Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Que a seleção siga a Argentina. Sem sofrer

Que o arrepio dos vizinhos sirva de alerta para Tite e seus rapazes, no duelo desta quarta com a Sérvia

Antero Greco, colunista

27 Junho 2018 | 04h00

O gol de Rojo, aos 41 minutos do segundo tempo, foi de arrepiar. Para quem gosta de futebol, impossível ficar indiferente à explosão de alegria dos argentinos, por sentirem que ali estava a salvação da lavoura vice-campeã da Copa de 2014. Era o momento do alívio, do ressurgimento de um grupo desacreditado e bagunçado. Raça e talento acima de estratégia prevaleceram nos 2 a 1.

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Na hora, bateu também aperto pelos nigerianos. Eles estavam há poucos giros do cronômetro de repetir façanha de 1994, 1998 e 2014, quando avançaram para as oitavas de final e se consolidaram como força africana. Não deu. Pena. 

Mas, que diabos, era time sul-americano que seguia adiante! E, por mais que alimentemos rivalidade fútil com os hermanos, nessas ocasiões prevalece, ao menos para este que vos escreve, o sentimento de pertencer a uma região com história, cultura, problemas, esperanças e desilusões semelhantes aos nossos. “Soy louco por ti, América”, como cantou Caetano Veloso, como escreveu Marcos Rey. América Latina sempre. 

Puxa, seria decepcionante ver eliminada, já, a segunda maior fonte de craques do mundo. Só não precisava ser com tanta agonia. Incompreensível como a Argentina padeceu para obter a primeira vitória. Com a qualidade dos atletas que possui, deveria ter superado o turno sem maiores complicações. O problema está nela mesma. Raras vezes vi uma equipe tão capenga, desarrumada, mal-ajambrada como esta. Parecia um catadão de fim de semana a correr atrás da bola.

 

Messi fez um gol, desencantou, porém errou passes e dribles acima do que lhe é normal. Em vários closes, a telinha ficava tomada pela expressão tensa do astro do Barcelona. Higuaín deu caneladas mais do que o normal, o xerife (e técnico não oficial) Mascherano se complicou no lance do pênalti (que eu não daria). Outros chafurdavam em falhas tolas. Um deus nos acuda, que levou Maradona a ter mais um piripaque nas tribunas do estádio - felizmente nada grave.

Que o arrepio dos vizinhos sirva de alerta para Tite e seus rapazes, no duelo desta quarta com a Sérvia. O treinador nacional afastou qualquer sombra de ameaça sobre alguns titulares e, para acabar com especulações, confirmou a escalação: a mesma do jogo com a Costa Rica. No entendimento dele, não há por que mudar, os rapazes merecem confiança, sabem o que fazer, têm condições de vencer. Enfim, a tentativa costumeira do chefe mostrar-se fechado com a tropa. 

Atitude bacana, por um lado - não queima ninguém, não despeja sobre certas cabeças responsabilidade pelas duas apresentações iniciais bem mornas. Ou seja, não passa para os 23 a imagem de empurrar culpas para outros. Em contrapartida, há risco de a coerência confundir-se com birra, teimosia, e isso não contribui para aperfeiçoamento. Tite está diante do maior desafio da carreira, numa competição de tiro curto, na qual tudo tem de sair quase à perfeição para desembocar no título. Para isso foi chamado em 2016. 

Tem, portanto, o direito e a obrigação de mexer em qualquer setor ou com qualquer jogador, se perceber que não funciona. E o Brasil ainda não está ajustado. A lateral direita teve ligeira melhor com a entrada de Fagner. Chance que surgiu com a contusão de Danilo e não por constatação de Tite. Por enquanto, Paulinho e Willian está aquém do habitual, e não há movimento para trocarem o gramado pelo banco. Neymar é a estrela maior, aos poucos recupera forma. Falta-lhe controlar os nervos e a ansiedade. 

Tite tem crédito, não se trata de novato ou paraquedista na função. Tampouco assumiu o cargo por apadrinhamento. Que não seja um Sampaoli, mais deslocado do que noviço em discoteca. E que o Brasil siga a Argentina, na classificação para as oitavas de final e não nos calafrios e tremedeira que deu à torcida.

*ANTERO GRECO É COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E COMENTARISTA DA ESPN

 

 

 

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