Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'Queremos resgatar a antiga Academia', diz dirigente do Palmeiras

Novo coordenador da base fala de seus planos no Alviverde

Entrevista com

João Paulo Sampaio

Daniel Batista, O Estado de S.Paulo

18 Março 2015 | 07h02

João Paulo Sampaio chegou no início do mês ao Palmeiras para assumir o cargo de coordenador da base do clube, no lugar de Erasmo Damiani, que foi para a seleção brasileira. Em entrevista ao Estado, o nome homem forte da base alviverde falou sobre seus planos, disse que o objetivo é resgatar a tradição de Academia de Futebol e mostrar que o Palmeiras pode revelar talentos que não sejam goleiros.

Qual o tamanho do desafio de trabalhar no Palmeiras?

Fico bem à vontade, porque minha vida é viver a base do futebol brasileiro. A grande marca do nosso trabalho no Vitória era a força das categorias de base e vou tentar trazer isso para o Palmeiras. Vamos fazer com que os atletas do Palmeiras sejam o cartão de visita internacional do clube.

Ano passado, a base do Palmeiras teve bons resultados, com títulos ou chegando próximo e você chega para substituir alguém que foi para a seleção. Como melhorar isso?

Primeiro, que é uma coisa errada medir trabalho da base por resultados. Cito um exemplo: o time de 86 do Vitória ganhou tudo que disputou, mas nenhum deu frutos. O de 87, não ganhou nem estadual e tinha David Luiz, Anderson Martins, Wallace e Marcelo Moreno. Claro que torcedor gosta de títulos e nós também, mas te pergunto: Quem foi o campeão paulista juvenil de 2009 e 2010? Eu não faço ideia  e ninguém sabe. Mas se te perguntar quem o Palmeiras revelou neste período, você saberá. Então temos que desmistificar o título da base. O importante é revelar jogadores.

E dirigente entende isso?

Dirigente que quer o bem do clube, sim. E senti isso no Palmeiras e no Vitória. Dirigente inteligente sabe que é muito melhor revelar um grande jogador do que ganhar títulos na base.

Você chega em um clube onde a tradição é só revelar goleiros. Como mudar isso?

É o grande desafio. Queremos revelar em todas as posições e esse trabalho vai muito da equipe técnica que trabalho. Eu, na verdade, não revelo ninguém, só sou uma parte do processo. Mas a ideia é revelar em todas as posições.

Certo, mas na prática, o que você trás de diferente para o Palmeiras?

Sempre que chega um novo profissional, ele vem com agregados e oferece um estilo de trabalho diferente. Eu quero o que o Palmeiras quer. Cada clube tem sua escola e estilo de jogador preferido. O Vitória é um time que revela muitos zagueiros. Já a escola do Palmeiras é do futebol técnico. A Academia, o time de 92 e 93 e vamos resgatar essa tradição. Os títulos marcantes do Palmeiras foram conquistados na base da técnica. É uma espécie de carimbo do palmeirense ganhar e jogar bem. Tem muitos clubes que querem ganhar, não importa como. Aqui não é assim.

Então, na dúvida entre um jogador técnico e um mais de raça, o técnico vai ser a prioridade?

O ideal é tentar pegar um jogador de raça e melhorar a técnica. Não vamos desprezar ninguém, até porque, para fazer um Gabriel Jesus, passou vários atletas que não conseguiram brilhar por aqui, mas que pode dar certo em outros clubes.

O Gabriel Jesus é um exemplo para os garotos?

Para servir como referência, ainda preciso conhecê-lo melhor. Só o conheço como adversário, mas sem dúvida ele chama atenção. Temos que ter calma, porque tem muitos exemplos de jogadores que se criou uma expectativa grande em cima dele, que surgiria um fenômeno e isso atrapalhou a evolução. Ele tem capacidade e a formação continuará sendo feita pelo Oswaldo.

Quem você já revelou?

Eu sou uma peça da engrenagem. Se eu não tiver uma boa equipe, não revelamos ninguém. Quem revela é o clube. Trabalhei com David Luis, Hulk, Elkeson, Petros, Victor Ramos, Ryder, Anderson Martins, Wallace, entre outros. No ano passado, o Vitória foi o terceiro clube que mais revelou jogadores que estavam na Série A do Brasileiro.

No ano passado, você foi um dos organizadores de um boicote principalmente ao São Paulo por aliciamento de jogadores na base. Como está a relação?

Foi um movimento que moralizou a divisão de base. Em um ano, eu perdi seis jogadores de seleção brasileira. Teve um caso, que ficamos cinco anos investindo em um garoto. Quando ele fez 16 anos, ofereci para ele um contrato de R$ 2 mil. Veio o Santos, ofereceu R$ 20 mil e luvas para os pais e levou. Não tem como competir. Os cinco anos que investimos no garoto foi jogado fora. Agora os clubes estão mais protegidos. O problema do São Paulo foram as pessoas que comandavam a base. Mudou a gestão, chegou o Júnior Chávare, que eu conheço do Grêmio, e as coisas melhoraram. Temos um grupo que se reúne direto para discutir alguns assuntos e tentar melhorar o futebol. O São Paulo não aceitava com o que a gente imaginava como correto. Deixamos claro que, ou eles andavam com a gente, ou estávamos fora. Falamos para a Federação que poderia tirar os 40 times que fazem parte do grupo, inclusive uns 15 da Série A, e deixaria o São Paulo. Tudo bem. Fizemos o mesmo com o Atlético-PR, que também teve problemas neste sentido. Estamos conseguindo muitas vitórias depois disso.  O calendário da base melhorou. Temos Copa do Brasil e Brasileiro de pontos corridos da categoria.

Quando a seleção sub-17 foi treinar em Cotia, CT do São Paulo, você chegou a falar que estavam levando a galinha para a raposa cuidar. Era essa a relação mesmo?

Na época, era assim mesmo. Eles iam buscar o garoto na seleção e a lei não protegia. O garoto chegava, via a estrutura de Cotia e mexia com ele. O clube formado não tinha proteção alguma, então era mesmo a galinha na mão da raposa. As coisas melhoraram e agora não tem nenhum clube fora da linha.

Como é sua relação com empresários. Eles mais ajudam ou atrapalham?

Empresário tem que ser parceiro do clube. A partir do momento que ele dá um desfalque técnico ou financeiro no clube, está fora, e vamos trabalhar assim no Palmeiras. Tínhamos muitos parceiros no Vitória, porque o próprio empresário faz a peneira algumas vezes e manda o garoto para os clubes. Hoje, todo mundo se conhece, se fala, troca mensagens e relação com o empresário correto é muito boa. Quem é correto sempre tem portas abertas com a gente.

O que fez até chegar ao Palmeiras?

Eu fui jogador e disputei vários torneios de base. Fiquei até os 15 anos no Bahia e fui para o Vitória. Joguei na seleção brasileira da base e convivi com esse mundo que trabalho hoje. Tive três cirurgias no joelho, joguei na Suíça, mas voltei para encerrar a carreira com 22 anos. Eu não conseguia mais jogar por causa do joelho. Fui estudar, me torneio treinador de base e depois coordenador de base por oito anos. Fiquei no time profissional do Vitória no ano passado, onde observava e indicava jogadores. Inclusive o Vitor Hugo e o Andrei Girotto, que estão no Palmeiras, eu indiquei para o Vitória. Em dezembro, achei que chegou o momento de ir embora e mostrar que eu não era patrimônio do clube, mas sim um profissional da área. Tive outras propostas, mas a que mais mexeu comigo foi a do Palmeiras. 

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