Maurilo Clareto/Estadão
Maurilo Clareto/Estadão

Reinaldo está orgulhoso da cara nova de seu altar, o Mineirão

Maior artilheiro da história do estádio, ex-atacante do Atlético-MG ficou feliz com a reforma

VÍTOR MARQUES - Enviado Especial, O Estado de S. Paulo

23 de junho de 2013 | 08h08

BELO HORIZONTE - José Reinaldo de Lima assistia à partida entre Taiti e Nigéria, no Mineirão: 6 a 1, fora a enxurrada de gols perdidos pela seleção africana, que aproveitava a inocência do simpático, mas grosso, time da Polinésia. Ele via o jogo na companhia de outro ex-jogador de renome, o argentino Sorín.

 

"Hoje, num campo como este, ninguém pode reclamar se a bola bate na canela", disse ao Estado o ídolo do Atlético-MG, com a autoridade de quem é o maior artilheiro do Gigante da Pampulha. No "antigo" Mineirão, foram 152 gols entre os anos 70 e 80.

 

O estádio, reconstruído para a Copa das Confederações, foi aprovado por Reinaldo. Do campo aos vestiários. Seu maior sonho é ver o Galo campeão da Libertadores. Não no acanhado Independência, mas no estádio que ele chama de casa, o seu altar. "Só um capricho demoníaco do futebol tira esse título do Atlético."

 

ESTADO - Você é o maior artilheiro do Mineirão. O que achou da cara nova do estádio?

REINALDO - O Mineirão ficou chique. Achei ótimo, o futebol precisa de estádios bons, porque caso contrário o próprio espetáculo fica prejudicado. Hoje, num campo como este ninguém pode reclamar se a bola bate na canela, o estádio é bom, o gramado é bom, melhor do que na minha época.

 

ESTADO - O que o Mineirão representa para você, quais são suas lembranças?

REINALDO - É a minha casa, é o meu altar, onde agradeço todos os dias porque tive a felicidade de ser o maior artilheiro, foi onde eu desfilei todas as minhas qualidades, minha arte de jogar futebol. Vivi momentos inimagináveis, maravilhosos e que me levaram a emoções únicas.

 

ESTADO - Qual o gol mais bonito, ou mais importante, que fez no Mineirão?

REINALDO - Fiz um gol em que ganhei uma placa na partida contra o América de Natal, em 78 (vitória por 6 a 0), foi um gol muito bonito (encobriu o goleiro), mas também naquela época davam placas para todo mundo (risos). Houve outros gols, gols pelo Mineiro de 76, gol do primeiro título que ganhamos em cima do Cruzeiro. Guardo tudo isso com muito carinho, até hoje tenho lembranças desses dribles, dessas jogadas.

 

ESTADO - Um grande jogo?

REINALDO - Sempre fiz grandes jogos contra o Cruzeiro, eu sou o maior artilheiro do clássico, mas fiz grandes jogos naquelas finais do Brasileiro de 80, contra o Flamengo. Mas acho que o dia mais triste para mim foi aquele 5 de março de 78 (data da decisão do Brasileiro de 77) porque eu fui impedido de jogar. Fiquei triste porque estava no meu melhor, fiz gols em vários jogos, era o artilheiro, poxa, jogando dentro de casa, um artilheiro como eu não iria falhar, tinha certeza de que faria o gol do título.

 

ESTADO - Ainda hoje acredita em interferência extra-campo?

REINALDO - Bom, fui expulso bem antes, na primeira fase do campeonato, mas meu julgamento ficou engavetado, não me julgaram. Aí o Serginho Chulapa foi expulso na semifinal e resolveram me julgar. O Serginho pegou seis meses de suspensão e eu, um jogo, justo a final. A gente não vivia numa época de jogo, era outra coisa (a ditadura militar), foi a influência de São Paulo no poder.

 

ESTADO - O seu Atlético agora joga no Independência, e não mais no Mineirão. O que acha disso?

REINALDO - O Independência é um campo tipo galinheiro, e o Atlético explora essa pressão muito bem, mas acho que também tem a ver com a superstição, o que é natural, o time não perde lá há quase dois anos, então vai mudar para quê? O Atlético está fazendo um jogo agressivo, de força, velocidade. Mas acho que, se chegar à final, o Atlético jogará no Mineirão, é o grande estádio, até por causa do regulamento, da capacidade de público do Mineirão (na Libertadores, a final tem de ser disputada em estádios com no mínimo 40 mil lugares de capacidade).

 

ESTADO - O Atlético é hoje o melhor time do Brasil?

REINALDO - Deu uma caída, mas se voltar a jogar o que vinha jogando até aqueles jogos contra o São Paulo sim, é o melhor time. Muito disso tem o dedo do Cuca, que montou um time dentro de seu esquema. Jogam dois caras abertos (Bernard e Tardelli), o Jô na frente e o Ronaldinho para acionar essa velocidade. O meio de campo é burocrático, mas não compromete. A defesa, com as Torres Gêmeas, é rápida.

 

ESTADO - Desta vez o Galo vence a Libertadores?

REINALDO - Seria uma tragédia, um capricho demoníaco do futebol tirar esse título da Libertadores do Atlético.

 

ESTADO - O Ronaldinho poderia estar na seleção?

REINALDO - O treinador tem razões que até a própria razão desconhece. Não faz sentido o Felipão não levar o Ronaldinho porque ele levou o Jadson, que é um bom jogador, mas nunca foi craque e também não é jovem. Se ainda levasse o Kaká, a gente engolia. Seleção é momento, e no momento a gente leva o Ronaldinho. Não vamos desprezar o histórico de títulos, os gols. Deixa ele acabar de escrever sua história na seleção na Copa do Mundo, depois, pronto, ele fecha o livro.

 

ESTADO - Você sofreu com lesões na carreira e apanhava muito, como Neymar. Ele apanha demais ou é cai-cai?

REINALDO - O Neymar faz o repertório de dribles, fintas e é eficiente para o time. É uma pérola, e toma porrada demais. Cai-cai? Os caras não vão na bola, vão nele, e o juiz não faz nada, deixa. A melhor coisa que ele fez foi ir jogar na Europa.

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