Paulo Whitaker/ Reuters
Paulo Whitaker/ Reuters

Receita dos quatro grandes clubes de São Paulo aumenta em 70% na última década

‘Estado’ tem acesso exclusivo a levantamento feito pela consultoria EY em que Corinthians aparece como maior beneficiado das cotas de TV, com R$ 1,2 bilhão nos dez últimos anos

João Prata, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 15h27

As finanças dos quatro times de São Paulo que disputam o Campeonato Brasileiro, de maneira geral, continuam a crescer. A crise econômica enfrentada pelo País não impactou muito no caixa das equipes. Mas se quiser pensar grande e vislumbrar um dia concorrer com o mercado europeu, por exemplo, os clubes terão de mudar a forma como veem o futebol.

As conclusões são a partir de estudo produzido com exclusividade para o Estado da consultora EY, que presta serviços no futebol para grandes equipes da Europa, como Real Madrid e Barcelona, da Espanha, e tem como clientes 12 dos 20 times do Brasileirão. A empresa analisou as finanças da última década de Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos

Ao olhar para os número divulgados de maneira macro, os quatro grandes faturam cada vez mais, ano após ano. O salto total das receitas foi de R$ 549 milhões em 2009 para R$ 1,76 bilhão na última temporada, aumento de quase 70% em dez anos. O impacto positivo é causado especialmente pelas cotas de TV, aliás, uma briga antiga em relação aos valores pagos para Corinthians e Palmeiras. A cada renegociação de contrato (as duas mais recentes aconteceram em 2012 e em 2016, por exemplo) é possível ver o gráfico das quatro equipes aumentar. O Corinthians lidera com arrecadação de R$ 1,2 bilhão. 

"O Corinthians e o Santos deram um bom salto na última década e que de certa forma estimulou o Palmeiras a abrir negociação para discutir o assunto com a Globo", disse ao Estado Pedro Daniel, líder de esportes da EY. Nesse quesito, o Palmeiras ocupa a terceira colocação, com arrecadação de R$ 850 milhões de 2009 a 2018. 

O Palmeiras, em compensação, é o clube que apresenta maior equilibro das receitas e é disparado o que mais faturou no último ano: R$ 653 milhões, contra R$ 469 milhões do Corinthians, o segundo colocado. "É um clube que diversificou as formas de faturamento e proporciona vantagens, como não ficar dependente de uma única fonte de receita. Com isso, aumenta a barganha de negociação", diz Pedro Daniel. 

Isso ficou claro neste ano na renegociação dos direitos de televisão com a Globo. O Palmeiras não chegou ainda a um acordo para a transmissão de seus jogos na TV aberta. O clube alviverde quer ganhar com transmissão o mesmo que Corinthians e Flamengo, os dois mais bem pagos. No ano passado, o time do presidente Andrés Sanchez faturou R$ 197 milhões contra R$ 135 milhões do rival do Allianz Parque.

O Santos é a equipe que tem menor poder para negociar, pois depende claramente do dinheiro dos direitos televisivos, conforme aponta o estudo. O clube também não fatura tanto com transferências quanto a fama que carrega com seus Meninos da Vila. O Santos anda na rabeira em relação aos outros três na maioria dos quesitos analisados. Se quiser enxergar, no entanto, de outra forma, é um dos times que têm maior potencial para crescer.

Quem ganhou mais nesses últimos dez anos com transferência de jogadores foi o São Paulo: R$ 867 milhões diante de R$ 398 milhões do Santos. Segundo Pedro Daniel, a diretoria do Morumbi conseguiu fazer com que o mercado assimilasse o rótulo de clube revelador e pagasse mais pelas promessas da base de Cotia, enquanto que o Santos é visto como equipe que revela de maneira extraordinária. Mas olhar para Robinho, Neymar e Rodrygo, já vendido ao Real Madrid. 

Dívidas

A evolução do faturamento dos clubes de São Paulo, com sua maior capacidade de gerar receita, também gera, por consequência, maior endividamento. Por isso a dívida desses times saltaram de R$ 465 milhões em 2009 para R$ 1,6 bilhão em 2018. Mas esse número não é preocupante, de acordo com a EY, porque os times, cada vez mais, têm conseguido honrar com seus compromissos. É o que mostra o levantamento dos empréstimos feitos nas últimas temporadas. Desde 2015, os clubes têm recorrido menos a pedir dinheiro no mercado. São Paulo e Palmeiras chegaram a se endividar muito entre 2014 e 2015, cerca de R$ 150 milhões cada um somente em empréstimo. No ano passado, o time de Maurício Galiotte registrou empréstimo de R$ 142 milhões via patrocinadora Crefisa (dinheiro usado para comprar alguns jogadores). E o São Paulo, R$ 86 milhões.

Um ponto preocupante no levantamento da EY, de acordo com Daniel, está nos patrocínios. "O faturamento com publicidade caiu em 2018 depois de anos de crescimento. Deu uma boa recuada. É uma sinalização que preocupa. Os clubes, sob o ponto de vista das empresas, já não estão mais tão atrativos", comentou.

O diferencial das Arenas

Por outro lado, times que investiram na modernização de seus estádios aumentaram satisfatoriamente o faturamento com bilheteria. O Palmeiras saltou de R$ 23 milhões em 2014 para R$ 87 milhões em 2015, quando ficou pronto o Allianz Parque. O Corinthians, nos três primeiros anos de sua arena, em Itaquera, não revelou quanto ganhou com venda de ingressos, mas saltou de R$ 32 milhões em 2013 para R$ 63 milhões em 2017, no primeiro ano em que informou o resultado de sua bilheteria em Itaquera. 

Para Pedro Daniel, o Palmeiras "entrou em um círculo virtuoso e tem geração de caixa muito alta". O Corinthians teve queda de patrocínio grande, de R$ 78 milhões em 2017 para R$ 42 milhões no último ano. "Por isso precisou vender atletas, problema semelhante ao do Santos."

O time da Vila, no entanto, ainda não contabilizou a venda de Rodrygo, cerca de R$ 100 milhões, e por isso "está economicamente estável". O São Paulo mostra que “historicamente” é um clube superavitário. Tem despesas parecidas com receitas. Teve oscilação entre 2014 e 2015 porque investiu muito e não teve retorno. Mas agora está pagando os empréstimos com sua realidade." 

Comparação com Europa

Segundo Pedro Daniel, o futebol brasileiro está ainda distante de ser um centro como o da Europa porque não olha seu produto como um todo. Cada clube senta individualmente para negociar seus contratos e isso enfraquece a competição. "Você não vê isso em lugar nenhum do mundo. Para ter um produto forte tem de ter união", diz. "Seria necessário todos sentarem juntos na mesa e pensarem juntos a competição, colocarem questionamentos: será que os horários são adequados para exportar o produto? Será que não seria mais vantajoso fechar contratos do campeonato em si?"

O especialista estudou por anos a Premier League, na Inglaterra, e a La Liga, da Espanha. Lá, a competição é vendida como a Fórmula 1 ou a NBA. Não importa em que estádio aconteça a partida, as placas de publicidade terão os mesmos anunciantes. E para exemplificar a maneira de pensar em conjunto, ele relembrou uma conversa que teve com o presidente da La Liga, Javier Tebas.

"Disse para ele que no Brasil se usava o termo espanholização de maneira pejorativa. Ele concordou que era um campeonato previsível. E me disse: ‘a Premier fatura 5 bilhões de euros. A gente fatura 3,3 bilhões de euros. Se fizer igual e distribuir igual o dinheiro, vou chegar nos campeonatos europeus e vou perder. Nós temos duas marcas globais. Essas marcas valorizam a Liga, atraem patrocinadores, público... E você pega os últimos dez anos, esses dois clubes ganharam tudo na Europa. O futebol espanhol dominou o mercado europeu e mundial'". 

No Brasil, o problema segundo o consultor, é que o futebol é discutido sob o ponto de vista de torcedores e não de um negócio lucrativo. "Se o conteúdo é discutido isolado, o bolo não cresce. E então vemos voos de galinha como foi o salto do Corinthians entre 2008 e 2012 e agora o do Flamengo nos últimos três, quatro anos. O clube se destaca, mas tem um teto. O produto limita.”

Outro fator limitador é o pouco interesse de multinacionais de investir no futebol brasileiro. Segundo Pedro Daniel, isso acontece por causa do curto período de gestão dos clubes. "Pense de maneira fria como um investidor. Os clubes têm períodos de mandato de três anos em média. No quarto ano, pode mudar toda a filosofia. A multinacional não consegue pensar em longo prazo. Não vai querer fazer contrato de dez anos porque isso pode pegar quatro gestões diferentes", explica. Portanto, embora os números sejam interessantes para Palmeiras, Corinthians, Santos e São Paulo, ainda há um caminho a ser percorrido.

 

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