Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Racing quer resultado europeu com orçamento argentino

Time cria método para desenvolver jogadores jovens, que busca em toda a Argentina e em países sul-americanos

Rory Smith, The New York Times

31 de janeiro de 2019 | 04h30

Parcialmente obscurecida por uma pilha de pesos enferrujados, a parede do fundo da academia de ginástica do Racing foi pintada de azul escuro e coberta por símbolos. De um lado estão quatro pontos brilhantes e codificados por cores; do outro, quatro círculos amarelos numerados. Subindo do chão há duas representações em miniatura de traves, com cerca de 30 cm de largura; fixados no topo há dois ganchos, presos com uma corda, uma bola pendurada em cada um.

Diego Huerta, assistente e um dos caçadores de talentos do clube, passa e mal olha. No Borussia Dortmund, explica ele, a academia se orgulha de ter um Footbonaut, equipamento futurista de treinos projetado para melhorar a velocidade de raciocínio e habilidade de execução. Em pé dentro de uma jaula, os jogadores do Dortmund recebem uma bola a cada poucos segundos. Simultaneamente, uma caixa em uma das quatro paredes acende. O jogador deve girar, atirar a bola na caixa correta e então ficar preparado para receber o passe seguinte.

Dortmund é um dos dois clubes no mundo a ter um; o Hoffenheim é o outro. Os treinadores acreditam que dois ou três minutos dentro do Footbonaut podem ter o mesmo impacto de várias sessões de treinamento, mas não sai barato: cada máquina custa de US$ 2 milhões a US$ 4 milhões e exige atualizações no software que a executa.

Esse preço está muito além das possibilidades do Racing. Ele trabalha com um desenvolvedor de software local em um equivalente reduzido, mas, enquanto isso, sua resposta, adaptada para as realidades e restrições do jogo na Argentina, inclui os pontos e círculos pintados nas paredes da sala de musculação, as bolas de futebol penduradas nas cordas. “Essa”, disse Huerta, “é a nossa versão”.

O Racing se destaca como um bastião da inovação. Não é só pelo Footbonaut caseiro. É o apoio disponível para os 55 garotos que moram na academia do clube, muito mais do que seria oferecido pela maioria de seus pares na Argentina, que vai desde assistentes sociais e psicólogos até professores acadêmicos. É a abordagem para o desenvolvimento do jogador, centrando-se menos nos resultados e mais no progresso individual. Acima de tudo, é o trabalho feito em um pequeno escritório subterrâneo no estacionamento do estádio do clube.

Aqui, a equipe de quatro olheiros de Javier Weiner, incluindo Huerta, senta-se em um banco de quatro mesas, cada uma dominada por um iMac. Os olheiros vasculham jogos das ligas inferiores da Argentina e um punhado de países sul-americanos no Wyscout, uma plataforma de conteúdo que transmite ações de todo o mundo.

Cada caçador de talentos tem uma área para cobrir: Weiner fica com a Argentina e a Colômbia; Huerta monitora o futebol juvenil e a Venezuela.

Usando o serviço de análise InStat, eles compilam dossiês sobre potenciais aquisições, reunindo não apenas dados brutos de desempenho, mas históricos psicológicos, emocionais e médicos dos jogadores. Rastreiam informações de jornalistas nas mídias sociais. “Na maior parte do tempo, é o treinador que recruta jogadores ou o presidente, com a ajuda de alguns agentes”, disse Huerta. “Não há processo: tudo muda constantemente. E há momentos em que decisões cruciais são tomadas por alguém que não sabe nada sobre futebol.”

O Racing, porém, está determinado a ser “outro tipo de clube”, disse Weiner. “Precisamos ser criativos”, disse ele. “Temos de ter uma rede, o que significa que podemos obter jogadores antes dos clubes maiores porque financeiramente não podemos competir com River Plate e Boca Juniors.”

O Racing sempre tive a reputação de desenvolver jovens - o clube é conhecido na Argentina como La Academia. Há um foco, agora, não em “treinar talentos” – a quantidade infinita de jogadores criativos e atacantes pelos quais a Argentina é famosa – mas por “posições de conceito”, os papéis mais defensivos e mais cerebrais.

“Queremos criar os jogadores dos quais o Racing precisa”, disse Claudio Úbeda, técnico da academia. “Mas também os jogadores que a Europa quer.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

 

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