Racismo é visto com indignação no futebol, mas punições severas são pouco comuns ainda

Racismo é visto com indignação no futebol, mas punições severas são pouco comuns ainda

'Estadão' relembra episódios de ofensas raciais em campo e o que foi feito depois de cada caso

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 14h00

Um novo passo para o combate ao racismo no futebol foi dado nesta terça-feira, dia 8. Em um ato sem precedentes na Liga dos Campeões, os jogadores de Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir decidiram deixar o campo de jogo após o quarto árbitro, o romeno Sebastian Colţescu, ter sido acusado de proferir ofensa racista ao um membro do time turco. O duelo foi adiado para esta quarta-feira e a Uefa teve de mudar toda arbitragem da partida. 

Em geral, o racismo no futebol é visto com indignação, mas a revolta dos atletas no jogo entre franceses e turcos e a decisão de abandonar a partida não é frequente. No geral, as punições a casos de discriminação racial no esporte são brandas. Pior. Em algumas ocasiões, nada acontece e o jogo segue. O Estadão relembra episódios de racismo em campo e aponta o que foi feito depois em cada um deles. Apenas o Grêmio foi excluído da Copa do Brasil após manifestação de sua torcida contra o goleiro Aranha, do Santos. 

Há 15 anos, o ex-jogador Grafite, hoje comentarista do Grupo Globo, foi chamado de "negro de mer**" por Leandro Desábato, um zagueiro argentino do Quilmes. Naquela ocasião, algo pouco comum aconteceu. O jogador foi levado a uma delegacia ao término da partida nas imediações do Morumbi e lá passou duas noites. Ele foi liberado na tarde de sexta-feira, após seus advogados pagarem fiança de R$ 10 mil. Dormiu na cadeia, assustado. 

"Estivemos com ele. Está bem fisicamente, mas em nenhum momento se mostrou arrependido. Ele, inclusive, admitiu textualmente o que disse e realmente ofendeu o jogador brasileiro. Chamou Grafite de 'macaco', 'negrinho' e mandou enfiar a banana em um lugar do corpo que não posso repetir para vocês agora", disse Marcos Antonio Vito Alvarenga, presidente da Comissão de Negros e Assuntos Anti-Discriminatórios da OAB-SP à época.

As penas para os clubes são brandas, mas nem sempre passa impune. Normalmente, o time relacionado à conduta racista é multado ou tem de atuar com os portões fechados por um determinado intervalo de tempo. Foi o que aconteceu em 2018, quando Inglaterra e Montenegro se enfrentaram pelas eliminatórias da Eurocopa. Os ingleses Raheem Sterling, Hudson-Odoi e Danny Rose foram ofendidos pela torcida adversária. Como punição, a Uefa determinou que Montenegro pagasse multa de 20 mil euros (R$ 124,5 mil nos dias de hoje) e jogasse a partida seguinte sem torcida.

No fim do mesmo ano, uma banana foi atirada em direção ao atacante do Arsenal Pierre-Emerick Aubameyang, durante partida contra o Tottenham. Quatro anos antes, o mesmo aconteceu com o brasileiro Daniel Alves, então jogador do Barcelona (hoje no São Paulo) durante confronto com o Villarreal na Espanha. Naquela ocasião, ele comeu a banana e o clube associado ao ato racista foi multado em 12 mil euros, dinheiro que o clube paga sem sentir no bolso.

Ainda em 2014, uma punição mais severa foi tomada no Brasil. Grêmio e Santos se enfrentaram pela Copa do Brasil, quando a torcida do clube gaúcho passou a chamar o goleiro Aranha, da equipe alvinegra, de "macaco". Houve indignação dos jogadores santistas. Aranha chegou a chorar. O caso teve ampla repercussão. A CBF analisou as imagens e decidiu eliminar o Grêmio da competição. O time do Rio Grande do Sul faria a segunda partida para tentar se classificar, mas foi impedido. Uma torcedora foi flagrada pelas câmeras de TV atrás do gol ofendendos o jogador santista. Ela foi acusada e respondeu criminalmente.

Algo similar ao ocorrido entre PSG e Istanbul já havia ocorrido em 2019, no Campeonato Francês. Durante partida entre Amiens e Dijon, o zagueiro Prince Gouano foi chamado de "macaco" por um torcedor adversário. O defensor decidiu deixar o gramado, acompanhado pelo demais atletas do time. Mas eles voltaram cinco minutos depois e encerraram o jogo.

"Estamos no século 21, isso é inadmissível. A cor não importa, somos todos humanos. A certa altura, percebi um torcedor fazendo barulho de macaco, olhei para ele e questionei: 'É isso mesmo?'. Ele continuou e eu avisei ao juiz que iria levar meu time para o vestiário. Fiz isso não só por mim, mas por todos que são vítimas de racismo, porque isso não pode continuar. Isso tem de acabar", disse o jogador Prince Gouano, em entrevista à emissora beIN Sports, que transmitia aquela partida. 

Em janeiro deste ano, Mario Balotelli também foi alvo de ofensas racistas da torcida da Lazio, de Roma. Na época, o atacante italiano vestia a camisa do Brescia. A partida foi interrompida por alguns minutos e, posteriormente, retomada. Dois meses antes, o jogador já havia passado por uma situação parecida diante do Hellas Verona e ameaçou deixar o gramado. O presidente do Brescia foi racista ao comentar o caso: "Balotelli é negro, está trabalhando para clarear, mas está com dificuldade", disse antes de uma coletiva de imprensa. Ninguém foi punido.

O próprio Neymar, que se recusou a permanecer em campo nesta terça-feira, também esteve relacionado a um episódio de racismo meses atrás. Ele acusou o zagueiro Álvaro González, do Olympique de Marselha, de ter lhe chamado de 'macaco'. A comissão disciplinar da Liga de Futebol Profissional da França (LFP) não puniu o acusado por falta de provas. "Depois de examinar o processo, ouvir os jogadores e os representantes dos clubes, a Comissão constata que não dispõe de elementos de prova convincentes suficientes que lhe permitam estabelecer a materialidade dos fatos das observações discriminatórias do jogador Álvaro González contra Neymar durante o jogo, nem de Neymar contra Álvaro González", explicou a Liga em nota.

 

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