Real Madrid joga seu futuro na Copa dos Campeões e o do técnico Mourinho

Espanhóis têm dura missão contra o Borussia Dortmund na tentativa de ir à final

Jamil Chade - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2013 | 08h01

MADRI - Em um Santiago Bernabéu que promete se transformar num "inferno branco", o Real Madrid entra em campo nesta terça-feira, às 15h45, para partida de volta da semifinal da Copa dos Campeões contra o Borussia Dortmund com a obrigação de fazer pelo menos três gols para reverter a goleada que sofreu no primeiro jogo. Mas o que estará em jogo nesta terça e na quarta na partida entre o Barcelona e o Bayern não é apenas a classificação à final. Mas sim o próprio prestígio do futebol espanhol e o domínio de um modelo econômico, numa semana que dá sinais de que poderia marcar um ponto de virada na hegemonia do futebol europeu em direção à Alemanha.

Há uma semana, nos jogos de ida das semifinais entre Bayern x Barcelona e Real Madrid x Borussia, os alemães acabaram com um avassalados 8 a 1 contra os times espanhóis. Para reverter a goleada de 4 a 1 que sofreu do Borussia, o Real Madrid terá de marcar hoje 3 a 0 para manter o sonho de um título. Nesta quarta, será a vez do Barça receber o Bayern, tendo de marcar pelo menos quatro.

O próprio técnico do Real Madrid, José Mourinho, admite que a qualidade dos clubes alemães é alta e, em resposta ao Estado, alerta que os resultados já apontam que a própria seleção da Alemanha é "a candidata para vencer a Copa do Mundo" no Brasil em 2014. "O futebol foi justo", disse, em relação a sua própria derrota. "Perdeu quem merecia perder", disse.

Mas o confronto que começa nesta terça em Madri e termina na quarta em Barcelona é também entre dois modelos opostos do futebol. Um deles, o espanhol, baseado em gastos estratosféricos com salários e passes, além de uma dívida colossal de mais de 500 milhões de euros do Real Madrid e Barça juntos, enquanto mais de uma dezena de times da Liga Espanhola já atrasam salários.

Considerado como o símbolo do clube de elite da Europa e em busca e seu décimo titulo continental, o Real terá de reverter um placar desfavorável e uma equipe alemã que está em apenas busca de seu segundo título na competição. O primeiro ocorreu em 1997 e levou o clube a disputar a final Intercontinental e bater o Cruzeiro por 2 a 0.

As diferenças são profundas: o valor somado de todos os onze titulares do Borussia não chega ao que Kaká custou para o Real Madrid. Há três anos, o time quase faliu. Nesta segunda, a constatação obrigou Sergio Ramos, capitão do Real, a admite que dinheiro não ganha partida. "Se não mostrarmos atitude, não é futebol", disse. Não por acaso, o técnico alemão Jürgen Klopp classificou a goleada da semana passada de uma ação de "Robin Hood roubando os ricos".

VIRADA 

No Real Madrid, porém, a ordem é a de criar um verdadeiro clima de guerra, tanto na arquibancada como entre os jogadores. Nesta segunda, Mourinho se recusou a revelar seu time, fez acusações e cobranças públicas a seus próprios jogadores. "Podemos jogar com gente que não costuma jogar, com um sistema que não jogamos", alertou, indicando que titulares podem ser colocados no banco."É o jogo mais importante dos últimos dez anos do Real", disse.

Ele ainda mexeu com os brios de seus jogadores, acusando-os de não terem entrado em campo com o compromisso de vencer. "Já falei tudo o que tinha de dizer aos jogadores. São 90 minutos e estamos perdendo 4 a 1. No futebol, tudo é possível. Mas se jogarmos como em Dortmund, pode esquecer", disse o português.

Mourinho não abre mão nem mesmo de pedir que os jogadores batam mais para parar o time alemão. "Não é possível que, em 90 minutos, não fizemos uma só falta no artilheiro deles", disse. Sérgio Ramos, o capitão, deixou claro: "Doeu. Queremos uma revanche", disse.

Para virar o placar, a direção do Real quer ainda o apoio da torcida para criar o ambiente de guerra. O clube enviou um e-mail a todos seus sócios pedindo que, nesta terça, transformem o Bernabéu em um "inferno branco".

IDEOLOGIA

Mourinho, porém, enfrentará outro desafio: ter de abandonar sua própria ideologia e partir para o ataque. Suas esperanças estão depositadas em Cristiano Ronaldo, artilheiro da Copa dos Campeões com 12 gols. O atacante sofreu uma lesão na primeira semifinal e, no fim de semana, foi poupado por Mourinho na rodada do Campeonato Espanhol.

Mas, ainda que esteja apenas 70% recuperado, estará em campo e terá a missão de levar o time ao ataque desde o primeiro minuto. Cristiano passou a semana inteira sem dar declarações. Ao final da goleada, evitou os jornalistas e apenas alertou que daria sua resposta nesta terça em Madri. Modric poderá entrar para dar mais toque e facilitar a transição do time ao ataque. Já Sérgio Ramos poderá voltar para a zaga.

O maior problema, porém, é que essa corrida por inverter o placar pode abrir espaços justamente para que o Borussia use justamente o veneno preferido de Mourinho contra seus adversários: o contra-ataque.

HUMILDADE 

Contrastando com a melancolia de Mourinho e a guerra montada pelo Real, Klopp esbanjava bom humor e apontava para o momento histórico que seu clube está vivendo, prestes a ir para a final da Copa dos Campeões. Durante a coletiva de imprensa, arrancou gargalhadas dos jornalistas, mas insistiu: "Não conquistamos nada ainda".

"Já começamos a sonhar com a final, é verdade. Mas estamos prontos para tudo e o nosso sentimento não é de que já estamos classificados. Sabemos que vamos ter de lutar com toda a força e vamos agir com a humildade adequada", disse, insistindo que não vai montar um time na retranca e que, se precisar, vai sair ao ataque. "Já provamos que podemos fazer isso".

Para ele, uma das maiores lições que seu time dá é de que individualidade não vence torneios. "Sabemos que o melhor time não vence com individualidades. Só se ganha com o coletivo", alertou.

Nesta segunda, 8 mil torcedores do Borussia aterrissaram em Madri e foram até o treino do time, criando um ambiente de festa alemã em pleno centro da capital espanhola. "Nosso time não vai tremer", garantiu Klopp. "De qualquer forma, será um jogo histórico. Se vencermos, será incrível. Se fomos derrotados, também será um jogo que entrará para a história do futebol", completou.

REAL MADRID X BORUSSIA DORTMUND

REAL MADRID - Diego López; Essien, Varane, Sergio Ramos e Fábio Coentrão; Modric, Xabi Alonso, Di Maria e Özil; Cristiano Ronaldo e Higuaín. Técnico: José Mourinho.

BORUSSIA DORTMUND - Weidenfeller; Piszczek, Subotic, Hummels e Schmelzer; Bender, Gundogan, Blaszcykowski e Götze; Reus e Lewandowski. Técnico: Jürgen Klopp.

Árbitro - Howard Webb (ING); Horário - 15h45 (de Brasília); TV - ESPN e Esporte Interativo; Local - Estádio Santiago Bernabéu, em Madri (ESP).

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