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Ugo Giorgetti
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Renascimento

Começa o que realmente interessa: o Campeonato Brasileiro. Muito mais que os campeonatos regionais, mais que a Copa do Brasil, mais do que a Libertadores, o Brasileirão é o nosso torneio, jogado contra equipes que todos conhecemos, que sabemos onde ficam e quem são. Que falam nossa língua, com diferentes matizes, mas nossa. Aparentemente esse Brasileiro que começa não traz muitas novidades: os favoritos parecem praticamente os mesmos, do Sul e do Sudeste. Mas, se olharmos mais de perto, vamos verificar que pouco conhecemos dos times.

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2016 | 03h00

Contraditoriamente o êxodo e o assédio sempre existentes sobre os jogadores brasileiros obrigam os times a se renovarem. A perda obriga a renovação. Mesmo a qualquer preço, lançando mão de jogadores de países vizinhos, obrigando como nunca a que se fale ou se tente falar português em toda a comunidade futebolística da América Latina.

Vamos, portanto, começar esse Campeonato Brasileiro sem saber exatamente como jogam os times, mesmo os grandes, e quem são as prováveis revelações. A não ser as exceções, que sempre existem, o torcedor normal não consegue acompanhar mais a velocidade das negociações dentro de seu clube. Bastam alguns dias de folga para o time reaparecer diferente.

Isso não deixa de ser uma vantagem. O Brasileirão começa de forma particularmente interessante pelo menos em outro ponto: a presença do Recife e, mais do que isso, a presença do Santa Cruz, mais uma vez na Série A, de onde nunca deveria ter saído. Ultimamente, nos Brasileiros, brigavam o Sport e o Náutico. Quando um caía ficava o outro como representante do Recife.

Desta vez é diferente. Reapareceu o Santa, depois de longo e tenebroso inverno. E bota longo e tenebroso nisso. Amargou todas as penas do inferno, foi parar na Série D e, numa reação espetacular, ei-lo de volta ganhando sucessivamente as competições que disputa. Recentemente ganhou duas competições regionais que o credenciam para o Brasileirão que começa.

Estarei torcendo, como sempre, por Grafite e seus companheiros. Veremos como se haverá o Santa, ainda talvez um pouco tímido e meio sem jeito entre os grandes outra vez. O Sport, se reiterar a campanha do ano passado, já terá cumprido uma bela missão. Por rodadas e rodadas esteve sempre entre os primeiros lugares, alguns achavam que lutava pelo título ou Libertadores. Só pereceu pela exaustão de um elenco não tão numeroso.

Este ano tenho certeza que o Sport estará ainda melhor e Recife vai ver um clássico a que estava desacostumada: Sport x Santa, pela Série A do Brasileiro. Penso, aliás, que o momento de Sport e Santa, reflete e representa um momento da própria cidade do Recife. Na verdade, a cidade de João Cabral e Ariano atravessa em muitas áreas um período particularmente estimulante. No cinema, por exemplo, Recife é provavelmente a cidade onde se faz o mais vigoroso, criativo e autentico cinema brasileiro.

Portanto, é a ascensão da cidade como um todo que explica meu otimismo em relação às duas grandes equipes recifenses no brasileiro. Vou torcer por elas, confesso que mais pelo Santa, que incorpora em sua trajetória quantidades de tragédia e heroísmo de causar inveja a qualquer clube. E também porque me comove sua enlouquecida torcida. É necessário, de qualquer maneira, que essas equipes tradicionalíssimas, de uma região que era, por muitos, tratada com certo descaso, que não contava, se consolidem dentro dessa competição nacional. 

Pela sua enorme tradição cultural, pela sua presença singular na história brasileira, Pernambuco e o Recife têm que ocupar um lugar permanente. O Produto Nacional Bruto deveria incluir outras riquezas que não só as econômicas. Devia relacionar também as produções no campo da cultura e do lazer, por exemplo. E medir o que elas representam para a felicidade brasileira.

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