Que venha o Brasil e que vença a Colômbia

Colônia colombiana na cidade é a maior do País e vive a expectativa de ir mais longe ainda na Copa

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2014 | 05h00

Que venha o Brasil. E que vença o melhor. Para os torcedores colombianos que vivem em São Paulo, o clima não podia ser mais positivo. Logo quando a Copa do Mundo acontece no País que eles escolheram para viver, a seleção nacional atinge a melhor classificação da História – antes, a Colômbia havia participado das Copas de 1962, 1990, 1994 e 1998, sem nunca ter conseguido passar das oitavas de final.

Surpresa? Para o chef de cozinha Jair Affonso Abril Rojas, de 35 anos, não. "Nosso time está muito bom. Eu esperava que fizéssemos um bom Mundial", comenta. "O que não contava era encarar logo o Brasil." O restaurante onde ele trabalha, o Guanahaní (Rua Joaquim Antunes, 391, Pinheiros) está se consagrando como o ponto de encontro da colônia colombiana em São Paulo para torcer pela seleção.

"A casa tem lotado a cada jogo da Colômbia. Na sexta, quando o adversário será a seleção brasileira, o clima vai ser ainda melhor", espera o gerente do restaurante, José Augusto de Oliveira - brasileiro "infiltrado" em campo adversário, já que por trabalhar ali, não tem jeito, anima-se pela Colômbia também.

Durante os dias de jogo, a casa oferece três combos especiais das tradicionais "picadas" colombianas. A primeira leva pipoca, torresmos, chips de banana e carne de sol. A outra tem peixe, anéis de lula, mexilhões, polvo, pimentões e batatas. A última traz batata, mandioca, linguiça, carne de sol, frango e guacamole. "Têm feito tanto sucesso que já pensamos em mantê-las no cardápio após a Copa", diz o gerente.

Jair trocou a Colômbia pelo Brasil há dois anos. E não se arrepende da decisão. Com o perdão do trocadilho, ele acredita que, para sua profissão, morar em São Paulo é um prato cheio. "Aqui é a capital mundial da gastronomia. E o paulistano é um povo aberto a experimentar culinárias diferentes", define. Quando chegou a São Paulo trabalhou em outro restaurante, até ser contratado pela sua conterrânea, a proprietária do Guanahaní, Pupi Lopez, que vive no País há duas décadas.

Sobre o jogo da próxima sexta, ele prefere não arriscar um palpite. "Ambas as seleções estão jogando bem. Acho que vai ser uma partida bem complicada, pois os dois vão dar o máximo para ganhar|", comenta.

RUA

Outro ponto colombiano de São Paulo é o Sabores de Mi Tierra (Rua Lisboa, 971, Cerqueira César). Ali a pegada é comida de rua, tudo sob os cuidados do chef Dagoberto Torres – e sua tia, Magdalena Torres. Entre os petiscos colombianos servidos estão a arepa (massa de milho branco assada), o pernil acebolado e os patacones (discos fritos de banana-da-terra cobertos por costela de boi desfiada).

E foi a gastronomia paulistana que acabou fixando em São Paulo outro casal colombiano. Há dois anos, a veterinária colombiana Nash Robles, hoje com 29 anos, mudou-se temporariamente para a capital paulista a fim de fazer uma pós-graduação. Com ela veio o marido, o comerciante Carlos Andres Tellez, hoje com 28 anos. "Viemos de ônibus, numa longa viagem, com apenas duas mochilas", recorda-se ele.

O que era para ser temporário acabou se tornando definitivo. Carlos já tinha trabalhado em restaurantes colombianos e decidiu ir para a cozinha aqui também. O casal acabou montando o Locombia, um food truck que vende costelinhas suínas (com temperos colombianos) assadas com batatas. "Eu cuido dos porquinhos e ele os prepara", brinca a veterinária, que não abandonou a profissão de origem mas dá uma força para o marido no estande.

"Estamos estabelecidos aqui em São Paulo. Eu adoro a cidade justamente por ela ser grande, cosmopolita", afirma Carlos. Quanto à participação da seleção colombiana na Copa, ele faz quase uma ameaça: "Nosso time ainda vai surpreender mais, apesar de o Brasil ser favorito".

Graças a um acordo bilateral assinado pelos governos brasileiro e colombiano em 2012, ficou mais fácil para quem nasceu em um país e quer viver no outro. Desde então, a solicitação de residência pode ser feita em consulados sem necessidade de vínculo com instituição de ensino ou empresa – acordos semelhantes já haviam sido feitos pelo Brasil com Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia e Peru.

Com o visto permanente, os colombianos podem ter garantidos direitos trabalhistas e previdenciários e até transferir recursos e a nacionalidade para os filhos. Atualmente, são cerca de 8 mil colombianos vivendo no País, a maior parte deles em São Paulo.

Não há um centro cultural colombiano na cidade. Os ligados à Igreja Católica, entretanto – como é o caso do imigrante Julián Zapata Betancur – costumam se reunir no grupo Missionário de São Carlos, na Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Glicério, região central da cidade. A iniciativa surgiu há pouco mais de dois anos, graças a religiosos colombianos que já viviam em São Paulo. Entre as ações do grupo, estão a celebração de missas em honra a Virgen de Chinquiquirá, padroeira nacional da Colômbia – cuja festa é comemorada em 9 de julho.

E é no feriado de 9 de julho que acontece um evento, grátis, que também trará para São Paulo um pouco da cultura colombiana. Trata-se da sexta edição do Conexão Cultural, no Museu da Imagem e do Som (Avenida Europa, 158, Jardim Europa). Sob o tema "São Paulo latino-americana", algumas atrações vão remeter ao país.

Às 16h, apresenta-se ali a banda El Cartel. Será um show de cumbia, tradicional ritmo colombiano. O food truck Locombia estará também no museu. E, no mesmo dia, será aberta ali a exposição São Paulo Latino-americana, criada pelo casal colombiano Sergio e Vivi, do Nu9ve Polar. A obra é uma instalação chamada de A Metáfora do Elixir Ancestral, montada a partir de seleção, por meio de convocatória, de imagens postadas na rede social Instagram. A exposição fica em cartaz até o dia 23.

CENTRO CULTURAL

Em Brasília é diferente. Ali existe desde 1997 o Centro Cultural Brasil Colômbia, uma ong que oferece atividades que promovem culturalmente o país aqui no Brasil. Recentemente, eles realizaram um festival de cinema colombiano, por exemplo.

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