelas férias, se supôs que o Corinthians teria trajetória de coadjuvante. Pelo investimento modesto, pelo caixa vazio, pelo retrospecto de 2016 e pela animação dos concorrentes, despontava abaixo de Santos, São Paulo e sobretudo Palmeiras, o primo rico do momento.

Era a “quarta força” paulista. Não tenho a mínima ideia de quem cunhou essa expressão. Apareceu, e pronto. Foi usada pelos rivais como gozação e pelos alvinegros como motivação.

Como quem não quisesse nada, a trupe entregue a Fábio Carille beliscou pontos cá e lá, superou etapas e colocou no bolso a taça estadual pela 28.ª vez desde 1914. Primeira superação de um grupo de atletas mediano, sem astros sob guia de ex-auxiliar discreto de tantos figurões que passaram pelo Parque São Jorge. Por anos, Carille ficou à sombra de Tite, Mano, Oswaldo Oliveira e outros menos votados até ganhar a oportunidade de fato – e como parte do esquema de economia do clube.

A esperança com o Paulistão virou interrogação com fiascos na Copa do Brasil e na Sul-Americana, duas aventuras encerradas precocemente. Bateu no espírito do torcedor – e na avaliação do crítico, por que não? – a dúvida atroz: a largada promissora em 2017 seria só fogo de palha? O pior ainda viria?

Tempos bicudos deram o ar da desgraça, como não?! Mas para os que tentaram atravessar o caminho corintiano no Brasileiro. Num primeiro turno avassalador e invicto, o campeão abriu vantagem tão grande que murchou o torneio. Projetava-se a conquista do sétimo título com poucas rodadas mais no returno. Era a barbada do século.

Para dar um pingo de alegria para a turma da oposição sobrevieram derrotas e empates no returno. Estava a confirmar-se a previsão de Renato Gaú- cho, segundo o qual o Corinthians despencaria. Despencou mesmo... na cabeça dos outros. Ou, para usar expressões dos tempos de garoto, no sagrado solo do Bom Retiro (berço alvinegro, em 1910), levou todo mundo no bico, enganou os bobos na casca do ovo.

O Corinthians tornou-se campeão com folga, por merecimento e com virada, com autoridade, sobre o Flu. Nem venham com conversa fiada de apito amigo, ou papo de que Grêmio, Santos, Fla, Palmeiras erraram ao dar prioridade à Libertadores. “Se tivessem se empenhado, não haveria moleza.” Ladainha.

Mesmo com elencos superiores e mais caros, não tiveram competência, fôlego, regularidade, eficiência, nem tática para incomodarem. O líder não viu fumaça, cheirinho, sombra, pesadelo de outros competidores nem coisa nenhuma praticamente de cabo a rabo. Nunca esteve ameaçado.

Escrevi dias atrás que talvez não seja o time mais forte das sete estrelas corintianas. Houve melhores. Também não é o mais fraco. (Discussão que não cabe agora, na euforia.) Nem por isso deve ser menos reverenciado. Cássio, Fagner, Balbuena, Pablo, Arana, Gabriel, Maycon, Rodriguinho, Jadson, Romero, Jô, Pedro Henrique, Clayson, Kazim, Giovanni Augusto e demais pintavam como heróis improváveis e se tornaram protagonistas reais. Aplausos para eles – e para Carille, o arquiteto do time. Deram um bico no ceticismo e lavaram a alma em Itaquera.

É possível melhorar? Claro. Obrigação aprimorar a qualidade do grupo, sem esquecer da saúde financeira e do compromisso legal e moral de pagar o estádio. Para o torcedor, por ora, é encher o peito e soltar o grito: “Aqui é Timão, mano!” Pintou o 7!

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