Felipe Oliveira/EC Bahia
Roger Machado foi a última vítima da 'dança das cadeiras' dos técnicos nas primeiras rodadas do Brasileirão Felipe Oliveira/EC Bahia

Número de demissões de técnicos cresce na edição 2020 do Brasileirão

Rodadas iniciais registram índice de demissão maior do que em anos anteriores e superior até ao da Série B

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2020 | 05h00

O Campeonato Brasileiro de 2020 tem sido um terror para os técnicos. Apenas nas sete primeiras rodadas da Série A, seis comandantes perderam o emprego e há alguns outros sob intensa pressão. A quantidade acelerada de dispensas faz a temporada conviver com uma instabilidade ainda maior em comparação à média histórica dos últimos anos, que é de uma demissão a cada duas rodadas.

O último treinador a deixar o cargo foi Roger Machado, do Bahia, mandado embora após derrota para o Flamengo na última quarta-feira, 02/09. Se for considerada a temporada toda, iniciada em janeiro, somente oito dos 20 times da elite nacional não demitiram o treinador. As exceções são Internacional, Grêmio, São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Fortaleza e Fluminense. Mesmo assim, Fernando Diniz, Tiago Nunes e Luxemburgo estão sendo cobrados nos cargos. 

O Flamengo também entra nessa conta, apesar de estar de comandante novo. Mas o clube rubro-negro só trocou de técnico porque o português Jorge Jesus decidiu aceitar uma proposta do Benfica e ir embora.

Para quem acabou demitido, a sensação é de que o mercado está mais cruel do que nunca. A habitual pressão pelos resultados tem como grande complicador os efeitos da pandemia do novo coronavírus. O calendário mais apertado deixa pouco tempo para os times treinarem entre uma partida e outra. Fora isso, a doença tem causado desfalques seguidos nas escalações.

Dois técnicos encararam esse problema de formas diferentes. No Goiás, o técnico Ney Franco chegou a ter mais de dez jogadores contagiados, precisou escalar vários reservas e acabou demitido após três jogos sem vencer. Dorival Junior vivenciou no Athletico-PR a limitação de ser infectado ele próprio pela covid-19 e precisar ficar dez dias em isolamento. Nesse período, sem ele no comando direto, o time perdeu três partidas consecutivas. Quando voltou ao posto, perdeu o emprego após outra derrota. Procurados pelo Estadão, Ney Franco e Dorival preferiram não comentar o tema.

Na opinião do técnico Daniel Paulista, dispensado do Sport após quatro rodadas sem vencer, as equipes precisam ter uma proposta mais clara quando se trata de definir quem será o técnico. “Falta convicção das atitudes. Muitas vezes são decisões tomadas por impulso. Por vezes é mais fácil demitir o treinador para se justificar para a torcida, diretoria e mídia do que admitir algumas falhas no processo”, disse ao Estadão.

BOMBEIRO

Mesmo quem assumiu o comando agora não deve ter facilidade. Segundo Daniel, os novos ocupantes nos cargos abertos não estão livre da cobrança e das dificuldades para se adaptar rapidamente ao clube. “Muitas vezes você é mais bombeiro do que técnico. Todos os problemas são jogados no nosso colo como se a gente fosse a salvação. O futebol está em situação descontrolada.”

Uma curiosidade deste ano é que até o momento ocorreram mais demissões na Série A do que na Série B. No segundo escalão do futebol brasileiro, quatro treinadores perderam o cargo.

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“Muitas vezes você é mais bombeiro do que técnico. Todos os problemas são jogados no nosso colo como se a gente fosse a salvação. O futebol está em situação descontrolada.”
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Daniel Paulista, ex-técnico do Sport

Um deles foi Márcio Coelho, do Figueirense. Ele também pegou covid-19, ficou dez dias afastado e, no retorno, perdeu o emprego após a eliminação da equipe na Copa do Brasil contra o Fluminense – seu trabalho já vinha sendo contestado desde a eliminação precoce do Campeonato Catarinense.

Ele defende que, para a situação do futebol brasileiro mudar em termos de estabilidade, seria preciso os próprios colegas terem outro comportamento. “Quando um técnico sai, já tem uma dezena querendo o seu lugar. Em termos de questões éticas, eu penso que a nossa classe deveria ser mais unida.”

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Clubes barram limite de troca de treinadores em uma única edição

Lei 'Caio Júnior' permitiria trocas apenas após dívidas serem quitadas com técnico anterior

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2020 | 05h00

A Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol (FBTF) foi criada em 2013 com o objetivo de representar os interesses da categoria. Uma das principais reivindicações da entidade é aprovar a Lei Caio Júnior – nome dado em homenagem ao treinador que morreu na queda do avião em que estava a delegação da Chapecoense, em 2016 –, que tramita no Congresso. O texto obriga que um clube só possa contratar outro treinador após quitar todas as dívidas com o comandante anterior.

Outra proposta da FBTF é incluir no regulamento dos campeonatos uma limitação para a troca de técnicos. “A CBF tem tentado colocar essa regra para impedir a rotatividade de treinadores, mas os clubes sempre derrubam. O futebol melhoraria com isso, porque os profissionais teriam mais estabilidade”, afirmou o presidente da entidade, José Mário Barros.

De fato, nas últimas reuniões do Conselho Arbitral, os clubes aprovaram várias propostas, como a utilização do VAR e a liberação dos gramados sintéticos, mas a proposta de limitar a troca de comandante nos times esbarrou na resistência da maioria dos dirigentes de futebol, justamente aqueles que decidem pela demissão do profissional.

Entre os técnicos da Séries A e B, o atual recordista de permanência é Gerson Gusmão. O treinador do Operário (PR) está há quatro anos e meio no cargo. Nesse período, conquistou as Séries D e C do Brasileiro e se manteve na Série B em 2019. 

“A diferença no meu caso é a visão do clube. Passamos por momentos de cobranças e de resultados ruins, mas a direção sabia dos nossos projetos e me deu tranquilidade”, disse.

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