Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

REPORTAGEM ESPECIAL - Campeonatos Estaduais mostram decadência

Nível técnico e público das competições de norte a sul são cada vez piores

Ciro Campos, Raphael Ramos e Leonardo Maia, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Do jeito que estão, os Estaduais não podem continuar. Essa é a conclusão de boa parte dos dirigentes do País. Ninguém é a favor do fim desses torneios, mas todos pedem mudanças drásticas nos campeonatos de norte a sul. Hoje, eles estão tão desinteressantes que não faltam exemplos absurdos: apenas 770 pessoas foram assistir ao jogo do Vasco contra o Nova Iguaçu, o Atlético-PR mandou um time B a campo e foi excursionar no Exterior, e o Grêmio escalou os juniores enquanto treinava para a Libertadores.

Mesmo decadente tecnicamente, muitos Estaduais são rentáveis. A Federação Paulista, por exemplo, paga R$ 10 milhões para cada um dos quatro grandes clubes do Estado. É esse poder financeiro, inclusive, que diminui a força dos clubes na hora de cobrar mudanças no formato.

"Se todo mundo sonha com uma liga dos clubes, adiem. Não há ambiente político para isso. Mas é possível conversar a curto prazo", afirmou o diretor executivo do Palmeiras, José Carlos Brunoro, durante seminário para discutir o calendário no futebol brasileiro, realizado no início da semana em São Paulo.

Brunoro é contra o fim do Paulistão. Para ele, em um primeiro momento, uma mudança no formato de disputa da competição seria o suficiente para revigorá-la. "A fórmula tem de ser modificada. O nível é ruim", justifica.

O zagueiro Paulo André, do Corinthians, que também participou do fórum de debates, chegou a defender que os clubes grandes não deveriam jogar os Estaduais. "Acho que tem de continuar fomentando o esporte e a profissionalização. Eu, por exemplo, joguei a Sexta Divisão (pelo Taboão da Serra) e se ela não existisse talvez eu não estivesse hoje no Corinthians, mas acho que os Estaduais não deveriam ter os clubes das Séries A, B e talvez até da C", afirmou.

O vice-presidente de futebol do Flamengo, Wallim Vasconcellos, pretende conversar com os outros três clubes grandes do Rio (Botafogo, Fluminense e Vasco) para apresentar uma proposta à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) de mudança do Estadual. Segundo o dirigente, o modelo atual com 16 times e dois turnos (Taça Guanabara e Taça Rio) é inviável e em 2014 o Rubro-Negro cogita inclusive jogar com um time de juniores nas primeiras rodadas.

"Certamente vamos fazer pré-temporada fora do País. Talvez seja preciso colocar uma equipe de juniores para começar o Campeonato Carioca se não houver uma mudança de datas, o que eu não posso é prejudicar meu clube", afirmou. De acordo com Vasconcellos, o clube recebeu propostas de equipes dos Estados Unidos e da Europa.

A ideia do dirigente rubro-negro é que a federação crie uma espécie de pré-Estadual, em janeiro e fevereiro, com as equipes menores. "Em março e abril, os melhores dessa fase classificatória se juntariam aos grandes".

Para Sandro Lima, vice-presidente de futebol do Fluminense, a mudança do Carioca passa necessariamente pela redução no número de participantes. "Precisamos tirar de dois a quatro clubes", analisa.

REVELAÇÕES

Outro aspecto em defesa da manutenção dos Estaduais, porém com mudanças, é a possibilidade do surgimento de craques nos clubes pequenos. "Os estaduais são fonte de trabalho para muitos jogadores e os clubes pequenos, um celeiro de atletas para os grandes. Eu vou buscar jogadores no interior de São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul...", conta Sidnei Loureiro, gerente de futebol do Botafogo.

O Alvinegro tem alguns casos recentes que exemplificam a sua tese. Em 2011, o lateral-esquerdo Cortez passou pelo modesto Quissamã, destacou-se no Nova Iguaçu e foi contratado pelo Botafogo. No ano seguinte, foi vendido para o São Paulo e os botafoguenses lucraram R$ 5 milhões com o negócio.

Mesmo assim, para Loureiro há excesso de clubes pequenos no Brasil. "Tem muita gente que funda clube porque acha que futebol é fácil e dá dinheiro. Tem cabimento uma cidade como Campos (no Norte Fluminense) ter três times (Americano, Goytacaz e Rio Branco)? Não há torcida para isso."

Mais do que tirar equipes inexpressivas da Primeira Divisão dos Estaduais, os dirigentes pedem mudanças no calendário do futebol brasileiro. Uma das principais queixas é com o fato de os campeonatos não pararem nas datas Fifa. Neymar, por exemplo, ficou 81 dias a serviço da seleção brasileira no ano passado. O Santos chegou a encomendar um estudo de mudança no calendário para apresentar à CBF.

A proposta foi feita por Amir Somoggi, consultor de marketing e gestão esportiva. Sua ideia é que a temporada brasileira acompanhe o modelo europeu e passe de janeiro a dezembro para agosto de um ano a maio do ano seguinte. Os Estaduais seriam reduzidos para apenas oito datas e o Campeonato Brasileiro se estenderia por toda a temporada.

"Quando você reduz o número de jogos, você valoriza a competição. Na NFL (liga de futebol americano), cada clube disputa apenas 16 partidas na temporada regular, sendo oito em casa e oito fora", defende.

O modelo seria implantado após a Copa do Mundo de 2014. "Com o fortalecimento do mercado interno, cada vez mais atletas de seleção são dos clubes brasileiros. Então, é preciso respeitar a data Fifa", diz Somoggi.

Ciente de que vai perder vários jogadores para o amistoso da seleção contra a Bolívia no próximo sábado (somente atletas que atuam no Brasil serão convocados), o técnico Tite, do Corinthians, é outro que bate forte no calendário. "Seleção não atrapalha, muito pelo contrário, é um orgulho para qualquer um defender o seu país. O que atrapalha é o calendário."

O treinador campeão do mundo pede mais folgas durante o Estadual. "É preciso ter datas para remanejar os jogos de equipes que terão uma partida decisiva pela frente. Nesse ano, temos três equipes que estão na Libertadores (Corinthians, Palmeiras e São Paulo) e estão sendo sacrificadas", criticou.

O resultado disso está na complicada agenda dos clubes paulistas. Cinco clássicos do Estadual de 2013 foram ofuscados ou por antecederem ou por sucederem confrontos dos times pela Libertadores, competição tratada como prioridade.

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