Vanderlei Almeida/AFP
Vanderlei Almeida/AFP

Relembre histórias da Copa do Mundo de 1950 além do 'Maracanazo'

Seleções contaram com cortesias de times como São Paulo, Atlético-MG e Cruzeiro-RS

André Carlos Zorzi, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2020 | 05h00

A Copa do Mundo de 1950 terminou com a derrota da seleção brasileira para o Uruguai por 2 a 1 no chamado 'Maracanazo', realizado em 16 de julho, há 70 anos. O primeiro mundial no Brasil, porém, contou com diversos outros fatos marcantes e nem sempre lembrados. O Estadão informa alguns desses fatos curiosos. Muitos deles parecem inimagináveis nos dias de hoje, como por exemplo, uma seleção disputar um jogo de Copa do Mundo utilizando a camisa de um clube local. Confira algumas dessas curiosidades:

Atletas que disputaram Copas antes e depois da Guerra

Os anos de 1942 e 1946 não tiveram  Copas do Mundo em decorrência dos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, que inviabilizaram a prática do futebol em diversos países. Com o intervalo de 12 anos entre a Copa do Mundo de 1938 e a de 1950, apenas dois jogadores conseguiram disputar ambas.

O primeiro foi Fredy Bickel, da Suíça. Em 1938, disputou as três partidas de sua seleção no mundial, e chegou a marcar um gol na vitória por 4 a 2 sobre a Alemanha nazista. Em 1950, ele voltou ao torneio como capitão nos jogos contra Iugoslávia e Brasil, mas ficou fora contra o México.

Já pela Suécia, Erik Nilsson ficou no banco contra Cuba e Hungria, mas participou da disputa de 3º lugar contra o Brasil, em 1938. Os brasileiros venceram com dois gols de Leônidas da Silva em um 4 a 2. Nilsson também foi capitão de sua seleção em 1950, e disputou todas as cinco partidas da Suécia no torneio, incluindo a histórica vitória por 3 a 2 sobre a Itália na estreia. Foi a 1ª derrota da Azurra em uma Copa do Mundo - até então os italianos tinham conquistado oito vitórias, um empate e dois títulos no torneio. Os italianos chegaram fragilizados ao torneio por conta do acidente aéreo que vitimou o time do Torino, uma das bases da seleção à época, no ano anterior.

México foi a campo com a camisa do Cruzeiro-RS

Quando o México apareceu com um uniforme bordô para enfrentar a Suíça, de vermelho, foi preciso que uma das equipes mudasse de roupa. A solução encontrada foi pegar camisas listradas em azul e branco do Cruzeiro, clube de Porto Alegre e dono do estádio dos Eucaliptos, sede da partida. As duas seleções já estavam eliminadas, mas o México perdeu por 2 a 1.

Não foi a primeira vez que algo do tipo ocorreu em uma Copa do Mundo. Na Itália, em 1934, Alemanha e Áustria chegaram com camisas brancas antes de um jogo em Nápoles e precisaram decidir quem mudaria o uniforme no "cara ou coroa". Os austríacos perderam, e, como não tinham outras roupas, jogaram com camisas azuis emprestadas do Napoli.

Jogadores do Atlético-MG em treino do Uruguai

O clima de cortesia esteve presente em outros momentos da Copa de 50. Em 28 de junho, por exemplo, a seleção do Uruguai precisou de dois jogadores para compor o time com seus reservas em um treino em Belo Horizonte, antes da partida com a Bolívia. A Celeste contou com o 'empréstimo' de Zé do Monte e Afonso por parte do Atlético-MG para o coletivo, vencido pelos titulares por 5 a 3.

Na partida contra a Espanha, no Pacaembu, pelo quadrangular final, o goleiro reserva uruguaio Paz apareceu em campo usando uma camisa do São Paulo Futebol Clube, time que ajudou na concentração dos estrangeiros na cidade.

Agressão ao técnico do Brasil, Flávio Costa, no Pacaembu

Parte da torcida ficou bastante desapontada com o empate em 2 a 2 da seleção brasileira com a Suíça no Pacaembu, na 2ª partida do torneio, única da equipe fora do Maracanã. Alguns mais exaltados chegaram a agredir o técnico Flávio Costa na saída do estádio. Segundo o Estadão à época, houve "pronta intervenção da polícia", que "impediu que o ato tivesse maiores consequências". Duas pessoas foram presas e o técnico recebeu atendimento após ter sofrido escoriações leves.

A seleção do México também enfrentou problemas após retornar para seu país com três derrotas na Copa do Mundo. A imprensa mexicana teria destacado a decepção com os resultados com um suposto comportamento inadequado dos atletas no Rio. O técnico Octavio Vial e o presidente da federação, Salvador Sierra, também não foram poupados. Na ocasião, a Federação mexicana suspendeu, de forma provisória, diversos atletas da seleção, como Mario Ochoa, Jose Borbolla e Antonio Flores, para evitar que sofressem "críticas violentas e hostis por parte dos espectadores".

A primeira grande 'zebra' das Copas

Para algumas pessoas, a principal 'zebra' da Copa de 1950 não foi a derrota do Brasil para o Uruguai, mas sim a vitória da seleção dos Estados Unidos sobre a Inglaterra. O elenco dos Estados Unidos era formado por jogadores semiprofissionais e não tinha intenção em passar de fase. A Inglaterra, por sua vez, contava com o lendário Stanley Matthews. A partida inspirou o livro e o filme The Game of Their Lives.

O gol da vitória norte-americana foi marcado aos 38 minutos de jogo, quando Walter Bahr, um professor, lançou a bola para Joe Gaetjens concluir de cabeça. Gaetjens nasceu no Haiti e foi descoberto pelo treinador William Jeffrey pouco antes da Copa do Mundo. À época, ele trabalhava como lavador de pratos e estudava contabilidade em Nova York. O atleta voltou a morar no Haiti e  defendeu a seleção de seu país, posteriormente. Gaetjens morreu 14 anos depois, durante a ditadura de François Duvalier, o Papa Doc, em seu país natal.

Antes da estreia dos Estados Unidos, contra a Espanha, constava no Estadão: "Os norte-americanos, nesses últimos tempos, fizeram progressos sensíveis no futebol, demonstrando uma capacidade de assimilação realmente notável. Líderes em vários ramos esportivos, eles poderão, dentro de pouco, figurar entre os mais fortes futebolistas do mundo".

Por pouco, o jogo, disputado no estádio Independência, não teve sua sede alterada. O fato de o estádio estar inacabado facilitou a entrada de pessoas sem pagar ingressos na partida entre Suíça e Iugoslávia. Uma multidão também aproveitou um morro do "lado aberto" do estádio para assistir à partida. A organização chegou a consultar as federações da Inglaterra e dos Estados Unidos, cogitando uma mudança para o estádio da Alameda, do América-MG (à época, o Independência pertencia ao 7 de Setembro), que acabou não se concretizando.

Os desistentes da Copa de 50

A Copa de 50 contou com apenas 13 times na disputa - gerando quantidades de jogos diferentes para cada time. Enquanto o Brasil jogou três na 1ª fase, o Uruguai jogou apenas uma na fase de grupos, por exemplo. A ideia inicial da Fifa, porém, era contar com 16 seleções. Escócia, Índia e Turquia se classificaram, mas desistiram de participar. França e Portugal chegaram a receber convites, mas também não vieram ao Brasil. Entre as variadas motivações, destacava-se a financeira. As questões de transporte, por exemplo, eram mais complexas do que atualmente. Trazer uma delegação inteira da Índia ou da Turquia indicava altos custos.

A seleção da Suíça, que foi eliminada na 1ª fase, chegou a 'deixar' um dirigente e sete jogadores no Brasil por mais algum tempo após o fim de sua participação, já que não havia lugares suficientes para todos no avião para retornar a Genebra.

 

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