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Quem protege o juiz?

VAR é vendido como uma máquina, mas não é; reclamação de Marinho deveria abrir nova jurisprudência no esporte

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

05 de setembro de 2020 | 21h00

A primeira proteção do juiz deveria ser a máscara. Por que os juízes não usam máscara? Não falam, ou não deveriam falar. Quanto à impossibilidade de apitarem portando a máscara, poderia ser feito um elegante orifício através do qual passasse o apito e o árbitro estaria protegido. Ou mais protegido do que está. Em geral são bem mais velhos que os jogadores, portanto, mais próximos das zonas de risco. Não seria normal que fossem protegidos de diálogos travados quase cara a cara, reclamações se sucedendo e pressão, às vezes, do time inteiro, todos aglomerados sobre o juiz vociferando incessantemente?

Esse problema parecia resolvido há anos. Para evitar reclamações sem sentido foram inventados os famosos cartões. Não lembro qual a Copa do Mundo que inaugurou a existência de cartões exatamente para propor uma linguagem de sinais que oferecesse alternativa para a profusão de linguagens em campo num jogo de Copa. Nem no interior das seleções havia perfeita unidade de linguagem.

A invenção dos cartões com cores diferentes sinalizando diferentes penalidades resolveu de tal forma o problema que foi estendida para campos e campeonatos onde todos falam a mesma língua, num paradoxo sem qualquer sentido. Usado o cartão ficariam imediatamente proibidas, pelo menos em tese, todas as reclamações.

É claro que esse uso correto dos cartões foi demolido imediatamente no Brasil e a pressão sobre árbitros parece uma coisa incontrolável entre nós, a ponto de o jogador brasileiro ser detestado em certas partes do mundo onde as reclamações são menos habituais.

Enfim, penso que poderia ser aproveitada a pandemia para dar maior proteção a alguém que normalmente é pouco citado quando se trata de segurança contra a doença no futebol. E agora ainda temos o VAR, que torna a questão dos juízes ainda mais turva.

O VAR é vendido como uma máquina, parece uma máquina, mas não é uma máquina. Por traz dela há seres humanos, juízes dos juiz, que tomam as decisões disfarçados de máquina. Os jogadores, entretanto, não vendo senão a máquina, insistem em continuar pressionando os juízes.

Pois bem, alguns dias atrás finalmente houve um incidente controverso e polêmico, inegavelmente saboroso. O pivô do incidente não poderia ser outro senão Marinho, conturbado e talentoso avante do Santos. Cansado de ver tantos gols do seu time anulados nas últimas partidas, me refiro especificamente aos jogos contra o Flamengo e Vasco, ao ser, finalmente, validado um gol de sua autoria, foi flagrado ao se aproximar da máquina, dedo em riste, e, solenemente, desfechar uma bela esculhambação na engenhoca.

O fato notável é que dentro da engenhoca aparentemente algo se julgou ofendido pelo protesto do jogador. Tanto é que depois, certamente por medo de punições, houve desmentido e a alegação de que Marinho estava se dirigindo a alguém situado à esquerda do VAR, fora de quadro. Acredite quem quiser.

Primeiro, torço para que o episódio realmente tenha acontecido como penso que aconteceu. Depois acho que ele foi importante, entre outras coisas, por estabelecer um novo aspecto da jurisprudência esportiva, tendo em vista a existência da máquina no jogo. 

Quero dizer: qual a punição por ofender uma máquina? A máquina tem uma moral intrínseca que pode ser ofendida, manchada ou desrespeitada? A moral da mãe do VAR pode entrar em discussão? E a virilidade ? Aliás, como gênero, é a VAR ou o VAR?

Que se transfira para a máquina tudo que era atribuído ao juiz e à sua mãe e sua mulher, eis o que inaugura o gesto do Marinho. A multidão de torcedores enfurecidos que se reúna diante da máquina e embace com seus perdigotos, brados e urros o vidro da frente protetor. E esqueçam o juiz, mas não esqueçam de lhe permitir que use uma máscara, para seu completo sossego.

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