Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

'Quero provas de que desviei dinheiro do São Paulo', diz Aidar

Ex-presidente desafia acusações durante a sua gestão

Entrevista com

Carlos Miguel Aidar

Ciro Campos, Fausto Macedo, Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2015 | 07h00

Dez dias depois de renunciar à presidência do São Paulo, Carlos Miguel Aidar concedeu sua primeira entrevista exclusiva. Durante 1h40 o dirigente falou ao Estado no mesmo local onde formalizou a saída e, além de lamentar a queda, garantiu ter se arrependido de ter voltado ao clube. E exige dos que o acusam de desvio de dinheiro que apresentem as provas.

No trecho a seguir está a primeira parte da entrevista. No domingo será publicado o outro trecho, em que o ex-presidente fala do futebol do São Paulo, do panorama para 2016 e até de reforços.

O senhor confirma que o Ataíde gravou mesmo uma conversa contigo?

Eu acredito, porque se ele não mostrar, vai ficar complicado. Acho que ele gravou. Eu não lembro exatamente as palavras, mas lembro algumas das coisas. Recompondo na memória, ficou nítido que as perguntas eram todas ensaiadas. Comecei a perceber que as perguntas eram específicas de pontos possivelmente polêmicos, meio que provocativos. Mas isso já foi.

Só estavam vocês dois?

Só nós. Foi em um sábado em que o São Paulo jogou às 9h da noite, contra o Atlético-PR. Estava reunido com o CEO, o Paulo Ricardo de Oliveira, estávamos fazendo o fechamento da projeção dos números deste ano e o plano quinquenal. A primeira vez na história do São Paulo teríamos um plano de cinco anos e era importante porque fazia dos compromissos que o clube tinha assumido com a empresa que estava colocando o fundo de direitos creditórios. É preciso ter um plano quinquenal, governaça corporativa e executivos. Sem isso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não vai aprovar o lançamento do fundo. Então, estava com ele reunido em um dia em que não fui ao CT da Barra Funda, como costumo fazer para ir ao estádio com o ônibus do time. Fiquei no Morumbi, com o CEO, reunido em uma sala, com uma projeção, em uma tela grande, com números, analisando e tal, quando o Ataíde entrou na sala e disse que queria falar comigo. Ele me perguntou se o Osorio ia embora, se eu tinha notícia sobre isso. Respondi que não e ele insistiu para falar em particular. Saímos dessa sala de reunião e fomos para a minha sala, onde tem a mesa de trabalho, duas cadeiras na frente e outras quatro no fundo, ao lado do frigobar. Aí ele sentou ali e eu me sentei ao lado dele. Começamos a falar de variedades e aí ele me fez uma pergunta sobre a história de um jogador. O importante é o seguinte: eu quis ajudar um amigo. Eu sabia, até porque ele não havia escondido que não estava em uma situação confortável. Então eu quis ajudar um amigo, alguém em quem eu confiava 100% e que foi o meu vice-presidente de futebol por um ano e meio. Dois meses antes de ser eleito eu já o havia escolhido, ele tinha aceito e não contamos para ninguém. Na véspera da eleição contei ao Juvenal (Juvêncio) e ao Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da Federação Paulista. Ambos me fizeram o mesmo depoimento: "Você vai ter problema em um ano". O Reinaldo me ligou e disse: "Você é jeitoso. Conseguiu segurar um ano e meio". Mas enfim, queria ajudar um amigo, que aos 70 e tantos anos está em uma situação desconfortável. Eu ia ajudar do meu bolso. Mas arrumei uma história para não deixar o Ataíde constrangido, para não parecer que era uma coisa pessoal, de doação.

O que foi falado?

Inventei que vou arrumar alguém para comprar, receberia em forma de honorários. Falei para ele que: "Isso não precisaria ser meu escritório, mas tenho outra empresa, chamada Aidar Participações, que é minha e das minhas filhas". Como saiu o nome Aidar, o do escritório, isso provocou um mal estar lá dentro porque tem muitos clientes estrangeiros, americanos principalmente, que têm regras muito rígidas. Eu quis proteger os meus sócios, que são todos jovens, o mais velho tem 40 anos de idade. Tomei a iniciativa de sair, me desvinculei, e vou abrir o meu escritório daqui um mês, por aí, e voltar para a advocacia. Isso é algo que está gravado lá, não ia existir essa operação. Até porque depois vim a saber que falei o nome de um jogador e ele nem estava mais na Portuguesa. No querer ajudar, acabei me entregando e me machucando. Aí ele fez uma outra pergunta sobre uma sanduicheria e que o Douglas (Schwartzmann, vice-presidente de marketing) pediu comissão para isso. Eu disse. "Todo mundo fala que o Douglas pede comissão de todo mundo, é isso, aquilo, chefe da quadrilha, do bando, mas ninguém nunca provou nada e nem existe nada contra ele". E aí o Ataíde falou que tinha visto um contrato da Cinira (Maturana, namorada de Aidar) com a Far East (intermediária com a Under Armour). Eu disse que não existe esse contrato e que a Far East foi trazida pelo Julio Casares (vice-presidente geral), que cansou de falar isso para todos nós. O Ataíde afirmou que tinha uns pagamentos em um contrato que não havia sido assinado. Então, respondi que se não está assinado, não tem contrato. Falei que ele tinha que mostrar o contrato, já que tinha visto, que fizesse aparecer. Então, ficou naquela dele fazer perguntas acusatórias e eu negando. Foi essa a colocação que aconteceu nesse diálogo. Foi no sábado entre 8h e 8h15 da noite. 

Vocês brigaram?

O fato da discussão se deu na segunda-feira seguinte. Sempre a diretoria se reunia. Ia o Ataíde, eu, o Paulo Ricardo (CEO), o Douglas e o Julio Casares. Estávamos reunidos e começou uma discussão sobre o caso do Iago Maidana. Eu expliquei: "Tudo isso começou lá na base, não foi comigo, eu só fui na concretização para assinar. Nãoconheço essas pessoas, nunca vi essas pessoas, nem sabia que o cara joga no Criciúma, só sabia que era da seleção". Aí o Ataíde ficou nervoso, começamos a bater boca e houve uma tentativa de agressão. Não teve soco, faltou pouco. Se o pessoal não segura, talvez tivesse acontecido.

Quais eram os problemas financeiros do Ataíde?

É uma conversa reservada que tive com ele e peço licença para não revelar. Eu sabia da dificuldade que ele tinha, mas o nível e o padrão vamos preservar. Não quero atacar o Ataíde. Nem tenho razão para falar com ele mais.

Pretende processar o Ataíde?

Não é a minha intenção. Não adianta ficar remoendo. Se eu quero tirar o São Paulo desse pântano, para que criar outro problema? Tenho um processo contra um sobrinho do Juvenal, que falou no Conselho que minha ação era pior que a Lava Jato. E o Juvenal está processando a minha filha.

O senhor é acusado de desvio de dinheiro...

O escritor italiano Umberto Eco deu uma entrevista meses atrás e falou que a internet é o veículo dos imbecis e dos irresponsáveis, porque você escreve o que quiser e não responde por isso. Estou sendo acusado por uma...até não sei bem como usar isso. É o seguinte: quando cheguei à presidência do São Paulo, estava com a expectativa de compor uma diretoria que fosse absolutamente fiel a mim. Mas eu não tinha convivência dentro do clube como tinha no passado, que vinha de uma diretora adjunta, depois fui diretor pleno e só na sequência cheguei à presidência. Dessa vez cheguei direto do Conselho à presidência e muitas das pessoas que eu trouxe para a diretoria eu mal conhecia. Elas estavam em torno do Juvenal. Muitos poucos deles foram fiéis à gestão e a minha pessoa. Não quero dizer que os outros tenham sido infiéis, mas na verdade não estavam preocupados com o São Paulo como um todo, com a gestão, com o futuro do clube. Mas só estava focados nas suas respectivas áreas. O São Paulo está polarizado de grupos políticos. De 240 conselheiros, temos 11 ou 12 partidos. É um absurdo. Isso foi feito na tese de dividir para governar. Então, uniu-se essa ruptura que tive com o Juvenal no passado, depois a demora para aceitar o apoio do Abílio, após e pressão decorrente pela demissão do Alex Bourgeois e ainda teve a briga com o Ataíde. Eu diria para você que a palavra complô é a certa, mas teve uma orquestração organizada para me desestabilizar. Eu não tinha alternativas. Se eu continuasse na presidência, sem renunciar, o São Paulo ia continuar nessa mídia negativa, o clube continuaria sangrando e eu também, não ia colaborar em nada. Eu pensei no São Paulo e pensei no meu escritório. A razão principal da minha saída foi o escritório, para preservar os clientes, principalmente as grandes corporações. Se eu não faço isso, ficaria sangrando. No último dia, que eu já tinha decidido e escrito a carta de renúncia, de manhã entra um grupo de oposição, tradicional, e me fez a seguinte proposta: "Nomeia todos nós para a nova diretoria, se licencia por 60 dias, nos dá a incumbência de apurar tudo e se não for encontrado nada você volta como herói". Não ia fazer isso.

Quem era esse grupo?

Tinha lá Molica, Dênis, "Erosão" Tadeu, tinha uma meia dúzia. Falei que não era isso que eu quero e nem que o São Paulo precisa. Eu tive lá um desgaste com esse Alex que foi um rolo. Ele chegou para resolver tudo, mas não se reuniu com credor nenhum, com banco nenhum. Depois deu uma entrevista para dizer que não teve acesso a nada e esqueceu que um mês antes tinha apresentado um plano. Então, ou o plano era mentiroso ou a informação dele era mentirosa. Era um cara que não merecia a minha confiança. Ele foi cuidar de política. Foi uma experiência ruim para o São Paulo. Aí eu trouxe o Paulo Ricardo, que tinha experiência e o perfil que eu precisava. Ele em um mês de São Paulo já estava com o plano quinquenal montado, que o outro não conseguiu fazer um plano até o fim do ano. Estava indo em um bom caminho, mas infelizmente o Leco trouxe outro.

Por que houve essa conspiração? Ou só a questão da dívida do clube é que pesou?

Quando eu assumi o São Paulo, abril de 2014, o clube tinha uma dívida bancária de R$ 153 milhões. A fiscal está organizada por causa do Refis, do Timemania, não é uma dívida executável. Tinha ainda um passivo trabalhista em execução. Então, a situação financeira já era muito ruim e difícil. O pior ainda é que estávamos perdendo crédito. Embora tenha deixado o São Paulo, hoje sou avalista de R$ 170 milhões na pessoa física, da mesma forma que o Juvenal era avalista em abril do ano passado de R$ 150 milhões. Quando se vence a obrigação e você vai renovando, não é mais presidente, o novo presidente avaliza. Isso vai sobrar para o Leco daqui a pouco. A não ser que o São Paulo não pague nada e venha a execução daqui a pouco. Eu herdei essa situação e talvez o que tenha estimulado esse movimento, foi quando dei uma entrevista em setembro do ano passado e me queixava da gestão e da estrutura de organização do São Paulo. Foi exatamente quando eu tinha contratado o Instituto Áquila, que tinha começado em agosto de 2014, para fazer um diagnóstico, modelo de gestão e implantação. Agora, antes de eu deixar a presidência, nós renovamos o contrato com eles por mais um ano. Foi aí que o Alex apareceu e copiou tudo. Ele não fez nada. O que começou a desestabilizar a gestão foi exatamente o trabalho de abrir, quando houve a saída do Juvenal. Eu entendi que havia uma estrutura na base em Cotia que era altamente prejudicial. Não vou mais fundo nisso. Então, tirei as pessoas que considerava prejudiciais. Para você ter uma ideia, o Rodrigo Caio tem 5% do valor está na mão de um ex-funcionário do São Paulo, de um porteiro de Cotia. É uma coisa maluca. Era um esquema imenso. Quebramos. Daí trouxemos o Júnior Chávare (para cuidar da base). A expectativa era enorme, de mudança, mas não mudou muito, ficou mais ou menos a mesma coisa. Foi ali que começou a negociação polêmica do Iago Maidana. Ele ficou quatro meses sendo negociado na base. Isso tudo eu vim saber depois. Eu não acompanhava isso. A única negociação que foi negociada, assinado e fechada na minha sala comigo presente foi aquilo que eu considero a melhor transação da história do São Paulo: a venda do Douglas para o Barcelona, por 6,5 milhões de euros. Vieram ao Brasil dois diretores do Barcelona, que queria pagar 4 milhões de euros e nós queríamos 8 milhões. A contratação do Iago foi tocada pelo Chávare até um determinado momento, que ele saiu do circuito. Foi embora e voltou para o Rio Grande do Sul. Eu não conhecia o tal do Itaquerão Soccer e nem o Monte Cristo. Chegou um contrato para eu assinar. Foi o futebol profissional que fechou.

Quem foi que fechou?

Não sei.

O São Paulo pagou R$ 2 milhões em um jogador que valia R$ 800 mil?

O Criciúma recebeu da multa rescisória R$ 800 mil. O São Pagou ao Monte Cristo R$ 2 milhões, sendo R$ 1 milhão à vista, dez parcelas de R$ 100 mil e mais R$ 400 mil se ele jogar não sei quantas partidas. Veja bem, é uma transação de um jogador de seleção brasileira sub-20, com 19 anos e imenso potencial pela frente. Mas tem negociações lá, que se você for buscar as comissões pagas...A prática de pagar comissão a empresário é inerente ao futebol profissional. Nada é feito sem uma intermediação. Dificilmente um jogador chega e faz uma negociação direta. Dá para contar nos dedos. O contrato chega para eu assinar, às vezes já assinado por todos. Eu era o último. Nunca fui o primeiro a assinar um contrato. Sempre tinha antes a assinatura do futebol, do financeiro, do jurídico.

Mas o que te levou a voltar a ser presidente?

O desafio. Eu via o potencial do São Paulo, a perspectiva de mudar um clube que estava parado no tempo. Se você pegar a minha plataforma, o meu programa de governo, eu fala em modernização, gestão compartilhada, organograma, empresa de consultoria, planejamento, CEO. Tudo isso já estava claro em 2013, quando me tornei candidato. Foi isso que me levou. Mas o São Paulo de hoje é completamente do meu São Paulo de 30 anos atrás. A oposição era sadia, no plano de ideias, não havia ataques pessoais, familiares, ninguém ia pesquisar se você saia com uma loira ou uma morena, o carro que tinha.

Apesar dos planos de modernização, o senhor saiu sob acusações graves de irregularidade e como um dos poucos a renunciar.

Mas onde está a prova do desvio de dinheiro? Eu tive um dilema: o que era melhor eu fazer? Alguns dias antes de renunciar eu estive reunido com o Conselho Consultivo informalmente e eles me recomendaram que eu renunciasse. Eu disse que não ia e prometia que ia brigar, organizar, colocar o São Paulo para frente e implantar um novo plano de governança. Gostaria que eles participassem e indicassem pessoas. O Conselho Consultivo preferiu apenas acompanhar, sem dar apoio nem ir contra. Eles falaram que apoiariam a minha decisão. Aí a coisa começou a crescer de um tal jeito e essa gravação atrapalhou o escritório. Talvez não fosse isso, ainda estivesse na presidência do São Paulo.

O senhor então quer que mostrem as provas?

Eu quero que seja apurado tudo. Faço questão que se faça uma auditoria. Isso é muito importante para o São Paulo e obviamente, para mim. É importante que seja investigado cada um desses contratos. O meu sigilo fiscal, bancário, telefônico estão todos liberados para quem quiser, a hora que quiser. Eu não tenho nada a esconder de ninguém. Nunca tive e não vai ser agora. Tudo está à disposição. Eu não quero ver aquela figura de filme de terror, que tem um pântano, com água ebulindo e aquela fumaça. Não quero ver o São Paulo cozinhando nisso, não quero ver esse mal cheiro em torno do clube. Vamos investigar. Acho irregularidade? Acusa quem praticou. Não vai me achar. Porque não pratiquei nada.

O senhor se arrepende de ter delegado muitas funções?

Pode ser. Não sei se algumas pessoas que trabalharam na gestão, seja como diretor, como vice-presidente ou funcionário fez alguma coisa irregular. Eu sei que os contratos para ter validade precisam ser assinados pelo presidente e pelo vice-presidente financeiro. Minimamente é por duas pessoas. Sozinho eu não posso fazer nada. Fora que a grande maioria dos contratos são assinados, e não apenas vistados, pelo jurídico.

O nome da Cinira Maturana sempre aparecia em contratos. Como ela participou da gestão?

Vou pegar alguns materiais para você ver (levanta e pega uma mala recheada de documentos). Olha o endividamento bancário do São Paulo em 30 de abril de 2014, era de R$ 151,8 milhões, 15 dias depois da minha posse. Quando fui eleito presidente, a Cinira, que eu conheço há 20 anos, me ligou para dar os parabéns. E veio a São Paulo para almoçar comigo. Na época, não éramos namorados. Tínhamos trabalhado juntos e ela era diretora executiva de um banco e eu como advogado fizemos trabalhos juntos, pelo escritório onde atuava. Aí com o potencial dela de relacionamento, pedi para que arrumasse uns negócios para o clube. Assinei com ela um contrato de prestação de serviço de comissão, assinado em 6 de maio de 2014, por mim, Júlio Casares, Leonardo Serafim e ela. Esse contrato, por si só, não diz nada. Está escrito aqui e é importante: "Nos serviços prestados, o São Paulo pagará como remuneração 20% sobre o valor total do contrato firmado entre o São Paulo, de modo que se operar o recebimento e desde que obrigatoriamente tenha auferido com efetiva participação, intermediação, gestão e iniciativa geral da contratada". Está no contrato. Ou seja, isso aqui sozinho não dava comissã para ela. A Cinira precisaria trazer o cliente, o São Paulo assinar, ela anuir e gestionar o contrato para fazer jus a isso. Em agosto ou setembro nós começamos a namorar. Até esqueci desse contrato. Aí começaram a falar mal dela e fizemos a rescisão, em janeiro. Ela não trouxe nenhum negócio para o São Paulo. Zero. Fez muitas prospecções, com a Puma, tentou sondar a Under Armour e não encontrou espaço, prospectou fundos, quem bolou a ideia do fundo financeiro foi ela. A auditoria no São Paulo não vai encontrar nenhum pagamento à TML (empresa da Cinira). Não tem nada pago para ela. Mas as coisas se repetem, repetem, falam, acusam e acusam de novo, que cresceu.

Como fez para o intermediário da Under Armour perdoar a dívida de R$ 18 milhões?

Foi um mérito meu. Vou ler e-mails que venho trocando com ele. "Prezado Jack, escrevo em português para que não haja dúvida alguma sobre o que você lerá em seguida, sabedor que sou que conhece a nossa língua. Quando o São Paulo firmou contrato com a Far East, em face do valor do mesmo e do prazo de vigência, era forçoso que eu levasse ao Conselho Deliberativo para ser aprovado, é o que determina o Estatuto do clube. Ocorre que tal contrato causou polêmica dentro do clube, inclusive com acusações ao meu vice-presidente de marketing, Douglas Schwartzmann, que um dia, como soubemos depois, teve um contato com você em decorrência da atividade comercial de vocês dois". Ambos já se conheciam e tinham se cruzado em clientes comuns. Vou prosseguir. "Não obstante eu tenha encaminhado o contrato para aprovação no Conselho, o mesmo não foi aprovado, mas também não foi desaprovado, não tendo sido votado até esta data. E não mais o será. Cabe informar que já havia passado cópias ao CEO do clube, Paulo Ricardo de Oliveira, o contrato entre o São Paulo e a Under Armour e entre o clube e a Far East, porque era a minha intenção que fosse negociado com você pelo CEO no sentido de ser rescindido ou minimamente reduzida a comissão dos atuais 15% do percentual que fosse apenas sobre as parcelas em dinheiro e não sobre material esportivo e bônus. Sei que você poderá argumentar que a negociação se deu sobre as mesmas bases do contrato que o São Paulo tinha com o intermediador da Penalty (comissão sobre parcelas em dinheiro, material esportivo e premiações), mas o fato é que o volume do seu contrato era bem superior. Não foi levado ao Conselho por ter sido liquidado dentro da própria gestão da época. Ocorre, Jack, é que estou deixando nos próximos dias a presidência do clube, por outras razões, que não o questionamento desse contrato. Embora esse contrato tenha gerado muita especulação sobre minha pessoa, sobre o Douglas, Júlio Casares e Leonardo Serafim, porque fomos nós que o assinamos. Chegaram a por em dúvida a sua existência como ser humano e depois a existência da Far East, razão de o Serafim ter pedido os documentos comprobatórios. O desgaste foi de tal natureza, com ameaças a todos os envolvidos. Por essa e outras razões que poderia elencar, peço que considere o contrato rescindido, que tire-o da sua frente como o São Paulo o tirará da frente. Vamos dá-lo por inexistente, de forma a pairar perpétuo silêncio sobre o mesmo. Oportunamente alguém do São Paulo, seja o seu CEO ou quem o novo presidente designar, entrará em contato para as providências decorrentes. É o que eu espero como um dos meus últimos atos, é o que peço a você para que reflita e aceite isso".

E ele aceitou facilmente?

Agora vou ler na continuação a explicação jurídica para isso. "Demandar esse contato em juízo aqui no Brasil implicará em você ter que depositar na frente 20% do valor do mesmo, por ser uma empresa estrangeira sem filial no Brasil, fora o risco de perder a ação, porque o contrato não foi aprovado no conselho". A empresa tem que depositar minimamente o risco da perda da ação, que é 20%. Mandei e-mail com cópia para o presidente do Conselho Deliberativo, o Leco.

Qual foi a resposta dele?

Vou ler aqui. Está em inglês. "Essa situação é realmente inacreditável. Ao longo desse ano nunca tive uma posição clara sobre os pagamentos para a minha companhia. Recebi a promessa de ser pago em janeiro, então teve o problema da falta de aprovação no Conselho e agora tem a sua saída do cargo. Eu sei de alguns fatos narrados na imprensa brasileira, informado pelo meu escritório no Brasil. Eu sei que as chances de receber algum dinheiro são mínimas. Perder esse contato vai gerar grandes perdas para mim e minha companhia, mas tenho outros negócios com parceiros, que são mais importantes para mim. Por essa razão, vou considerar esse contrato cancelado. Vou esperar pelos documentos de rescisão". Isso foi no dia 14 de outubro. Então, qual era a polêmica? Do Jack? Não tem mais. Qual outra polêmica Iago Maidana? Pagamos R$ 2 milhões por um jogador da seleção brasileira sub-20. Ou vamos pegar os Cañetes da vida e outras contratações que deram prejuízo? Só uma tal de Tombense Futebol Clube entre 10 de fevereiro de 2014 e 14 abril de 2014 recebeu R$ 9,5 milhões. O Conselho Fiscal sempre me dava relatórios que citavam coisas de decorrência da gestão anterior e recomenda medidas saneadoras. A Cinira prospectou até com a Nike, tenho cópia de conversas dela por Whatsapp. Tentou trazer a Puma também.

Por essas prospecções ela recebeu algo?

Nada. Ela não trouxe nenhum negócio para o São Paulo. Totalmente zero.

O Abílio Diniz participou no contexto da sua queda?

Conheci o Abílio em 2005, quando o São Paulo foi disputar o Mundial no Japão. Ele foi escolhido o chefe de honra da delegação pelo presidente Marcelo Portugal Gouvêa. Só ali soube que ele era são-paulino. Eu fui convidado como ex-presidente. Quando começou surgir o noticiário da situação financeira do clube, o Abílio, que é colaborador do Conselho Consultivo, mandou e-mail. Ele disse que estava acompanhando e era preciso fazer alguma coisa, pediu uma reunião. Foi convocada uma reunião. Nela estavam membros do Conselho Consultivo, eu convidei o Ataíde, o Marcos Francisco, diretor de planejamento, e o Osvaldo Abreu, diretor financeiro. O Abílio disse que queria ajudar. Aí o Antônio Cláudio Mariz de Oliveira e o Ives Gandra me ajudaram muito a estabelecer um canal de relação com ele. Para que isso? Percebi que o Abílio queria um envolvimento total no clube e o Ataíde logo de cara recusou, não aceitava ingerência dele e até chegou a discutir. O Ataíde não queria o Abílio. A partir daí fizemos algumas reuniões e o Abílio indicou o nome do Alex Bourgeois. Eu já conhecia o Alex. Em janeiro deste ano o Alex foi levado por um amigo até o São Paulo e apresentado como o possível captador de um fundo para financiar a dívida do São Paulo, para alongar a dívida e mudar o perfil dela em termo de custa. Ele realmente trouxe esse fundo de investimento só que na hora da conversa esse fundo queria 210% do CDI. Era uma agiotagem, fora comissão. O Alex ia ganhar 3% em moeda estrangeira, fora a variação cambial. Recusei na hora. Depois o Abílio veio me apresentar esse mesmo Alex. Fiquei inseguro, mas veio com o aval do Abílio, então deixei ele lá. Mas não deu certo.

Mas o que você acha do Abílio?

É um cara que pode ajudar muito o São Paulo. Tomara o clube tivesse mais empresários como ele, querendo investir, gostaria muito que o fundo que iniciei a construção fique de pé para que o Abílio seja o primeiro investidor. Acho que para ele será também motivo de orgulho. Espero que o Leco seja feliz nessa relação com o Abílio. Torço pelo Leco. 

Por que o Abílio começou a atuar contra o senhor?

Ele queria tomar conta da administração, das finanças, do futebol e eu defendi o Ataíde, para não deixar o Abílio tomar conta do futebol. Para não expor o Ataíde, botei a cara, pelo meu amigo que me gravou.

Além do Ataíde, quem mais te desapontou?

O Osorio. Ele ficou um mês fazendo proselitismo que queria ir para uma seleção. Deveria ter dito logo. Não ficava criando esse ambiente. Para mim ele nunca falou que tinha o sonho de dirigir uma seleção nacional capaz de disputar uma Copa do Mundo.

Mas o Osorio também não ficou chateado pela saída de jogadores?

Quais foram os titulares que saíram do São Paulo? Quando negociamos com o Ataíde, falamos que a negociação do Rodrigo Caio já estava em andamento. Possivelmente ele iria embora. Mas quem saíram de titular, foi só o Souza e o Denilson. Ninguém mais era titular. O Boschilia era reserva, o Paulo Miranda também, Dória era emprestado, Cafu não era titular. O Osorio não queria o Cafu, porque disse que queria um jogador inteligente e não só veloz. Então indicou o Wilder Guisao para o lugar dele.

Então a saída dos jogadores foi só um artifício para a saída do Osorio?

Ele podia ter dito antes. Eu tinha certeza que ia embora. O Osorio mentiu para a gente que estava procurando apartamento, mas não saía do flat. Ele já tinha ido na casa do Abílio. O Milton Cruz é bem amigo do Abílio. Quando assumi, proíbi a comissão técnica de ir de celular para o banco de reservas. O Abílio ligava durante o jogo para o banco para colocar jogador, telefonava para o Milton para mudar o estilo de jogo. Quando me tornei presidente, ia ao vestiário e pedia para deixarem o celular lá antes de ir para o campo. Durante o jogo ele ligava. Era sabido, corriqueiro. O Muricy Ramalho não levava a sério. Eu tenho o receio do Doriva não ficar muito tempo, por ter sido escolha minha. Acho que vão querer tirar ele.

Por que não demitiu o Osorio antes?

Eu me decepcionei com ele. No meio do campeonato, tirar um treinador, é complicado. Se der certo, você é um herói, se não, é um incompetente. O Osorio conquistou a opinião pública através da mídia. Ele é um cara inteligente, culto, cativante, fala bem, é sedutor na forma de falar, dá uma imponência. Ele conquistou o elenco com essa história do rodízio.

Foi o senhor quem mandou uma mensagem para ele sobre o rodízio?

Sim. Quem falou para ele acabar com o rodízio foi eu. Eu mandei mensagem para ele e escrevi para que definisse um time. Os jogadores se queixavam, mas ninguém reclamava com ele, por medo de perder vaga. Essas coisas só quem tem a malícia do futebol é quem enxerga. Eu deleguei muito ao Ataíde e nas poucas vezes que fui lá eu acho que colaborei. Algumas vezes ele me disse que não me queria no futebol. Achava estranho isso.

Fora isso, o senhor teve problemas de convivência com o Osorio?

Não. Sei que no discurso de saída ele não falou meu nome, mas agradeceu ao São Paulo e citou o Ataíde e o Milton. Foram os dois que mais prestigiaram o trabalho dele. Não foi eu. Mas por citar o São Paulo já basta. O clube está acima de todos nós. Sempre coloquei o São Paulo na frente, seja da minha família, de mim e do meu escritório. Hoje já não faria mais isso, com certeza. A vida me ensino que o São Paulo é muito bom, mas ao lado e não à frente.

Está tranquilo para as investigações?

Quero que tudo seja apurado. Chegaram a acusar a Cinira de impedir a negociação do Rodrigo Caio. Falam demais, mas não tem prova. Se eu fosse processar todo mundo por calúnia, injúria e difamação, eu ia lotar o fórum de São Paulo.

O senhor vai continuar na política do clube?

O São Paulo é uma página virada na minha vida. Vou continuar como torcedor que sempre fui. Chega.

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