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Quem comanda?

Ausência de grandes batedores de falta no futebol brasileiro pode ser explicada por cálculo de tempo e cargas de treinamentos

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2020 | 04h00

O jogador estava ali diante do repórter, pronto a responder perguntas protocolares e dar respostas também protocolares. Alguma coisa, porém, não deu certo, já que a entrevista só teve uma pergunta para a qual o jogador deu uma resposta das mais interessantes. O jornalista perguntou diretamente a razão de terem desaparecido os batedores de falta no Brasil.

Parece simples, mas é uma pergunta capciosa. Realmente, o que aconteceu com os grandes batedores de falta? Neymar, na minha opinião um cobrador de faltas mediano, é tido como um exemplo dessa longa tradição brasileira na especialidade. O fato é que de Rivellino, Zico, Nelinho, Jorge Mendonça, Eder, até Neto, Marcelinho Carioca, Rogério Ceni e Marcos Assunção não há nem sombra. Qualquer falta hoje, mesmo aquelas temíveis faltas perto da área, não causa mais o menor temor.

O tiro direto parece que foi substituído pela tal jogada ensaiada. A bola não é lançada contra o gol, mas contra alguma cabeça perdida no bolo que se forma na área. Custo a ver algo de jogada ensaiada nessa bola. Sobram mais jogadas perigosas em que cabeças batem contra outras cabeças, prostrando jogadores na grama quase desmaiados.

Eventualmente uma bola dessas entra no gol. A isso chamam de jogada ensaiada. O batedor é aquele que sabe dar uma curva na bola procurando o ponto exato em que vai haver maior número de cabeças. Antes a bola fazia curva também, mas era para sair da barreira e buscar um ponto em que o goleiro não mais pudesse alcançar.

Voltemos, porém, à entrevista do jogador. Coloco de forma direta o que ele disse de forma oblíqua, certamente por receio de ser mal interpretado e estar acusando pessoas da equipe técnica do clube. Limpa de qualquer desvio, a resposta é a seguinte: “A razão para não haver mais batedores de faltas é que somos impedidos de treinar essas cobranças”.

O repórter não entendeu bem e o jogador completou. “As equipes de preparação física hoje comandam os treinos e gastam o todo o tempo treinando outras coisas, de modo que, quando o treino termina, se alguém resolve por conta própria treinar cobranças, como se fazia antigamente, é impedido para não ultrapassar a carga cientificamente estudada de treinamento, o que poderia levar a problemas musculares.”

É isso, a equipe de preparação física se interessa por aspectos que, presumo, devem zelar pela resistência, energia, velocidade e impulsão dos jogadores. Treino com bola, ficou, parece, em segundo plano. Todos sabemos quanto a perícia de bater uma falta depende de treinamento. 

Se não há mais lugar para esse treinamento, temos esse deserto de batedores que é o atual futebol brasileiro. Vai longe o tempo em que se empregavam todos os momentos possíveis para aperfeiçoar qualidades inatas do jogador. Vai longe o tempo de Telê Santana infatigável em orientar, depois de terminados os treinos, os cruzamentos de Cafu até a exaustão. 

Hoje é comum nas matérias jornalísticas vermos jogadores pulando, correndo em espaços de areia, enfim fazendo exercícios musculares. O problema desses treinamentos é que os adversários também treinam do mesmo modo. De maneira que, no fim, temos, dos dois lados, gente correndo como nunca. É claro que vão me dizer que a preparação física baseia-se hoje em fazer com que jogadores aguentem jogar em duas, três competições simultâneas, todas extenuantes física e emocionalmente. E não há tempo para treinar cobranças de faltas.

Mas quem liga para isso? É apenas uma coisa do passado, daquele futebol antigo que ao pressentir o talento buscava aperfeiçoar suas qualidades, fazendo-o treinar sem medo de comprometer a forma física. Tenho muitas saudades dos gols de falta. As federações podiam muito bem instituir um prêmio para o gol de falta. Qualquer um, qualquer gol, pelo amor de Deus! Só não vale frango de goleiro. 

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