Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão
Imagem Mauro Cezar Pereira
Colunista
Mauro Cezar Pereira
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Remédio paliativo

O time do Brasil corre, agora, o risco de cair, mais uma vez, na armadilha da supervalorização

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 04h30

A diferença técnica abissal entre as duas equipes que estiveram frente a frente no Maracanã decidindo a Copa América não se retratou em campo. O pragmatismo do time de Tite e o apego à vantagem mínima, não buscando um placar mais amplo com a volúpia que deveria, e poderia, levou ao flerte com o perigo.

Brasil x Peru, no Rio de Janeiro, com torcida brasileira em maioria, ou seja, em casa. Favoritismo imenso. Gol rápido de Everton Cebolinha, certa acomodação e empate com Guerrero, de pênalti. Gabriel Jesus recolocou os brasileiros à frente, mas depois do intervalo, após sofrer alguns ataques, os peruanos assumiram o jogo.

A expulsão de Gabriel Jesus aos 25 minutos da etapa final levou o jogo para um caminho ainda mais óbvio, com o Brasil marcando em seu campo e esperando o adversário. Ficou mais perigoso, esquisito. Os brasileiros não aproveitaram a imensa superioridade técnica para ampliar a vantagem quando eram 11 contra 11.

Mas veio o pênalti absurdo dado contra os peruanos, então Richarlison definiu. O Brasil pode até reclamar do, exagerado, cartão vermelho para seu camisa 9, mas tanto contra a Argentina como diante do Peru contou com enorme boa vontade dos apitadores. Mas quem está ligando para isso? Poucos, claro.

A seleção convocada para o certame reuniu 14 jogadores que menos de um ano antes estavam na Rússia na Copa do Mundo. Oito com pelo menos 30 anos, sete deles eram defensores e volante. A ideia era ter um grupo experiente. Meta: resultados rápidos, explícito imediatismo. 

O objetivo de Tite na competição era, independentemente da qualidade do jogo apresentado, erguer o troféu e, campeão, ganhar fôlego para seguir no cargo, a caminho da Copa do Mundo de 2002, no Catar. Dias antes da final, surgiu a notícia de que o técnico estaria insatisfeito. Possível, claro, mas ele foi ao Maracanã sem proposta do exterior. Se amanhã ou depois pedir o boné, não será para ganhar mais dinheiro, mesmo que surja uma oportunidade das grandes. A seleção é sonho antigo e a Copa do Mundo uma obsessão após a queda em 2018.

O sofrível nível técnico da Copa América é um campo dos mais fartos para devaneios e exageros “pachequistas”. O time do Brasil corre, agora, o risco de cair, mais uma vez, na armadilha da supervalorização de um triunfo não tão relevante e a anos-luz do real objetivo, o Mundial.

Tite, seguindo seu trabalho, fora de campo necessitará de habilidade para conviver com um novo diretor, já que Edu Gaspar está de malas prontas para Londres. No Arsenal, onde jogou, o dirigente da CBF será diretor, deixando aberta lacuna importante demais para o técnico.

Foi ele quem escolheu o próprio chefe. Sim, em 2016, quando, desesperada, a CBF foi atrás de Tite após demitir Dunga, que deixara a seleção em sexto lugar nas eliminatórias para a Copa, o novo treinador indicou seu diretor, ou sejam, seu próprio chefe, justamente Edu.

Sem ele, terá que conviver com um comando, digamos, menos parceiro, pelo menos na teoria. Outro ex-jogador, Juninho Paulista, é nome cotado. Não significa que, se realmente assumir o cargo, ele e Tite não se entenderão, mas seria uma mudança realmente importante.

A Copa América acalma as coisas, é um título que funciona como um remédio, contudo, paliativo. Caso as coisas caminhem mal, seu efeito será mínimo, ou nulo. Esse troféu é, na prática, como um remédio cujo efeito é curto. É preciso um tratamento mais consistente: mais renovação. E mais futebol. Futebol que faltou na Copa América. Enfim acabou. E não deixa saudades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.