Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Que a colmeia uruguaia nos inspire

A impressão é que os uruguaios formam uma colmeia de 3 milhões de almas que se unem para ver e sentir aquela camisa celeste

Maurício Noriega*, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 04h00

Antes da espetacular vitória sobre Portugal, um colega jornalista uruguaio disse ao nosso grupo brasileiro, na noite quente de Sochi, que não precisávamos nos preocupar com o jogo das oitavas de final: “basta jogar a camisa do Brasil no campo que vocês ganham”, afirmou. Confesso que não compartilho desse otimismo do vizinho, embora acredite que o Brasil vá confirmar a velha máxima futebolística de que o México jogou como nunca e perdeu como sempre.

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O que gostaria mesmo de ver é a seleção brasileira incorporar um pouco do espírito uruguaio, da naturalidade com que os jogadores da banda oriental levam seu país e sua cultura para dentro de campo. A impressão que fica é que os uruguaios formam uma colmeia de 3 milhões de almas que se unem para ver e sentir aquela camisa celeste vestida por 11 patrícios. Quando foram sufocados pelos portugueses, se entrincheiraram como se Montevidéu fosse Volgogrado cercada pelas tropas de Hitler.

Não me refiro a bobagens como o patriotismo de montagens de rede social. Muitas das figuras de linguagem bélicas que nós, jornalistas, incorporamos ao futebol são clichês de gosto duvidoso, admito. Escrevo sobre a naturalidade da representação cultural de um povo e de sua gente, seus costumes e tradições. O futebol é a mais perfeita imitação da vida no ambiente esportivo também porque traduz melhor que qualquer outro jogo o cotidiano das nacionalidades.

O Brasil e o brasileiro ainda hoje são associados ao jogo bonito, à alegria e à naturalidade com que nossos maiores craques exportaram a arte do futebol cinco vezes campeão mundial. Ainda não vejo nesta competitiva seleção brasileira a mesma naturalidade dos uruguaios. Nosso time é melhor, embora eu ache que Suárez e Cavani seriam titulares no Brasil. Mas há uma certa artificialidade que incomoda. Nunca sei se o Tite está dando uma entrevista ou vendendo uma TV. O discurso é muito parecido. Até as mordidas do Suárez parecem mais sinceras que os tombos do Neymar. Sem falar do Paulinho repetindo que venceu na vida e calou a boca de todo mundo que duvidava dele. Repare que, após cada vitória, os uruguaios falam nos 3 milhões que eles representam. Conjugam o verbo sempre na terceira pessoa do plural.

 

Pode soar tudo como uma grande baboseira. Mas vejo ainda uma conexão artificial da seleção com sua gente. Como as insossas músicas compostas pelos torcedores na Rússia. Parece tudo pensado para conseguir “likes”. Há jogadores que procuram repórteres para reclamar de palavras colocadas em reportagens elogiosas. Os parças atacam ferozmente quem ousa dizer que o dono da chave do cofre não jogou tão bem. Estão acostumados com bajulação, paparicação, muitas vezes parecem curtir pouco o justo e merecido sucesso.

Que o espírito charrua contagie os brasileiros. Nada de dar carrinho na bandeira de escanteio ou beijar a camisa para postar no Instagram. Mas que o talento flua da forma natural como 200 milhões fazem a cada churrasco em que se juntam para festejar a arte de ser brasileiro, de seguir em frente, de sobreviver a cada dia ao espetáculo decadente em que os maus brasileiros tentam transformar nossa terra. Que o México trema para uma colmeia brasileira de inspiração uruguaia!

*COMENTARISTA DO SPORTV

 

 

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