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Imagem de Ronaldinho Gaúcho é poderosa o suficiente para interromper noticiário do coronavírus

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2020 | 04h00

No meio de um noticiário particularmente sinistro sobre a doença que anda por aí, com dados alarmantes e novidades de arrepiar, o apresentador se detém, e dá uma outra notícia: Ronaldinho Gaúcho tinha obtido o direito de prisão domiciliar no Paraguai.

Primeiro achei estranha uma notícia dessas, sem muita importância, se interpor entre notícias de algo que vem desequilibrando nossas vidas. Em seguida me dei conta que eu nem lembrava mais de Ronaldinho Gaúcho, embora sua prisão fosse recente. É que o mundo tinha passado por ele, varrendo-o da memória de todos, pelo menos da minha.

Mas devo admitir que sua presença em meio ao noticiário inteiramente dominado pela doença, me fez pensar como era ainda poderosa a imagem desse antigo craque, talvez porque tivesse, em companhia de Rivaldo e Ronaldo Fenômeno, mostrado ao mundo o último grande feito do futebol brasileiro, a última vez que tínhamos nos apresentado como protagonistas no esporte em que mais vencemos.

O fato desse personagem irromper na televisão quando eu jamais esperava que fosse notícia neste momento mostra que ainda há muita gente marcada pela sua passagem no futebol, num momento glorioso do Brasil. E de repente, sem motivo, comecei a pensar no destino de Ronaldinho Gaúcho. Sua prisão, um pouco ridícula, que deixou perplexos até os policiais paraguaios, antecedeu um pouco, eu acho, a avalanche do coronavírus no Brasil.

Não sei como era a prisão de Ronaldo. Devia ser realmente horrível para ele ter pedido para ser transferido para prisão domiciliar. Digo isso por experiência própria, hoje eu sei o que é prisão domiciliar e, a menos que Ronaldo estivesse numa prisão tipo brasileira de último escalão humano, com os detentos amontoados como animais em jaulas de espaço completamente inadequada para a vida em comum, acho que ele não fez um bom negócio.

Não tenho dúvidas que ele ainda tem dinheiro e muito, portanto, essa prisão domiciliar para a qual ele está indo terá todos os confortes habituais das pessoas com dinheiro. Acho, porém, que a tortura será mais refinada. Ele vai sentir essa tortura quando perceber que tudo na sua nova residência parece normal, as coisas estão em ordem, ele pode ir da cozinha até a sala ou ao escritório, talvez alguns objetos pessoais até sejam trazidos para ajudar a se aclimatar na casa. Porém, ele pode ir até a janela e ponto final. Diante dele haverá uma vida proibida.

As ruas estarão à sua disposição, mas ele não pode alcançá-las. Tudo lá fora é um convite tentador, visível, próximo, ao alcance da mão, mas proibido. Talvez ele tenha ímpetos de se atirar elevador abaixo e ganhar a rua, mas não pode. Definitivamente a prisão domiciliar é um a imitação da vida, o mais perto possível do que é a vida, mas não é a vida. Aí está a tortura. Se ele se desesperar na prisão domiciliar vou compreendê-lo perfeitamente. É horrível sob todos os aspectos.

Se isso serve de algum consolo para Ronaldo é que sua posição não é diferente da que todos, nas grandes cidades do Brasil, estamos submetidos. Ele é apenas mais um prisioneiro, com talvez uma pequena diferença: todos nós somos prisioneiros voluntários enquanto ele é obrigado. Só isso. Essas experiências são, de alguma forma, úteis.

Nunca mais vou considerar a prisão domiciliar um benefício ou me indignar quando um réu obtém essa “vantagem”. É apenas uma forma de o Estado se livrar dele, conservando a punição e a tortura. Um conselho me permito dar ao Gaúcho, meu irmão de pena: faça qualquer coisa, invente algo incomum, mande comprar uma bola de borracha, mas em hipótese alguma ligue a televisão. Pelo menos do suplício adicional das notícias você pode se livrar.

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