Quartel-general da seleção, Teresópolis contrasta euforia com revolta

Cidade serrana tem bairros destruídos por enchente de 2011 e que carecem de ajuda

Almir Leite e Silvio Barsetti, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2014 | 06h58

TERESÓPOLIS - Pouco antes do pórtico da bucólica cidade que virou a casa da seleção brasileira, dias sem nevoeiro oferecem imagens amplas e ricas de uma parte do Rio e da Baía de Guanabara. Centenas de jornalistas do mundo todo, credenciados para cobrir os treinos da equipe em Teresópolis, desfrutam ainda da visão privilegiada do bairro Comary, em que a cada curva se podem ver bandeiras do Brasil no alto dos muros de casarões que chegam a custar R$ 3 milhões. A concentração da seleção, reformada recentemente ao custo de R$ 15 milhões, completa esse cenário que remete a apenas uma fração de Teresópolis. A poucos quilômetros dali, existe uma outra Teresópolis: mais real, crua, sem esperança, vítima da força da natureza e de ações demoradas e obscuras do poder público.

Nos bairros de Campo Grande, Posse e Caleme, onde centenas de pessoas morreram numa tempestade em 11 de janeiro de 2011, há pouca ou quase nenhuma menção à presença da seleção em Teresópolis. A Copa do Mundo não chegou nesses locais e isso não deve mudar nem mesmo quando a competição começar. Os sobreviventes daquela tragédia que ainda moram no local mantêm uma expressão grave, parecem conviver em silêncio e são reservados quando instigados a falar daquela madrugada em que toneladas de pedras desceram de montanhas, impulsionadas pela força da água, destruíram ruas e bairros e arrastaram crianças, idosos, famílias inteiras; gente que vivia em barracos ou em casas de luxo.

"A correnteza chegou a meio metro das janelas do segundo andar de minha casa. Com lanterna e um lampião, vi geladeiras, fogões, móveis passando pela minha frente. De repente, ouvi muitos gritos. Eram crianças que vinham em cima de pedaços de madeira, agarradas em galhos." O aposentado Samuel Augusto da Costa, de 75 anos, interrompe a narrativa. Os olhos vermelhos ocultam as palavras. Ele conversa com a reportagem num terreno de chão batido, firme e linear, sobre o qual existiam nove casas. Perdeu uma sobrinha, Aninha, levada pela avalanche e jamais encontrada.

Samuel alugou o que restou de sua casa para vizinhos. Mudou-se de bairro. Na manhã de quarta-feira, comentou que não vai acompanhar a Copa nem pela TV. "Quase todos aqui fazemos tratamento psicológico", contou José de Almeida, de 65 anos, outra testemunha de um drama que aflige mais diretamente essa região de Teresópolis. Ele se encontra semanalmente com Samuel e, naturalmente, relembram de outros tantos amigos que desapareceram sob pedras e terra.

Ali no bairro da Posse há obras de contenção de barragem, houve remoção de casas em situação de risco e a promessa de que muitos desabrigados logo estariam em lugar seguro, em imóveis doados em parceria pelos governos federal, estadual e municipal. Essa realidade ainda é distante para muitos. Marlene de Souza, de 59 anos, vive num morro do bairro de Campo Grande. Com uma inflamação na perna, praticamente não sai da cama. O casebre está condenado pela Defesa Civil.

A cada nova chuva, Marlene pensa na morte. "Naquele dia, estava tudo escuro, e eu só lembro de ouvir ‘corre! corre! sai daí! sai daí!’. Perdi cunhada, sobrinha, minhas primas." A empregada doméstica corre agora contra o tempo. Ela e o filho Leandro, motorista de caminhão, esperam pela construção de 80 prédios (1.600 apartamentos) no bairro de Ermitage, num terreno desapropriado pela prefeitura que vai receber cerca de 4 mil pessoas, todas cadastradas após o 11 de janeiro de 2011.

"Como pensar em Copa? Só penso no fim desse pesadelo", disse Leandro.

Três anos e meio depois da tragédia, apenas quatro prédios estão erguidos, e inacabados em Ermitage. A Emccamp Residencial, responsável pelas obras, pretende fazer uma entrega simbólica da primeira etapa (220 apartamentos) em 30 junho, a fim de aproveitar a estada da seleção em Teresópolis.

Por contrato, as obras, iniciadas em setembro de 2013, devem durar 24 meses. Quem financia as habitações é a Caixa Econômica Federal, com orçamento de R$ 135 milhões. O dinheiro é repassado ao Estado. Cabe à prefeitura a pavimentação e urbanização do local. "Essa intervenção vai ser feita por etapas", declarou o vice-prefeito de Teresópolis, Marcio Catão.

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) indenizou 292 famílias que mantinham casas à beira de rios em Teresópolis, com quantias em torno de R$ 55 mil. Muitas pessoas questionam esses valores. Alegam que são irrisórios. Por meio de nota, o Inea explicou que "os critérios de definição dos valores de indenização são baseados em decretos", que determinam a avaliação técnica dos imóveis.

A auxiliar administrativa Angela de Souza, então moradora de Campo Grande, recebeu uma proposta inicial de R$ 55 mil. "Não era suficiente para comprar outra casa. Depois de quatro meses, consegui um acordo para que o total chegasse a R$ 102 mil." Ela trabalha na escola municipal João Adolpho Josetti, atingida pela tromba d’água. Ali estudavam 191 crianças no final de 2010, Hoje, são apenas 66. Dezenas delas morreram naquela madrugada.

Outras foram morar longe de Teresópolis e não têm como participar dos dias festivos anunciados à entrada da cidade. Naquele trecho que leva à Granja Comary, caricaturas de craques da seleção e muitas fitas verdes e amarelas dão as boas vindas aos visitantes.

Algumas praças ali próximas estão enfeitadas. A prefeitura asfaltou este ano as ruas que dão acesso à Granja e pousadas e hotéis próximos da concentração da seleção não têm mais vaga para junho e início de julho.

PARA LEMBRAR - Chuvas mataram 809 pessoas

No verão, chuvas fortes atingem diversas regiões do Brasil e trazem um rastro de destruição (enchentes, deslizamentos) e de mortos. Os municípios da Região Serrana do Rio de Janeiro são os mais afetados. Em janeiro de 2011, um deslizamento provocou a morte de 809 pessoas em cinco municípios do Rio de Janeiro: Teresópolis, Nova Friburgo, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Petrópolis. Centenas de pessoas foram desalojadas ou desabrigadas (perderam suas casas).

Em 2002, houve deslizamento em Teresópolis, uma das cidades mais afetadas, além de Petrópolis e Angra. O Estado do Rio de Janeiro registrou 88 mortes. As chuvas de janeiro de 1966 causaram enchentes e desabamentos, deixando cerca 250 mortos e 50 mil desabrigados.

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