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Ugo Giorgetti
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Renovação no banco

Clubes brasileiros que vão à Libertadores de 2018 curiosamente têm técnicos 'da nova geração' - salvo uma exceção

O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2017 | 03h00

Eu também pouco a pouco vou me rendendo a uma realidade: a imensa presença da Libertadores na vida esportiva do País. Sempre detestei esse torneio, mas não posso seguir negando sua importância. Dito isso, com inevitável melancolia, passei os olhos pelas equipes que vão compor o pelotão brasileiro da próxima competição e o que mais me chamou a atenção foi a composição dos técnicos.

À solitária exceção de Mano Menezes, e considerando que, como treinador, Renato Portaluppi não deixa ainda de ser quase uma novidade, uma inteira geração ficou para trás, afastada, portanto, de um torneio, talvez o mais importante para a visibilidade do trabalho de um treinador.

Nenhum dos velhos conhecidos, das velhas e lendárias reputações, aparece nas equipes brasileiras. Palmeiras, Corinthians, Vasco e possivelmente Santos vão entrar em campo com treinadores que são pouquíssimo mais velhos que os jogadores, alguns pode ser que mais jovens. O Flamengo, é verdade, dá a impressão que entra com treinador conhecido, mas fora do Brasil, e aliás, me parece, com um pé, senão os dois, já fora da Gávea.

Se Rueda sair mesmo, o Flamengo poderá ser outro a inovar nessa função em que nos habituamos até pouco tempo atrás ver as mesmas caras que apenas trocavam de lugar entre si como num verdadeiro jogo de cadeiras.

Não tenho certeza se isso é bom ou não, me parece simplesmente obedecer à ordem natural das coisas, uma troca de guarda que se impõe na vida e até no futebol. É curioso como nesse esporte as mesmas figuras perduram no meio por décadas e décadas. Dão impressão mesmo de que já teriam morrido quando, de repente, ressurgem, poderosos, imponentes, com namorada e tudo. É incrível. Por isso, tendo a simpatizar com essa renovação. Pelo menos em alguma coisa há novidades. É difícil prever o futuro desse novo contingente, até porque não há como julgá-los com justiça, apenas temos sobre eles vagas impressões e informações às vezes imprecisas.

Mas conhecemos perfeitamente os clubes onde trabalham ou onde foram dar com os costados. Esses são nossos arquiconhecidos e podemos prever dias não inteiramente calmos para a maioria desses treinadores jovens.

Isso me lembra uma história de outros tempos, bastante elucidativa. Num dos nossos grandes e tumultuados clubes, havia um porteiro que trabalhou na portaria de entrada do clube por longos anos. Essa experiência lhe fornecia fantásticas intuições para, analisando apenas a entrada do novo treinador portaria adentro pela primeira vez, profetizar seu tempo de duração no clube. Olhava rapidamente sua expressão de rosto, o modo como andava, a maneira como olhava e dava seu veredicto: dois meses para alguns, seis para outros, poucas vezes ia acima de uma ano, quase nunca chegava aos dois. Raramente errava. É claro que muitos desses treinadores que aparecem agora parecem mais preparados e sabem perfeitamente o que lhes pode acontecer. Zé Ricardo e Roger Machado, entre outros, já tiveram seu batismo na profissão. E Zé Ricardo já pôde sentir a incrível montanha russa que leva num instante do fracasso ao sucesso. Experimentou os dois num espaço de poucos meses. Como Gilson Kleina, técnico da Chapecoense, não exatamente um jovem, mas ele também lutando para fixar-se entre os treinadores de ponta. Kleina atravessou 2017 de maneira singular. Primeiro levou a Ponte às finais do Paulista, fazendo-a vice campeã. No Brasileirão, no entanto, depois de alguns maus resultados, alguém teve a infeliz e injusta ideia de demiti-lo. Contratado pela Chapecoense, levou-a à Libertadores. A Ponte que o demitira caiu para a Série B.

Felicidades e bom ano a todos os treinadores.

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