Paulo Liebert/Estadão
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Razões da loucura

A atual diretoria do Palmeiras não tem a frieza de quem sabe aguentar pressões

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2018 | 04h00

Nos tempos atuais todo ato aparentemente sem clara explicação racional é chamado, para simplificar, de loucura. Examinando, porém, esses atos mais de perto aparecem outras razões e outras causas. Depois do Brasileiro de 2014, no qual esteve a ponto de cair pela terceira vez para a Série B, muita coisa mudou no Palmeiras. Muito em função do presidente da época que resolveu investir e, ao mesmo tempo, impor ao clube sua maneira particular de gerir negócios.

Oriundo da elite do mercado financeiro, jogou alto. Transformou um time semi rebaixado num candidato a título em espaço de tempo irrisório. Não houve etapa de transformação, não houve crescimento natural para atingir as primeiras posições. Graças a enorme e audacioso investimento, o Palmeiras voltou a ser grande como num passe de mágica, como alguém que fica subitamente rico num lance bem sucedido que soma habilidade, audácia e a sorte de quem atua na Bolsa e está acostumado a esse jogo.

Foram efetuadas contratações em série num processo incessante de alto risco e baixo risco, contratações confiáveis e outras meramente especulativas. Esse procedimento tinha, creio, dupla função. Uma recuperar o status de equipe ganhadora, outra, não menos importante, fazer ou refazer a marca Palmeiras entre os clubes poderosos do Brasil. É claro que não escapou a ninguém esse processo de ocupar a mídia, através de notícias quase diárias, que teve importante papel na recuperação pelo clube de seu lugar de grande vencedor. Isto é, a marca Palmeiras se estabeleceu, auxiliada naturalmente pela nova arena, entre as marcas mais valorizadas do futebol brasileiro.

Esse dirigente, que voltou a ganhar títulos, também necessários à consolidação da marca, deixou o clube nas mãos de um sucessor do qual se esperava a mesma atuação. Isso de fato ocorreu, aliás, a atuação foi não só mantida como ampliada enormemente.

O ritmo das negociações passou a ser quase alucinante. O clube se envolveu, na companhia agora de um patrocinador que parece concordar, ou até mesmo estimular a imprudência, numa série de empreitadas bem mal sucedidas, que não renderam nada ao clube quanto a títulos, mas que continuaram a render mídia. O clube continua sendo o mais falado do Brasil, perdendo só para Flamengo e Corinthians. Valendo-se de sua penetração em todo o País, suas atividades repercutem longe. Não vou nem citar as negociações, contratações, dispensas de técnicos e jogadores em que o clube se meteu voluntariamente. Todos sabem. O resultado é incerto. Essa diretoria atual tem, da anterior, talvez só a audácia sem ter, nem de longe, a experiência do jogo perigoso de arriscar e quando arriscar. Não tem o talento do jogador profissional de alto nível e, por isso, me parece que se desespera facilmente. Para esse jogo arriscado é preciso a frieza de quem vive disso e sabe aguentar pressões de um clube onde a impaciência é moeda corrente.

Viver na angústia de conquistar algum título, qualquer um, para justificar seu modo de proceder errático, essa a razão da loucura. Quando não acontece nada, contratam ainda mais. Quando as coisas ameaçam ficar mais difíceis, dispensam o treinador. O que, por sua vez, gera mais notícia. Pelo menos isso não está faltando. Essa contratação de Felipão não passa de outro risco premeditado. A dispensa do antigo técnico, durante a madrugada e o anúncio do “novo” algumas horas depois, prova que a intenção era não deixar de provocar impacto e noticiário com a surpreendente novidade. Deu certo. No noticiário, o que mais se fala é em Felipão. E se, porém, os títulos não vierem? Quanto tempo mais só notícias novas e bombásticas se encarregarão de garantir a renovada grandeza do clube?

 

 

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