Pedro Souza/ Atlético
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Reabertura de estádios ao público em meio à pandemia dá ruim e não passa no teste em Minas

Prefeitura de Belo Horizonte decide voltar atrás e impedir acesso de torcedores aos jogos no Mineirão

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 05h00

Quando era setorista da Portuguesa, lá pelos idos de 1996, ouvia muito os torcedores dizerem que tinham coisas que só aconteciam com a Lusa. Quase trinta anos depois, faço eco ao sentimento com ligeira mudança. Tem coisas que só acontecem no futebol brasileiro. Refiro-me ao evento-teste em meio à pandemia da covid-19 em Belo Horizonte, nas partidas de Atlético-MG e Cruzeiro – o primeiro jogo com aval da Conmebol e o segundo graças a uma liminar para atuar com torcida na Série B do Campeonato Brasileiro.

Nos dois casos, com a bênção do prefeito da cidade mineira, Alexandre Kalil, chamado de “burro” por ele mesmo após se aborrecer com as cenas de atleticanos amontoados no Mineirão na vitória de 3 a 0 sobre o River Plate pela Libertadores. Kalil já foi presidente do clube mineiro e nem isso evitou que ficasse uma fera com as aglomerações.

Ora, somente no Brasil nossos comandantes, esportivos e políticos, submetem pessoas a eventos-teste com a possibilidade de espalhar o vírus que já matou quase 600 mil brasileiros num estádio de futebol sem organização adequada e sabedores que o País respeita pouco os constantes pedidos de isolamento social, uso de máscaras e de álcool em gel, dadas as festas clandestinas derrubadas pela polícia e a bagunça já feita pelos torcedores para recepcionar times campeões em aeroportos durante a pandemia. 

Tinha tudo para dar ruim. E deu. Torcedores de Cruzeiro e Atlético presentes no Mineirão semana passada foram reprovados no quesito ‘inteligência’ para combater a covid-19 num evento esportivo e abrir caminho para novas tentativas de portões abertos na cidade e também no restante do País.

Pior. Quem autorizou tem tanta responsabilidade quanto os torcedores que estragaram tudo nesse momento. Abriram brechas para outros fazerem a mesma coisa, para uma briga de liminares a fim de deixar o público entrar e novamente um racha no entendimento dos clubes sobre o assunto. Resultado, o prefeito Kalil voltou atrás conforme o prometido e decidiu rever sua decisão de autorizar a torcida nos jogos.

Agora, a secretaria de saúde de Belo Horizonte torce para que novos casos de covid-19 não cresçam na cidade após 14 dias, tempo de incubação e manifestação da doença no organismo.

Com o evento-teste reprovado, o futebol brasileiro volta à estaca zero no quesito ‘retorno do torcedor aos estádios’, como já ocorre na Europa. Mesmo com a recusa, é possível que os times classificados para a semifinal da Libertadores, como Flamengo e o próprio Atlético-MG, procurem cidades liberadas para jogar com torcida, como no DF, a exemplo do que fez o Fla. Os dirigentes não estão nem aí para a contaminação da torcida. Querem o apoio do torcedor e, claro, seu rico dinheiro. Atlético e Fla fizeram rendas de R$ 2 milhões nos jogos da semana passada.

Em São Paulo, a data de abertura estipulada pelo governador João Doria é novembro, com protocolos para os torcedores e mais dois meses de campanha de vacinação. Mesmo assim, com o martelo para ser batido mais próximo do mês em questão. Na F-1, Interlagos deverá receber público máximo na corrida do dia 7, com autódromo aberto para os fãs também na sexta-feira e sábado que antecedem a prova. 

É mais do que certo que todos queremos voltar aos estádios e retomar parte de nossas vidas de antes da pandemia. Mas é preciso ainda fazer as coisas de forma organizada e responsável, menos bagunçadas e de qualquer jeito. Havia gente no Mineirão que não apresentou exame PCR negativo para a doença e tentou entrar no braço no estádio.

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