Recomeçar de seis

Corinthians pode inspirar-se em protagonista de filme italiano para 'erguer a cabeça' no Brasileirão

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2017 | 03h00

O cabeçalho da crônica parece enigmático, soará menos estranho só para cinéfilos e por isso merece explicação. Anos atrás, o saudoso Massimo Troisi, extraordinário ator napolitano, foi protagonista de filme que se chamava “Ricomincio da Tre” (Eu recomeço de Três). Era a história de um sujeito decepcionado com a rotina medíocre e que desejava dar guinada, dar rumo novo à própria existência.

Para tanto, usava a expressão do título, enquanto se preparava para sair de Nápoles em direção a Florença. Até que um amigo fez a observação: “O certo é falar ‘recomeço do zero’ e não de três.” Troisi respondia: “Ué, três coisas boas me aconteceram. Então, parto dessa base e não do zero”.

Fazia sentido, tinha lógica e graça. Por que jogar fora referências úteis?

O Corinthians pode inspirar-se no ator para erguer a cabeça, com ligeira adaptação para “recomeço do seis”, que é a vantagem de momento em relação a Palmeiras e Santos, os perseguidores na arrancada final do Brasileiro. A diferença já esteve maior, quase inalcançável, sobretudo na virada do turno. O líder sobrava tanto que o campeonato dava sinais de que estaria resolvido a esta altura, oito rodadas antes do fim. Parecia, e pegou os distraídos.

Veio a queda de desempenho alvinegro, seguida do crescimento alviverde e do ressurgimento santista, este a bem da verdade sempre a correr por fora, como quem não quer nada. (Antes, ficava à sombra do Grêmio...) Com 24 pontos por disputar, agora é imprudente descartar a possibilidade de reviravolta no topo. Em 2009, o Palmeiras viveu quadro semelhante e, no ato derradeiro, ficou fora até de Libertadores.

A vantagem corintiana é de obviedade acaciana, o raciocínio simples e objetivo indica que só depende de si para ficar com a taça no início de dezembro. A prática, porém, desmente o bom senso. A equipe de Fábio Carille, hoje, está distante da eficiência, do equilíbrio, da precisão milimétrica das 19 rodadas iniciais. Mantém-se à frente por causa da excepcional trajetória do período, ao mesmo tempo em que os demais vacilavam e empacavam. No entanto, a queda veio e escancarou as limitações.

Já abordei o tema neste espaço, mas vale recordar. Sem nenhum sentido de caça às bruxas, muito menos de busca de culpados para pagarem o pato, a fase instável passa por queda de aproveitamento de peças importantes, várias delas. Fagner e Arana, marcadores implacáveis e bons no apoio, diminuíram o ritmo; Rodriguinho e Jadson, regentes do meio-campo, não fazem a balança pender pro lado do Corinthians. 

Romero voltou a ser jogador esforçado e trivial. A dupla Gabriel e Maycon não segura a barra na proteção à zaga. Por extensão, o sistema defensivo se tornou vulnerável. No primeiro turno, foram 9 gols em 19 partidas; no segundo, entraram 11 bolas em 11 jogos. 

Carille tirou o máximo da tropa, ok. Agora tem responsabilidade no declínio, ao insistir com titulares em má forma. Também se aferrou ao sistema utilizado desde o início, o que pode ser tomado como teimosia e não como segurança. Se algo não funciona, convém detectar e consertar, ajustar e adaptar. Ser maleável não significa ser indeciso.

O panorama não é trágico, tampouco sereno. Há intranquilidade, que se manifesta nos passes errados no jogo com o Botafogo, nas finalizações poucas e erradas, nas reclamações com arbitragem, mesmo que em determinados episódios sejam justas. Incomoda, mas não foi o pênalti não marcado em Jô que tirou o Corinthians do prumo. A lamentar pra valer é o retrospecto pobre do returno, resumidos nos 12 pontos conquistados dos 33 disputados.

A casa corintiana não ruiu; porém, balança. A prova dos nove pode vir no dia 5, no clássico com o Palmeiras, em Itaquera. E não é que a Série A pelo menos deu uma animada?

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