Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Queremos divulgar o áudio das conversas do VAR', diz nova chefe da arbitragem da FPF

Ex-assistente, Ana Paula Oliveira sonha em ter quadro de arbitragem estadual com até 20% de presença feminina e vai trabalhar para isso

Entrevista com

Ana Paula Oliveira, presidente da comissão de arbitragem da FPF

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2019 | 10h00

Árbitros com formação qualificada, revelação de talentos, maior presença feminina no apito e mais transparência nas decisões da arbitragem de vídeo (VAR). A primeira mulher a presidir a Comissão de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF), Ana Paula Oliveira, assumiu o cargo na última semana com definições claras sobre quais projetos quer levar adiante na temporada 2020. Em entrevista exclusiva ao Estado, concedida na sede da entidade, a ex-assistente revelou como vai atuar como substituta do antecessor, Dionísio Domingos. Prometeu estabelecer diálogo com os clubes paulistas e disse ter preocupação especial com quem atua em campeonatos menores, como terceira e quarta divisões. 

Como surgiu essa oportunidade de chefiar a arbitragem?

Teve uma reunião há uns 20 dias e aí o presidente (Reinaldo Carneiro Bastos, da FPF) me convidou para assumir a comissão de arbitragem. Eu aceitei o desafio. Em um cargo com essa importância e representatividade, você está quebrando tabus por ser mulher. Sabia que poderia ter esse posto em outro país da América do Sul, em função de atuar na Fifa e na Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol). Um dia teria essa oportunidade aqui em São Paulo, mas isso ainda era uma questão sobre como seria a reação da sociedade. A aceitação me surpreendeu positivamente, principalmente por parte dos árbitros homens. Isso me dá tranquilidade para trabalhar, mas também a responsabilidade pela expectativa.

Qual é o maior desafio no cargo?

Nosso "calcanhar de Aquiles" não são os árbitros de elite. O meu desafio é revelar novos árbitros. Raphael Claus, Luiz Flávio de Oliveira e Flávio Souza são do quadro da Fifa e estão acima da casa dos 38 anos. A durabilidade deles no cenário internacional é de cinco anos, em uma visão otimista. Preciso preparar novos árbitros para ocupar essas vagas. Se não, perco nossas vagas para outros Estados. Falando da formação, preciso ter instrutores e um bom quadro de analistas. Quero ir aos jogos para analisar os árbitros, junto com instrutores e ex-árbitro experientes que tenham facilidade para aprender sobre tecnologia. Não adianta hoje em dia ficar só na prancheta. 

Pretende fazer mudanças no VAR?

Questões que a gente pode melhorar para minimizar a reclamação: usar o experimento de transmitir ao vivo as revisões. Divulgar para o estádio o que está sendo visto. Para fazer isso preciso ter o aval do departamento de comunicação, da tecnologia, da transmissão pela TV, de saber se o estádio tem capacidade para essa demanda, se isso é possível ou não. Uma outra questão é utilizar o que a Conmebol está fazendo. Queremos a divulgação dos áudios de jogadas decisivas. Isso, primeiramente, vamos analisar internamente se o nosso público está pronto para fazer. O VAR excelente é aquele que não é usado. Porque meu árbitro fez um trabalho extraordinário em campo.

O que você traz da sua experiência de campo para agora?

É uma questão de entender a mudança cultural da sociedade. Vamos fazer palestras sobre integridade, que é fundamental para o árbitro se comportar, como evitar devolver ofensas. O segundo ponto é abordar rede social, para ensinar como utilizar, para não ter foto de árbitro com camisa de clube em um churrasco. Nós temos problemas com isso. Vamos ter de corrigir. O outro ponto é ter uma palestra sobre assédio sexual e moral. No meu quadro hoje, sem ser só nos árbitros de elite, tenho homossexuais e lésbicas. O que não pode acontecer é ter piada, ofensa, uso e abuso do pequeno poder. Isso não posso permitir. Não posso ter hipocrisia de dizer que faço justiça no campo de jogo, mas não faço aqui dentro. Isso é reflexo do que vivi na minha vida. A arbitragem de São Paulo precisa ser diferenciada, e isso começa pela educação.

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No meu quadro hoje, sem ser só nos árbitros de elite, tenho homossexuais e lésbicas. O que não pode acontecer é ter piada, ofensa, uso e abuso do pequeno poder. Isso não posso permitir
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Ana Paula Oliveira, chefe da arbitragem da FPF

Como vai incentivar a arbitragem feminina?

Temos de tratá-las com igualdade e equidade. As que já estão no cenário, têm de ser trabalhadas como árbitras de elite. Isso é tratar com igualdade. Para quem estiver chegando, praticar equidade ao dar para elas as mesmas ferramentas e condições oferecidas aos homens, seja de escala, de treinamento ou ade companhamento. O grande desafio é dar espaço, mas não de qualquer maneira. É dar espaço para aquelas que merecem, para a menina que faz teste masculino, que vai bem na prova teórica, para quem treina e se dedica, procurou aprender, dar ferramentas para se chegar ao sonho dela. Ajudar a formar. Se o erro dela for igual ao do árbitro homem, o afastamento e a "reciclagem" também serão iguais. 

A senhora tem uma meta de quantidade sobre a presença de mulheres no quadro de arbitragem da FPF?

Nós temos agora 5% do quadro feminino. Quem sabe em até quatro anos a gente possa ter 20% do quadro. Acredito que seria uma boa representatividade. Porém, para conseguir isso, preciso que mulheres estejam interessadas em ser árbitras e assistentes. Para 2020, vou receber 38 meninas. Se a gente conseguir levar duas para a elite, estou no lucro. Você precisa ter quantidade para tirar qualidade. 

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O clube não pode me pedir para tirar um árbitro da escala porque ele errou. Não existe aqui nenhum profissional mal intencionado. Falo isso com segurança porque tenho uma Corregedoria
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Ana Paula Oliveira, Chefe da arbitragem da FPF

Qual fundamento precisa ser aprimorado na formação?

Preciso melhorar outras habilidades do árbitro além de só conhecer o texto da regra. É preciso ter habilidade cognitiva de fazer uma percepção de entrar em um ambiente e sentir se é bom ou ruim, qual a temperatura. Temos de melhorar habilidades que não estão ligadas à arbitragem (regras), mas que diretamente vão interferir no desempenho. É ensinar oratória, relação com a mídia, trabalhar com quem é tímido, aumentar a carga de avaliação psicológica. Temos de trabalhar o técnico e o físico aliados com a construção humana. 

Como pretende lidar com a relação aos clubes?

Não existe futebol de alto nível se a gente não dialogar e não conversar. Preciso entender o que os clubes precisam e eles precisam entender o que eu preciso e o que posso ou não fazer. Jamais vou entrar em um clube e pedir para um dirigente tirar um jogador do elenco porque ele perdeu um pênalti. Assim como o clube não pode me pedir para tirar um árbitro da escala porque ele errou. Não existe aqui nenhum profissional mal intencionado. Falo isso com segurança porque tenho uma Corregedoria. Dos 522 árbitros inscritos na FPF, até agora 480 foram aprovados. Se outros não foram, vão passar pelo processo da Corregedoria. Preciso acreditar na minha instituição, no meu processo.

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