Alejandro Garcia/EFE
Alejandro Garcia/EFE

Remédios ameaçam a saúde de atletas

Estudos realizados pelo corpo médico da Fifa revelaram que o uso de analgésicos e anti-inflamatórios passou a ser generalizado

Jamil Chade - Enviado Especial, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2013 | 07h40

GENEBRA - Diante de pressões de patrocinadores, de uma agenda caótica e de lucros globais, o mundo do futebol soa o alarme diante da explosão do número de jogadores entrando em campo sob forte medicação para mascarar lesões. Estudos realizados pelo corpo médico da Fifa nas últimas competições entre seleções revelaram que o uso de analgésicos e anti-inflamatórios passou a ser generalizado. Se esses produtos não são proibidos pela Agência Mundial de Doping, a preocupação é de que acabem causando sérios problemas de saúde para os jogadores.

Os dirigentes do futebol insistem que o doping não é um problema grave na modalidade. Mas a constatação cada vez maior entre médicos é de que muitos simplesmente driblam a noção do doping para traçar esse cenário sobre o futebol. Se Lionel Messi é um exemplo de jogador que por semanas pode render ao seu mais alto nível, sem contusões, especialistas alertam que isso só está sendo possível graças a verdadeiros coquetéis de remédios para reduzir a dor e permitir uma recuperação acelerada desses jogadores.

Um estudo realizado pela Fifa com as seleções que foram ao Mundial de 2010 mostrou que 71,7% de todos os jogadores na competição se medicaram naquele mês. 60,3%, 444 de 736 jogadores, ingeriram analgésicos ao menos uma vez durante a competição. Jogadores de seleções da América do Sul tomaram quase o dobro de medicamentos do que os jogadores de outros continentes.

Em 2010, a Fifa exigiu que seleções revelassem com 72 horas antes de uma partida os remédios que jogadores tomaram. O resultado foi considerado “alarmante” pela Fifa. Uma das seleções registrou que 21 dos 23 jogadores inscritos na competição haviam consumido analgésicos antes de uma partida.

Do total, 39% deles tomaram esse tipo de remédio contra dores antes de entrar em campo. Em 2006, na Copa na Alemanha, esse número era de 29%.

Parte do problema não está relacionada com as seleções, mas com o fato de um Mundial ocorrer ao final de uma temporada desgastante. Pelas recomendações da Fifa, um jogador deve atuar no máximo 60 vezes por ano. Mas, diante das obrigações e dos diversos campeonatos, os departamentos médicos de diversos times têm recorrido de uma forma cada vez mais sistemática aos potentes remédios. Em vez de ceder um período de descanso que permita o restabelecimento de músculos e tendões, a opção é por anti-inflamatórios para acelerar a recuperação.

“Num futebol que representa dinheiro a tanta gente, não contar com um jogador significa prejuízos”, declarou ao Estado um membro do Comitê Executivo da Fifa, que pediu para não ser identificado.

A pressão, segundo os estudos, não ocorre apenas sobre os jogadores, que temem perder jogos e o lugar no time. Médicos também estão pressionado pela direção de seus clubes a colocar os jogadores à disposição dos treinadores, sob o risco de serem substituídos por profissionais mais “eficientes”.

Na primeira divisão da Itália, outro estudo mostra que a prática é ainda mais generalizada que num Mundial. No Calcio, 93% dos jogadores atuaram com “infiltrações” durante a temporada. Mas o problema não se limita aos profissionais. A constatação é de que o abuso no uso dos remédios chegou às categorias de base, com adolescentes tentando se firmar nos times e provar que são resistentes graças a remédios para conter lesões ou reduzir a dor, mesmo que um problema exista. O problema, segundo a Fifa, é que isso pode ter sérias implicações para órgãos vitais como os rins, fígado ou intestino.

No Mundial Sub-17 no México, 17% dos jogadores entraram em campo sob efeito de remédios para reduzir a dor. No Mundial Sub-20, essa taxa já subiu para um quinto de todos os jogadores. Uma a cada três mulheres também atua sob os efeitos dos remédios.

Consciente do problema, a Fifa insiste que vai fazer uma campanha cada vez mais direta aos médicos de clubes e seleções para que reduzam o volume de remédio usado. Mas a resposta dos clubes é que cabe à Fifa reduzir amistosos de seleções e ampliar o espaço de férias entre as temporadas para justamente permitir que isso possa ocorrer.

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