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Rendição

O que fazer quando um time que não o seu vira a grande sensação do campeonato?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 04h00

Seu time, forte, de jogo sério, ia bem, embora na sua opinião jogasse feio. Mas ia, assim mesmo. No entanto, começou pouco a pouco a ouvir referências sobre outro time, também muito conhecido, vamos chamá-lo de X, que estava ganhando e jogando bonito. Não deu muita importância ao que falavam. Já tinha visto muito no futebol para acreditar em tudo. Mas foi se sentindo cada vez mais cercado de informações sobre o time X, vindas agora de muitos lugares. Enquanto isso seu time ia se aguentando, digamos assim.

As novidades do time X o irritavam mais e mais. Analisava os jogadores que conhecia de outros carnavais e todos lhe pareciam muito pouco consistentes. Rapidamente, pensou, essa aura de celebridade ia desabar. Mas não desabou e não tinha outro jeito a não ser ver os gols marcados pela nova sensação do futebol, que eram repetidos à exaustão, noite após noite, nos programas esportivos.

Foi apresentado definitivamente ao time X quando não resistiu e assistiu um jogo que o interessava particularmente. Uma derrota do time X faria seu time progredir na tabela. Por isso assistiu ao jogo, torcendo pela outra equipe. O time X, antes de terminar o primeiro tempo, destroçou qualquer esperança que ainda pudesse ter. A contragosto, velho acompanhante do futebol, assistiu uma ou duas jogadas que o fizeram pensar um pouco. Nada demais, afinal ainda se preocupava só com sua equipe. Um dia o tal time X teria de enfrentar sua equipe. 

Esse dia chegou e o time X destruiu sua equipe. A derrota despertou nele um curioso sentimento. Não de admiração pela equipe X, mas de ódio pela sua própria equipe. Tudo o que vinha notando, e calando, apareceu a ele e a quem quisesse ver. Todos os defeitos já entrevistos, a lentidão, prostração física, a burocracia como modelo, o tédio, surgiram finalmente de maneira súbita e catastrófica.

O time X fez apenas sua parte, pensou ele como consolo, talvez nada mais do que isso. Ficou-lhe, porém, na cabeça, um dos gols, o mais artístico de todos, fruto de uma jogada que ele já tinha visto, é verdade que em tempos não tão recentes.

Por dias ainda ficou se perguntando se realmente aquilo fora obra do talento do ataque ou de falha da defesa. Evitou chegar a qualquer conclusão. E seu time continuou se arrastando, nem muito bem, nem muito mal, pelo campeonato, igual, aliás, a quase todos os outros times. 

Menos o time X, do qual não se podia mais livrar. Estava por toda parte, ocupava todos os aparelhos de TV de todas as padarias, e seu café rotineiro tornou-se um tormento. Mas não pôde deixar de observar, entre um gol e outro, que, sim, havia jogo naquela equipe. E pior, via sorrisos nos rostos de várias pessoas na padaria, indecisos entre o café esfriando e o aparelho de TV.

Torcedor é torcedor, porém, e terminou por se concentrar no seu time, no qual já não acreditava muito. Limitou-se a lembrar vitórias passadas e gloriosas, exatamente sobre o time X, e isso o confortava. Uma noite, a TV transmitia um jogo de seu time e, em outro canal, um jogo do time X. Valentemente acompanhou seu time, na sua monotonia habitual. Vitória pobre e apertada contra um outro time pobre e mediano. E a bolinha anunciando gols em outros jogos não parava de aparecer. Eram quase todos do time X. 

Viu todos os gols com fingida indiferença. A noitada melancólica terminou e ele foi dormir. Não pôde. Num ímpeto inexplicável, deu por si voltando para a sala e procurando o que queria encontrar. Lá estava o teipe da partida do time X. Ficou vendo até duas da manhã sem pensar no que seria pegar no trabalho no dia seguinte cedo. Mas rendeu-se. Num movimento libertador, viu o teipe até o fim e fruiu cada uma das jogadas que não via há muito tempo. Antes de fechar os olhos exaustos, ainda teve tempo de pensar que tinha acabado de ver o time campeão. E não era o seu.

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