Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Renatinho Sabiá orgulha-se de ter sido 'convocado' por Felipão em 2002

Ex-auxiliar de roupeiro passou a ser reserva de luxo da seleção antes da Copa no Japão e na Coreia

Sílvio Barsetti - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2014 | 07h07

TERESÓPOLIS - Em 2001 e no primeiro semestre de 2002, às vésperas da Copa do Mundo no Japão e na Coreia do Sul, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho recebiam uma ajuda extra e silenciosa em vários treinos da seleção brasileira. O trabalho facilitado dos três craques dependia de Renatinho Sabiá, ex-jogador de uma equipe amadora de Teresópolis e então auxiliar dos roupeiros da CBF.

Muitas vezes, Sabiá - o apelido é por causa das pernas finas - foi 'convocado' pelo técnico Luiz Felipe Scolari para completar o time reserva nos coletivos contra os titulares. Como quase sempre havia um ou mais atletas contundidos ou com problemas físicos, Sabiá passou a ser uma figura frequente em campo.

Criou intimidade com todos daquele grupo e despertou o interesse de um empresário português, ávido em saber quem era aquele jogador que atuava no meio de tantos famosos e ao fim do treino recolhia os coletes e as bolas deixadas no gramado. "Ele me achava um exemplo por causa disso e prometeu me levar para Portugal."

Sabiá esperou meses por uma resposta, que não veio, e seguiu a vida em Teresópolis. Hoje, não tem mais vínculo com a entidade, vende salgadinhos por encomenda e goza de uma popularidade que nem mesmo alguns jogadores da atual seleção brasileira desfrutam na região serrana do Rio.

Daquele período, guarda camisas usadas por Ronaldo, Rogério Ceni e outros campeões do mundo, e não se esquece do conflito que viveu em inúmeras situações por causa do desencontro das orientações recebidas antes dos treinos, notadamente quando era escalado para a zaga.

Felipão pedia que jogasse "na sombra" dos atacantes, com ordem expressa para não encostar neles, e seus chefes diretos na CBF diziam que ele arcaria com a responsabilidade se machucasse algum atleta. "Eu já entrava em campo com as pernas bambas, com medo de perder o emprego."

A situação de Sabiá piorava quando ele atuava em dupla com Roque Júnior. O zagueiro, que encerrou a carreira em 2010, tentava convencê-lo a fazer o contrário, mas com o cuidado para que Felipão não o ouvisse. "Renatinho, é pra dar ‘pau’ neles. Entra pra rachar. Não tem essa de fazer sombra. Isso aqui vale a nossa vida."

Mesmo confuso, Sabiá teve discernimento para escolher o caminho que lhe rendeu 16 anos de trabalho na CBF. "O Roque Júnior ficava brabo, mas quando Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho partiam com a bola pra cima de mim, eu abria as pernas discretamente e deixava eles darem 'o drible do cano'. Eu corria depois atrás dos caras pra disfarçar e pro Roque Júnior não reclamar de novo."

Na vizinhança, após os treinos, Sabiá tinha de explicar o porquê da mudança na maneira de jogar. Pelos times amadores da cidade, sua fama era de desleal. "Eu era conhecido como carniceiro, só entrava de carrinho nas divididas e com a perna levantada, na maldade mesmo. Então, meus amigos queriam saber por que eu me comportava tão estranhamente quando vestia o colete da seleção."

A resposta era óbvia. "Uma vez perguntei ao Roque Junior se ele daria um bom emprego pra mim." Renatinho Sabiá não atuou pela seleção apenas como zagueiro. Anos antes, foi 'colega' de meio-campo de Zé Elias, sempre entre os reservas. Participou de rachões - os tradicionais treinos descontraídos de véspera de jogos - como goleiro, atacante, etc. Era chamado por Felipão também para 'amistosos' de confraternização entre o pessoal da comissão técnica.

"Eu posso me orgulhar de jamais ter cometido uma falta sequer quando jogava pela seleção. Por isso, o Ronaldo sempre me chamava de 'o grande' e todo mundo ali me respeitava." Havia até quem o confundisse com Rivaldo. "Uma vez, uma moça fez questão de posar para um foto comigo. Ela me viu treinando na Granja Comary e achou que eu era o Rivaldo. Eu disse a verdade, que eu não era o Rivaldo. Ela insistiu, queria a foto."

Sabiá também ofereceu seus serviços a equipes de base mantidas pela CBF - sub-15, sub-17 e sub-20 - e à seleção brasileira feminina. Fora de campo, trabalhou como auxiliar de roupeiro, copeiro, motorista, segurança e telefonista. Era um faz-tudo. Com o salário da entidade, conseguiu pagar a faculdade e hoje é bacharel em Ciências Contábeis.

Para os filhos Gabriel e Carolina, ele costuma lembrar de uma conversa reservada com Rogério Ceni, 13 anos atrás. "Ele me perguntou se eu gostava de estudar. Disse que sim e aí ele me deu uma camisa autografada."

Sua última participação como reserva de plantão na Granja Comary se deu em 2011, num treino de preparação da sub-20 para o Mundial na Colômbia. Jogou ao lado de Oscar, o número 11 do time de Felipão concentrado em Teresópolis desde segunda-feira. "Ele me deixou na cara do gol várias vezes, mas não tive sorte."

Depois dessa experiência, Sabiá 'pendurou as chuteiras'. Os alertas de sua chefia se intensificavam e ele passou a acusar falsas dores musculares para recusar os convites.

Em 2013, saiu da CBF e abriu seu negócio - a '8000 Hum' - com uma equipe liderada por sua mulher, Beatriz. Agora, passa as horas atendendo a pedidos de uma clientela que degusta bolinhos de feijoada e cuja lista inclui os irmãos Rafael e Fabio, atletas que se destacaram pelo Manchester United. "Eles me ajudaram a montar o negócio e provaram os salgados. Disseram que eu vou arrebentar."

A nova atividade não o afastou do futebol. Reúne-se três vezes por semana com amigos para jogos sem compromisso pela cidade. Aos 40 anos, Sabiá mantém a forma e não abre mão de seu estilo. Dia desses, ele conta, deixou um adversário no hospital. "Futebol é um jogo viril." 

Desde que deu uma forcinha para a seleção ganhar o título mundial na Ásia, em 2002, nunca mais esteve com Roque Júnior, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Sabiá considera "fantasiosa" a hipótese de um dia os cinco voltarem a jogar juntos. Ele se daria por satisfeito se os ex-colegas o vissem em ação num dos campinhos de Teresópolis. "O Roque não ia entender nada."

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