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Reconstruindo o passado

Em seu livro 'Os Beneditinos', José Trajano combina ficção com memórias reais

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2018 | 04h00

O jornalista José Trajano acaba de lançar mais um livro. O nome é Os Beneditinos, escrito no mesmo estilo dos anteriores, combinando ficção com memórias reais, se é que as memórias têm alguma realidade. Muitos perguntam o que é real e o que é imaginário no livro do Trajano. Muita gente que conhece o jornalista, pois quem não conhece, o leitor comum, fica com uma das duas hipóteses sem que isso interfira com seu prazer na leitura. O que equivale a dizer que essa duvida, se é ficção ou realidade, não tem a menor importância.

O que tem importância é que Trajano se propõe um exercício fascinante, que não é tanto descrever o passado, mas recriar o que passou. O que ele propõe é reconstruir acontecimentos remotos, fazer de novo o que foi feito uma vez, exatamente com os mesmos personagens, nos mesmos lugares. Para piorar, Trajano vai até seus primeiros anos, procura refazer algo da infância, proezas de garotos saudáveis, cheios de fôlego e energia.

Esses garotos, hoje perto ou já passados dos setenta, são convocados para reproduzir o time de seus anos de ginásio, no mitológico Colégio de São Bento do Rio de Janeiro dos anos 50. Trajano, ou o personagem que ele inventou, vai para o Rio no encalço dos antigos colegas propondo voltarem a campo, a despeito das calvas, dentaduras duplas, artrites e corações vacilantes.

Para dar um mínimo de verossimilhança à coisa, jogariam uma modalidade de futebol recentemente inventada na Inglaterra – mas que pode bem ser invenção do próprio Trajano –, especial para anciãos, em que é proibido correr ou levantar a bola. Só se pode andar para o lugar certo e dar passes rasteiros e medidos. Valem só essas habilidades para chegar ao gol e à vitória.

A presença do escritor no Rio é justamente para divulgar esse novo tipo de jogo, bem como o primeiro campeonato mundial da modalidade, a ser realizado em Londres. E é com sua chegada ao Rio que outra deliciosa vertente do livro se abre, isto é, a descrição do Rio na segunda metade dos anos 50, em particular o cotidiano do Colégio São Bento, colégio da elite católica do Rio, que produziu quantidade substancial de intelectuais da estatura de Jackson de Figueiredo ou Alceu Amoroso Lima.

De quebra vem o resto daquele Rio, da Praça Mauá, onde se situa o Colégio até, de novo, a Tijuca, o bairro de Trajano. De novo, porque a Tijuca aparece no seu livro anterior “Tijucamérica”, que, no tom, lembra um pouco o atual. Bem, voltando aos encontros com os antigos colegas, é maravilhoso como a proposta não encontra nenhuma resistência, ao contrário, é saudada entusiasticamente por todos os anciãos, dispostos a começar treinos e exercícios. E, à medida em que vão para o campo, a ilusão começa a se desfazer.

Porque o livro trata exatamente disso, uma ilusão, e a impossibilidade de viver de novo uma experiência que passou. O desejo é tão grande, a solidão tão poderosa que, por momentos, cega e impede que se vejam as coisas tais quais elas são.

Por um instante tudo parece possível, mesmo jogar futebol, ainda que de forma amena, aos setenta anos. Há uma grande página quase no fim do livro, quando os antigos alunos do São Bento, resignados às suas realidades, resolvem fazer uma coisa mais adequada para a maioria: assistir uma missa de domingo como faziam tantos anos antes. E assim, todos reunidos, os sobreviventes do time de futebol do colégio, crentes e descrentes, reviveram o que lhes foi possível. Uma missa de domingo pela manhã, a única coisa que tinha permanecido igual ao que sempre fora. Na saída da igreja, havia apenas a realidade: “Comovido fui até os fundos do mosteiro contemplar a bela vista da baía, não se percebem a poluição e o fedor. De longe, continua esplendorosa”.

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