Ruben Sprich/Reuters
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Renúncia de Blatter coloca em xeque Copas de 2018 e 2022

Catar garante que não tem 'nada a temer' e descarta perder Mundial

Jamil Chade, correspondente em Zurique, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2015 | 06h32

A renúncia de Joseph Blatter na Fifa promete abrir uma verdadeira guerra pelo poder no futebol e vai jogar toda a estrutura do esporte em um clima de incerteza, inclusive sobre as sedes das próximas Copas do Mundo. 

O futuro dos Mundiais estaria no centro da agenda da Uefa, no fim de semana, numa reunião que poderia começar a desenhar a nova Fifa. Porém, a reunião foi cancelada pelo fato de a entidade considerar o debate ainda 'prematuro'. Fora da entidade desde que João Havelange assumiu o poder em 1974, os europeus estão comprometidos a recuperar a direção do futebol mundial. Blatter, apesar de suíço, jamais foi considerado como um europeu. A medida fez crescer ainda mais os rumores de que Blatter pode ser um dos candidatos. 

O cartola era um dos maiores defensores do Mundial da Rússia em 2018 e chegou a comprar a versão de que a campanha contra ele era uma forma de o Ocidente derrubar a Copa promovida pelo Kremlin. Vladimir Putin passou a ser um de seus aliados, denunciando os EUA. 

Agora, sem Blatter, a pressão por uma investigação sobre a compra de votos da Rússia deve aumentar. O Ministério Público da Suíça já apura o caso e deve interrogar cerca de dez cartolas nas próximas semanas. 

Não por acaso, a única patrocinadora da Fifa que não emitiu um comunicado comemorando a renúncia foi o Gazprom, de Moscou. 

Quem também demonstrou preocupação na terça-feira foi a delegação do Catar que, nesta semana, está justamente em Zurique para tentar entender o que está ocorrendo na Fifa. Ao ver a eleição de Blatter na semana passada, até mesmo a Bolsa de Valores do Catar comemorou. Nesta terça, o clima era de tensão. 

Não apenas Blatter caiu, mas praticamente todos os eleitores do país foram expulsos, estão presos ou morreram. Ricardo Teixeira, Julio Grondona, Nicolaz Leoz, Rafael Salgueiro, Mohamed Bin Hammam e Franz Beckenbauer são apenas alguns dos eleitores do Catar hoje fora de cena. 

Jornais ingleses ainda revelaram na manhã desta quarta que dirigentes esportivos do Catar estão sendo orientados a não viajar aos EUA, sob o risco de serem interrogados ou mesmo presos. Apenas aqueles com imunidade diplomática estão circulando. 

O governo do Catar e cartolas da região rapidamente reagiram nesta quarta, alegando que não existe motivo para se preocupar. Para o presidente da Federação do Catar, Hamad Bin Khalifa bin Ahmed Al Thani, não existe risco de o país perder a Copa. “Já fomos inocentados”, disse, em relação à investigação interna realizada pela Fifa. 

Mas a pressão passou a ser intensa e tanto o FBI como o Ministério Público da Suíça passaram a investigar o caso. Greg Gyke, presidente da Federação Inglesa, deixou claro que ele “não estaria muito confortável” se fosse hoje um dirigente do Catar. O comentário foi duramente respondido por Doha. “Deixem o processo correr”, disse.

A esperança dos árabes é de que alguns dos opositores à Blatter também votaram pelo Catar, entre eles Michel Platini, presidente da Uefa. 

ELEIÇÃO

A Europa já se posiciona para concorrer à presidência da Fifa. Mas deve enfrentar uma séria oposição dos ex-aliados de Blatter que querem evitar uma concentração de poder nas mãos dos europeus.

Na terça mesmo, nomes passaram a ser buscados, enquanto cartolas disparavam telefonemas para novas alianças. O sucessor de Blatter era Jeff Webb, hoje preso por corrupção. 

Por enquanto, o único candidato declarado é Ali bin Hussein, que perdeu a eleição na semana passada, mesmo apoiado pela Uefa. Mas Michel Platini poderia voltar ao pleito. Ele havia indicado que não concorreria à presidência da Fifa enquanto Blatter fosse candidato. Agora, o cenário muda de forma radical.  

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