Andre Dusek/Estadão
Andre Dusek/Estadão

'Queremos um novo momento para o futebol brasileiro'

Ministro do Esporte defende medidas como a Liga

Entrevista com

George Hilton

Daniel Carvalho, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2015 | 17h00

O governo federal quer aproveitar a crise provocada pelas investigações de corrupção envolvendo a Fifa e a CBF para esvaziar a Confederação Brasileira de Futebol. Em entrevista ao Estado, o ministro do Esporte, George Hilton (PRB), defendeu a criação de uma Liga para administrar o Campeonato Brasileiro, deixando a CBF apenas com as competições da seleção brasileira.

Hilton também quer aproveitar o momento delicado no futebol para conseguir a adesão ao programa de refinanciamento de dívidas previsto na chamada MP (Medida Provisória) do Futebol, que impõe contrapartidas criticadas pela CBF e por clubes. "Temos que dar uma resposta ao povo brasileiro de que queremos um novo momento para o futebol", afirmou o ministro, na entrevista em que critica a reeleição do presidente da Fifa, Joseph Blatter, e a governança da CBF.

Qual a sua ideia para o Campeonato Brasileiro?

Penso que este talvez seja o grande momento de a gente discutir a organização dos clubes de futebol no Brasil como acontece no restante do mundo. Você tem a Liga que administra os campeonatos nacionais, você tem o órgão, que é a confederação, cuidando só da seleção daquele país. Ou seja, você teria o Campeonato Brasileiro sendo organizado por uma Liga e a CBF ficaria exclusivamente com a seleção brasileira.

Já conversou isso com a CBF?

Tenho defendido isso nas minhas idas aí pelo País. Claro que a CBF resiste a isso, mas, se você pegar os países aí, na Europa, você vai ver que quem organiza os campeonatos nacionais é a Liga.

Quais as vantagens?

Você vai ter muito mais capilaridade no campeonato nacional porque os clubes passarão a ter muito mais protagonismo na realização do campeonato e a CBF, por sua vez, vai ter toda uma dedicação não só à Copa do Mundo, à Copa América, Copa das Confederações. A maioria dos clubes defende este modelo que é o que tem dado certo no resto do mundo.

Esta descentralização diminui as chances de corrupção?

Não, porque você vê que os clubes têm hoje todo o ônus, todo o planejamento do campeonato recai sobre eles. É a eles que é definido o repasse dos direitos de imagem, eles que tem que administrar a questão que envolve os estádios, as arenas. A CBF apenas se coloca como a dona do processo, mas quem trabalha o tempo todo na efetivação já são os clubes mesmo. A Liga vai ter um papel fundamental porque ela vai ser um conselho formado por todos eles, o que vai dar naturalmente muito mais capilaridade à organização do evento.

A MP do Futebol tem sido criticada por dirigentes de clubes, que a consideram intervencionista. Como o governo lida com essa crítica? É possível fazer alguma mudança?

Os clubes já começam a sinalizar da real necessidade de aderirem ao financiamento e nós vemos na MP do Futebol o grande momento de depurar o futebol no Brasil em vista de todos esses fatos que estão aparecendo aí no mundo e o Brasil dá um passo fundamental na modernização e na recuperação do futebol como um grande patrimônio da humanidade.

As prisões e denúncias envolvendo dirigentes da Fifa e da CBF facilitam a aprovação da MP?

Demonstram que realmente estamos no caminho certo. Acertamos com a MP do futebol. Esse clima todo que constrange o mundo e de certa forma nos envergonha porque amamos o futebol, somos um País pentacampeão mundial, é uma demonstração clara de que o Congresso Nacional, que tem agora grande responsabilidade de aprovação deste texto, deve dar uma resposta à sociedade. Temos que dar uma resposta ao povo brasileiro de que queremos um novo momento para o futebol.

A bancada da bola é muito forte no Congresso, principalmente na Câmara. O governo acredita que conseguirá levar a medida adiante? Como estão as negociações?

Se fizermos uma reflexão do texto da MP, veremos que ela tem muito a contribuir principalmente levando em conta que esta bancada que defende os interesses do futebol sabe que o momento exige mudanças claras e muito bem definidas.

A resistência de clubes e CBF à MP os coloca sob suspeita?

Levando em conta que a situação dos clubes no Brasil é muito ruim, difícil financeiramente, penso eu que essas possíveis resistências que alguns declaram serão suprimidas. Entendemos a situação dos clubes, mas o objetivo nosso é que não haja mais um refinanciamento, que os clubes, a partir daí, com a economia que será gerada por imposição dessas contrapartidas, consigam colocar suas contas em dia e o futebol consiga então sobreviver.

O senhor acredita que regularização das contas dos clubes se dará em quanto tempo?

O prazo que nós estabelecemos. A gente está dando um prazo de 20 anos. Acreditamos que é possível, em até muito menos da metade disso, a gente conseguir que os clubes estejam saneados.

O Senado deve instalar na semana que vem uma CPI para investigar corrupção no futebol nacional. Até que o ponto o senhor entende que o negócio do futebol é criminoso no país?

O futebol não é algo criminoso, mas a gestão que vem acompanhada de práticas ilícitas tem que estar sob atuação da Justiça. Quanto ao Poder Legislativo, é prerrogativa deles instalar essas comissões de inquérito. A gente respeita.

O governo identifica indícios de compra de votos para a realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014 ou de algum outro tipo de ato de corrupção?

Não. O ministro da Justiça (José Eduardo Cardozo) anunciou (na semana passada) que a Polícia Federal vai fazer as investigações. Portanto, vamos aguardar do desenrolar dessas investigações.

Mas até agora não há qualquer indício? 

(Acena negativamente com a cabeça)

A postura do governo em relação à CBF mudou consideravelmente entre o governo Lula e o governo Dilma. O que levou a essa mudança de comportamento, a este distanciamento entre governo e CBF?

Não há distanciamento. Existe o respeito entre as partes. A CBF, hoje, o órgão maior do futebol no Brasil, nós respeitamos as instituições. Porém, as instituições não estão acima da lei. Elas precisam estar dentro do ordenamento jurídico e, neste aspecto, o governo, não só da CBF, ele quer de todas as entidades, que elas estejam dentro do que a legislação nacional exige.

O senhor confia na CBF?

Eu respeito as instituições, mas entendo que todas elas, inclusive as públicas, elas têm que ser modelo de gestão, de transparência, de ética e do bom uso dos recursos que ali são auferidos.

Falta uma política de boa governança à CBF?

Diria que a CBF hoje tem uma grande oportunidade de demonstrar para todos nós que não.

O senhor já conversou com Marco Polo Del Nero desde que o escândalo estourou ou pretende conversar?

Não. Vamos, naturalmente, acompanhar passo a passo os fatos. Mas, como sempre, as portas do ministério estão abertas não só para a CBF, mas para todas as entidades ligadas ao esporte. Esta casa é a casa do esporte.

O governo brasileiro pedirá a extradição de José Maria Marin?

Não sei. Tem que ser uma postura do Ministério da Justiça. Essa conversa eu não tive.

Como o senhor vê a recondução do Joseph Blatter à presidência da Fifa?

Acho que o momento político dele não é bom. Penso que ele tem que fazer uma reflexão e entender que não só ele, mas a Fifa deve explicações ao mundo do futebol. Para o bom desempenho do futebol seria interessante que houvesse uma alternância de poder na Fifa.

Após as prisões na Suíça, o senhor disse querer "aguardar os fatos". O esquema de corrupção da Fifa só foi desbaratado por causa de uma ação do governo dos Estados Unidos. O governo brasileiro não deveria adotar uma posição menos passiva?

A legislação americana permite este tipo de ação das autoridades sobre instituições privadas. Temos um ordenamento jurídico aqui que não nos permite isso. A parte dos indícios que comprovarem a atuação de empresas, sonegação e outros crimes tributários, claro que a Justiça brasileira atuará e já está fazendo isso com o anúncio da Polícia Federal de que vai fazer as investigações.

Neste contexto de corrupção, o que esperar dos jogos olímpicos no Brasil?

A relação entre o Comitê Olímpico Internacional (COI), Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e o governo brasileiro tem se dado de forma muito transparente. Os eventos que acontecerão no próximo ano no Brasil estarão dentro da normalidade e serão um sucesso.

O que o governo está fazendo para se prevenir?

O governo tem os órgãos de controle que atuam em consonância com os ministérios, com o Estado do Rio de Janeiro, com a prefeitura (do Rio), com a Autoridade Olímpica, que sempre nos atualiza sobre a gestão destes recursos.

O Brasil mal se recuperou, se é que se recuperou, do 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo, agora vê a CBF nesta situação. No início do ano, o senhor resistia em dizer que o futebol brasileiro estava em crise. Qual sua opinião agora?

Diria que revertemos este quadro. Hoje há uma percepção clara de que o futebol continua sendo forte, continuamos pentacampeões do mundo e vamos aplicar, de agora em diante, uma gestão que fará do futebol brasileiro um campeão dentro e fora dos campos.

Sua pasta sofreu um corte de R$ 901 milhões, queda de 27,6%. Que programas serão prejudicados?

Teremos, naturalmente, uma redução. Estávamos indo num ritmo e vamos desacelerar um pouco em todos eles (programas). Claro que as obras olímpicas e paraolímpicas continuam porque temos um cronograma para ser entregue, inclusive com eventos testes em julho e agosto.

Quais foram as principais descobertas do "Relatório do Esporte" que será divulgado nos próximos dias?

Que a gente precisa praticar esporte. O Brasil precisa urgentemente massificar a prática esportiva, sobretudo na região Sudeste, que é muito sedentário em todas as faixas etárias. Uma das razões é o ritmo de trabalho da região.

O senhor havia assumido compromissos para combater o vandalismo nas torcidas organizadas. Como está este assunto?

Existe hoje um planejamento para que a gente adote já nos próximos meses algumas ações. Entre elas, um cadastro nacional de todas essas torcidas. Vamos adotar, com as polícias, nos estádios, o sistema de monitoramento dessas pessoas e a ideia é o recrudescimento da legislação para que essas pessoas sejam banidas dos estádios. Não podemos permitir que esses elementos que se travestem de torcedores para cometer crimes absurdos continuem a frequentar os estádios do Brasil.


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