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Realismo fantástico volta em grande estilo

Discussão para jogo entre Palmeiras e Flamengo desvenda toda a monstruosidade do momento em que vivemos

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2020 | 05h00

Pelos anos 60/70 do século passado esteve muito em moda por aqui uma onda de autores latino-americanos cuja obra, para resumir, ficou conhecida como realismo fantástico. A definição, como todos os resumos, serve para qualquer coisa: o real distorcido, o real ficcionado, o real assustador, o real absurdo e fora de proporções. Eram histórias de portentos, maravilhas, inverossimilhanças, todas se introduzindo e afrontando um cotidiano aparentemente real. Se caracterizavam não por haver UM louco como personagem importante da história, mas por TODOS, ou quase todos, serem loucos. Uma cidade inteira, às vezes um pais inteiro, enlouquecido.

Hoje, mostrando sua força, essas um pouco esquecidas histórias reaparecem fortemente no meio dessa pandemia, inclusive, e talvez sobretudo, no futebol. De mansinho a loucura foi fazendo seu caminho. Primeiro os clubes começaram a treinar, porque treino era seguro, segundo eles. Depois, queriam a volta do futebol. O presidente do Flamengo, aliás, foi até Brasília pedir a volta do futebol. Campeonatos regionais foram finalizados aos trancos e barrancos.

Depois disso veio o Brasileirão, muito mais amplo, que estendeu o perigo de viagens pelo País inteiro. Partidas foram adiadas pelo contágio, já se avistava a loucura, mas fomos em frente. Para cúmulo seguiu-se uma inacreditável Libertadores exigindo viagens constantes para grandes distâncias, para países que se ignoravam mutuamente quanto à situação da doença.

Nesse quadro monstruoso a Libertadores voltou. Os mais delirantes já pensavam em abrir portões e chamar público para os estádios quando se deu o que nem a maioria enlouquecida poderia ignorar. Do Flamengo, depois de uma viagem a essa América do realismo fantástico, foram infectados jogadores, médicos, pessoal administrativo e mesmo o presidente, ele, aquele que alegremente pediu a volta do futebol ao presidente da República.

Hoje, sexta feira, quando entrego a coluna ao jornal, assisto ao incrível episódio de se discutir se Palmeiras, e o sumamente infectado Flamengo, devem jogar neste domingo. Vi no fim da manhã uma entrevista do presidente do Flamengo, de quarentena, tentando explicar o inexplicável. Tão insana, tão desoladoramente próxima de um personagem inventado por algum talentoso escritor de realidades fantásticas, que não parecia vir de alguém que comanda o clube mais popular do País.

O Flamengo, contrariando suas mais constantes posições, não quer jogar, por razões que o presidente, hesitante e meio confuso, tentou explicar. O Palmeiras responde que quer jogar, para se aproveitar do Flamengo ter pelo menos 16 jogadores fora da partida.

Esse jogo sozinho desvenda toda a monstruosidade do momento. Pelo menos por duas razões. A primeira são os jogadores. Não vi uma única declaração de jogador do Palmeiras ou do Flamengo protestando contra o perigo de jogar nessas condições. Onde estão os líderes entre os jogadores, onde está a família dos jogadores, mulheres, filhos que podem sofrer com isso tudo? Quem está se contaminando principalmente são os jogadores. E deles não se ouve sinal de protesto.

Falta comentário à direção do Palmeiras e sua atitude oportunista, pequena e pobre de tentar se valer da fraqueza momentânea do adversário para poder ganhar a partida. A resposta deveria ser o contrário: o Palmeiras não enfrenta juvenis, é muito grande para isso. De quebra, o clube, se houver jogo, se expõe a riscos. Primeiro de infectar seus jogadores, pois alguns do Flamengo podem ser infectados assintomáticos; segundo, que talvez seja o pior, de sofrer uma das maiores humilhações de sua existência, caso perca para o desfalcadíssimo Flamengo. 

De parte a parte sobra loucura, insensatez e desvario. Pobre País, pobre América Latina.

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