Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

‘Queremos o fim dos atrasos de salário nos clubes’, diz ministro

Ministro promete lutar para que a Lei de Responsabilidade Fiscal imponha sanções duras a quem não pagar em dia

Entrevista com

George Hilton

Daniel Carvalho, O Estado de S. Paulo

16 de janeiro de 2015 | 07h00

Uma das mais polêmicas escolhas deste segundo governo da presidente Dilma Rousseff, o novo ministro do Esporte, George Hilton (PRB-MG), tenta se familiarizar com sua nova área de atuação. Duramente criticado por atletas por causa da sua inexperiência na área, ele tem se dedicado a ouvir pessoas do ramo e decidiu manter no ministério os técnicos que começaram a conduzir os preparativos para a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro.

Em entrevista ao Estado, defendeu a repactuação da dívida dos clubes, mas exigiu o fim do atraso de salários - sob pena de rebaixamento dos times. Hilton prometeu ter uma relação “institucional” com a CBF e não apresentou propostas para sanar a atual crise do futebol brasileiro. Disse apenas que vai escutar lideranças. "As boas ideias serão aceitas."

O senhor foi pego de surpresa com o convite para assumir o ministério?

A relação do meu partido com o esporte não é nova. Temos um trabalho de base que envolve muito a juventude. O convite veio ao encontro de um projeto que a gente tem no partido, que é fazer do esporte mais do que uma ferramenta de descobrir talentos.

O senhor acredita ter sido escolhido por ser político?

Fiquei como líder durante dois anos na Câmara. Uma das ações que a gente sempre fez foi o trabalho amplo de articulação entre a base do governo, entre a oposição no elo com o governo federal. A Olimpíada requer, além da capacidade técnica de quem a executa, um trabalho de sinergia política.

Então foi preponderante esse perfil de articulador político?

Sim.

Qual o critério para composição do ministério, político ou técnico?

Temos hoje uma preocupação que é manter todos os programas e as equipes que estão organizando a Olimpíada. O próprio Ricardo Leyser, até então nosso secretário de Esporte de Alto Rendimento, será mantido. E, é claro, a gente vai ter sempre também um viés político porque, afinal de contas, nós fazemos parte de um governo de coalizão. Ouvir as lideranças políticas é um dever que tenho de ter para que a gente construa sempre soluções compartilhadas.

O senhor tem buscado algum meio de entender mais profundamente de esporte? 

Tenho adotado, todos esses dias, a prática de ouvir pessoas especializadas. Temos um conselho nacional de esporte dotado de pessoas que têm um alto conhecimento no tema. Temos ouvido presidentes de federações, de confederações. Tive uma conversa muito amistosa com o (Carlos Arthur) Nuzman, presidente do COB.

O que essas pessoas têm dito ao senhor?

Quando encerradas as reuniões, a impressão que todas elas têm é de que o ministro, eu, George Hilton, está mais do que preparado para fazer o evento da Olimpíada. Tenho a capacidade de ouvi-las, de ouvir conselhos, de ouvir delas que é preciso que as decisões sejam colegiadas.

O senhor foi duramente criticado por esportistas da ONG Atletas pelo Brasil...

Vivemos em uma democracia onde o direito de expressão é um preceito fundamental. Respeito as críticas e asseguro que ouviremos as pessoas que têm críticas. Estaremos à disposição de todas essas pessoas.

O senhor está a par da negociação sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal do esporte? Qual a sua opinião?

Ela é fundamental. O Congresso vai se debruçar nisso. Entendemos que hoje existe uma dívida dos clubes que perpassa os R$ 4 bilhões. Nossa preocupação é mais com os times das Séries B e C, que passam dificuldades. Queremos que esses clubes tenham condição de renegociar. Não se fala de anistia, fala-se de repactuação para que esses clubes possam sobreviver. Mas queremos a contrapartida, como o fim dos atrasos de salários e a possibilidade de perda de pontos e até de rebaixamento de divisão daqueles que não estiverem com o pagamento de impostos em dia. Há hoje avanços muito grandes no sentido de que haverá critérios bem definidos na Lei de Responsabilidade Fiscal aos quais os clubes terão de se enquadrar, sob pena de serem impedidos de receber qualquer ajuda do Estado.

A negociação ficará a cargo da Casa Civil ou o senhor vai tomar para si essa representação do governo?

Vamos dialogar com esses movimentos, sobretudo com aqueles que têm críticas e sugestões, e vou dialogar principalmente com as lideranças do Congresso. Porque é lá que será aprovado, e essa minha experiência de 16 anos de parlamento será importante. Sugiro que tenhamos nos próximos dias a criação de uma comissão interministerial envolvendo o Ministério da Previdência, a Fazenda e a Casa Civil. Eu estarei liderando essa comissão com representantes desses órgãos para que a gente possa elaborar uma proposta que traga uma solução para esta temática. Nos próximos dias, a gente vai divulgar os nomes dos representantes de cada pasta que farão parte da comissão.

Qual vai ser a prioridade do senhor além da Olimpíada?

Defender o legado da Copa e dos Jogos Olímpicos. Queremos uma política nacional que fomente e use toda essa estrutura que foi montada. Queremos socializar a prática esportiva no Brasil e também fortalecer muito o futebol feminino. Queremos que o esporte seja um instrumento para a gente formar cidadãos. Não necessariamente atletas famosos ou de alto rendimento, mas fazer da prática esportiva um instrumento de inclusão social e de formação do caráter.

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