Quilmes acusa São Paulo de montar farsa

As lideranças do Quilmes afirmam que o time argentino está sendo alvo de uma campanha realizada pelo setor esportivo brasileiro, que o pretende utilizar como "bode expiatório" para demonstrar, perante os times europeus, de que o Brasil também está lutando contra a discriminação racial nos estádios. Segundo José Luis Meiszner, integrante da diretoria desse pequeno time de um empobrecido município da Grande Buenos Aires, os representantes do São Paulo "estão magnificando as coisas".Meiszner sustentou que a diretoria do Quilmes "compartilha o repúdio à discriminação racial". No entanto, admitiu que "um jogo quente leva à discussões" no campo. Além disso, afirmou que é impossível, nas gravações do jogo realizado na quarta-feira à noite no Morumbi, ler nos lábios do jogador Leandro Desábato alguma frase racista."Vamos tentar resolver esta questão pelos correspondentes canais esportivos e diplomáticos", explicou em declarações ao canal de TV "Todo Notícias". Segundo ele, Desabato "é um rapaz do interior, incapaz de fazer esse tipo de discriminação".O técnico do Quilmes, Gustavo Alfaro, definiu a acusação de racismo como "uma farsa". Alfaro argumentou que era "assustador" que a denúncia tenha sido feita por "dois telespectadores que dizem que leram nos lábio de Desábato" a frase "negro de mierda" (negro de m...).Os jornais argentinos, cujas edições são encerradas após a meia-noite, cobriram o jogo, mas ignoraram a detenção de Desabato, um jogador praticamente desconhecido do público argentino. Nos exemplares nas bancas nesta quinta-feira de manhã, somente o "La Nación" citou brevemente o caso em uma pequena coluna. Durante horas, os sites argentinos de notícias também ignoraram o assunto, até que a partir das 10:00 começaram a ocupar-se do assunto, de forma discreta. Ao meio-dia, o caso Desabato não foi incluído nas manchetes dos telejornais.Os analistas atribuem a relativa falta de interesse no caso pelo fato do Quilmes ser um time pequeno, com uma torcida inexpressiva. Nas ruas portenhas é praticamente impossível encontrar algum torcedor com a camiseta do time, e poucas pessoas saberiam citar de memória o nome de algum jogador desse clube. Qualquer referência à palavra "Quilmes", na mente dos argentinos, remeterá imediatamente à tradicional cerveja homônima, cuja fábrica foi adquirida pela brasileira AmBev há dois anos.RACISMO - O racismo em relação aos brasileiros no futebol argentino tem raízes profundas. A meados de 1996, quando ainda estava indefinido se a Argentina se enfrentaria no campo com a seleção do Brasil ou a da Nigéria o jornal esportivo "Olé" (pertencente ao grupo Clarín e lançado poucos meses antes) publicou a manchete "que vengan los macacos" (que venham os macacos).Dias depois, diante da onda de repercussões negativas no exterior e dentro do próprio país, o "Olé" emitiu um pedido de desculpas, alegando que o palavreado utilizado era parte da "linguagem jovem" que queriam dar ao novo jornal. A desculpa, no entanto, ficou em segunda plano diante da notícia de que torcedores brasileiros haviam incendiado a garagem da embaixada da Nigéria, em Brasília, após a derrota que desclassificou o time das Olimpíadas de Atlanta.No entanto, a maioria das expressões racistas no âmbito esportivo argentino, mais do que direcionadas a jogadores afro-americanos, são de caráter anti-semita, além de destinadas contra as torcidas com grande volume de imigrantes de países vizinhos como o Peru, Paraguai e a Bolívia.NEGRO - Denominar alguém de "negro" na Argentina pode ter um amplo leque de significados. A palavra pode ser usada para referir-se a alguém de forma carinhosa que seja de cabelos pretos (e, optativamente, de pele morena também).Esse é o caso da cantora folclórica Mercedes Sosa, muitas vezes denominada simplesmente "La Negra", por ser morena, descendente de índios do norte do país, sem ter antepassados africanos. Outro caso é o do ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003), chamado freqüentemente "El Negro", por sua tez morena e cabelos pretos.No entanto, a palavra pode ser usada no sentido depreciativo. Esse é o caso de expressões como "negro de mierda" (negro de m...). O termo "negro" também é amplamente usado - de forma discriminatória - para o setor da população argentina descendente de indígenas. Nos anos 40, os "cabecitas negras" (cabecinhas negras) eram os imigrantes do interior da Argentina, mestiços de índios, que mudavam-se para Buenos Aires e sua região metropolitana para trabalhar como operários.Mas, referir-se a alguém, no meio de cotoveladas e empurrões, em um campo de futebol, à uma pessoa do time rival como "negro", dificilmente poderia ser usado com sentido carinhoso.

Agencia Estado,

14 de abril de 2005 | 14h43

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