Daniel Teixeira/Estadão
Entorno do estádio em Itaquera deveria ter piso específico e projeto paisagístico, mas tem entulho e obras Daniel Teixeira/Estadão

Realidade da Arena Corinthians é bem diferente do projeto

Clube acha que estádio não estará 100% quando construtora sair no fim do mês

PAULO FAVERO e RAPHAEL RAMOS, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2015 | 17h00

Os trabalhos da Odebrecht na Arena Corinthians vão se encerrar no fim do mês, quando a construtora deixará o estádio em Itaquera. A saída da empresa está abrindo uma discussão interna no clube sobre as divergências entre o que está no contrato e o que foi feito. O deputado federal e superintendente de futebol Andrés Sanchez, responsável pelas obras do estádio, admite que a Odebrecht não vai deixar o estádio do jeito que se tinha imaginado inicialmente. “Não sei quando as obras serão concluídas por completo. O grosso, o que o Corinthians precisa para melhorar a arrecadação e dar mais conforto para o torcedor, deve ser encerrado nos próximos dias. Depois, o resto, que são coisas mais simples, vai acabando aos poucos”, diz.

Nesta semana, o Estadão visitou o estádio para comparar alguns itens que estão no projeto original com o que foi feito. Um detalhe que logo de cara chama a atenção é que o gigantesco painel de led da fachada Leste não está em pleno funcionamento. Justamente no local onde caiu o imenso guindaste em 27 de novembro de 2013, que derrubou parte da estrutura e matou dois operários. Desde então, a fachada foi refeita, mas o painel de 170 metros de largura e 20 de altura não funcionou mais em sua totalidade.

Recentemente, alguns dirigentes do Corinthians receberam do escritório de arquitetura Coutinho, Diegues, Cordeiro, contratado para fazer o projeto do estádio, um relatório de acompanhamento de 165 páginas. Nele, os profissionais relatam uma série de itens não executados e que deveriam ter sido entregues porque estão no contrato. Isso inclui colocação de pisos, implantação do projeto paisagístico e dezenas de outros detalhes, como o fechamento inferior da cobertura, acabamento das vigas laterais das arquibancadas, e muita coisa no prédio Oeste.

Procurado pelo Estadão, o arquiteto Anibal Coutinho, um dos idealizadores do projeto e do relatório, preferiu não falar. Em nota, a Odebrecht explicou o cronograma de obras. “Só estão faltando alguns poucos acabamentos nas áreas cujas obras são de responsabilidade da Construtora Norberto Odebrecht, os quais serão concluídos nos próximos dias. Eles se localizam, basicamente, no Centro de Convenções, no Nível 6-Oeste, e nos terraços dos camarotes para eventos festivos. Recentemente foram finalizadas as obras na cabine de imprensa, camarotes duplos (Nível 6) e Piso Business (Nível 8). Como se sabe, a realização dos jogos do Corinthians em sua nova casa e diversos outros eventos fora de dias de jogos ocorrem normalmente.”

A obra era para ter sido entregue em dezembro do ano passado. Mas, desde então, os recursos foram diminuindo e a quantidade de trabalhadores no estádio também foi reduzida. Ao mesmo tempo, o Corinthians passou a usar sua arena com frequência, enchendo de público e obtendo rendas milionárias. Isso freou um pouco as reformas e o interesse por adequar o estádio ao projeto original.

Quem visita o estádio percebe já do lado de fora que muita coisa não foi feita até agora. O tipo de piso, a iluminação monumental, a sinalização, nada disso está lá. No entorno, ainda há coisas da época em que o local recebeu partidas da Copa do Mundo no ano passado. Outro ponto importante é a implantação do projeto de paisagismo feito pelo arquiteto John Loomis, que desenhou o lado de fora do emblemático prédio Burj Khalifa, em Dubai, e também pensou em como deixar a arena brasileira mais bonita.

Como a Arena Corinthians tem grandes aberturas laterais – é um imenso vão livre –, um dos desafios era evitar que os faróis dos carros que passam perto do estádio incomodassem o público. Assim, foi pensado um bloqueio vegetal de árvores para fazer uma espécie de divisória ecologicamente correta.

Foi criado um modelo de pavimentação externa e de jardinagem, em que o ponto alto é um calçadão frontal, com espelho d’água que ajuda a formar uma nuvem de água que pode mudar de cor. Outro detalhe é que o desenho do piso simularia as listras da camisa 2 do Corinthians, que se articularia com a iluminação do lado externo. O piso deveria ser em pedra de granito.

Apesar de projetados, os bancos e grandes jardins ainda não estão lá, e a vista de cima mostra que o entorno é um imenso estacionamento a céu aberto, sem nenhum acabamento. Falta recapeamento definitivo do asfalto, pinturas de vagas e demarcação de tráfego. Pelo projeto, a área externa é vital para a atração de eventos e ativações dos patrocinadores, pois seria o primeiro local para impressionar o visitante. Isso também faz com que o clube perca importantes receitas.

Como o Corinthians fez um contrato com um preço fechado, atualmente em R$ 985 milhões, tudo que está no projeto deveria ser feito dentro desse valor. Agora, o problema está estabelecido e não se sabe quem vai terminar a tarefa e pagar o restante da conta.

Uma pessoa que acompanhou de perto a construção do estádio e preferiu não se identificar acha que vai sobrar para o clube. “Foi combinado lá atrás, mas muita coisa deixou de ser feita. O estádio vai ser entregue do jeito que quiserem, não como foi projetado”, lamentou.


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Obras no prédio Oeste da Arena Corinthians comprometem renda

Intenção é arrecadar por ano entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões

PAULO FAVERO e RAPHAEL RAMOS, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2015 | 07h00

O maior nó na Arena Corinthians é o prédio Oeste, que foi idealizado para gerar as maiores receitas para o clube e até subsidiar ingressos populares para outros setores. Só que muita coisa ainda não está funcionando lá, o que afasta possíveis compradores de camarotes e realizadores de eventos.

“Não tem redução de preço de ingresso, se der vamos até aumentar. É oferta e procura. A hora que o estádio estiver vazio eu abaixo o preço”, justificou Andrés Sanchez, superintendente de futebol do Corinthians.

Logo no saguão principal, por exemplo, o memorial de troféus do clube não existe. Nem a programação visual, o que faz com que uma área tão nobre não pareça com um estádio de futebol, reduzindo a atração aos torcedores e, por consequência, diminuindo receitas.

Alguns setores luxuosos ainda estão em obras e é possível ver sacos de entulhos, andares fechados e muita poeira. A intenção era arrecadar por ano entre R$ 80 milhões e R$ 100 milhões, mas até agora a expectativa dos dirigentes não avançou.

Lanchonetes estão fechadas e a loja da Nike não foi inaugurada. Isso significa perda de receita para o clube. Para se ter uma ideia, o faturamento mensal da loja que fica no Parque São Jorge gira em torno de R$ 180 mil a R$ 200 mil, em um lugar que não circula tanta gente quanto em um estádio de futebol.

Em uma área de aproximadamente mil metros quadrados, a loja-conceito terá mobiliário planejado e produtos específicos, com linha exclusiva para mulheres e bebês, por exemplo. A expectativa agora é que até novembro ela possa ser inaugurada, depois de meses de atraso para tirá-la do papel.

Recentemente, o departamento de marketing realizou uma pesquisa com 5.648 associados do Fiel Torcedor. O objetivo era saber que tipo de atividades as pessoas queriam que fossem incorporados ao estádio. As opções incluíam spa e espaço kids.

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