Hélvio Romero/Estadão
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Mauro Cezar Pereira
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República corintiana falhou e a seleção precisa mudar

Tite perdeu a chance de manter tamanho poder quando deu as cartas

Mauro Cezar Pereira*, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 04h00

Em 20 de junho de 2016, quando acertou o contrato de Tite com a CBF, Gilmar Veloz encerrou as conversas com a entidade após fechar um dos mais tranquilos contratos de sua carreira. O agente do treinador tinha a faca e o queijo nas mãos. Seu cliente era a opção única em meio à crise da seleção brasileira, então fora da zona de classificação para a Copa do Mundo nas Eliminatórias.

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Além do ótimo acordo, Tite tinha poder incomensurável. Escolheu seu próprio chefe, Edu Gaspar, com que trabalhava no Corinthians. O ex-meia virou coordenador técnico e logo a dupla formou uma “República Corintiana” na seleção. Dos 64 profissionais que integravam a delegação do Brasil na Rússia, 17 (26%) trabalharam ou trabalham no campeão brasileiro. Até o filho do treinador integrou a equipe.

Mas a receita corintiana não funcionou. Fagner e Renato Augusto foram convocados com lesões, Fred se machucou nos treinamentos, mas não foi cortado; Gabriel Jesus passou o torneio sem fazer gol e não perdeu a posição... Erros. Em campo, o Brasil ofereceu chances ao México, mas faltou qualidade ao adversário. Bela oportunidade foi desperdiçada pelos astecas um minuto antes de Neymar abrir o placar.

A boa defesa de Tite não era a fortaleza imaginada, como a frágil artilharia dos rivais de até então fizera parecer. Com mais poder de fogo e jogadores de primeiríssimo nível, a Bélgica soube utilizar os espaços que os mexicanos não exploraram. E no embate com o espanhol Roberto Martínez, o treinador da seleção belga levou a melhor sobre o brasileiro. Há muitas lições a serem retiradas da aventura russa.

O projeto Copa 2018 fracassou. Não significa que nada preste e tudo tenha de ser jogado abaixo. Tite sai enfraquecido e com a chance de, mais uma vez, se reciclar. Para entender, entre outras coisas, que os métodos vitoriosos no clube e campeonatos de 38 rodadas nem sempre funcionarão numa Copa, certame rápido que concentra até sete jogos em 30 dias.

 

Cabe a Rogério Caboclo, presidente eleito da CBF assumir as rédeas depois que a terceirização da seleção à equipe oriunda do Corinthians fracassou. Com falhas graves, escancaradas pela entrevista de Edu Gaspar após a eliminação, tratando a estrela do time com paternalismo e praticamente admitindo incapacidade de cobrar Neymar. Algo bizarro num ambiente competitivo.

Quem é o profissional capaz de colocar em prática uma filosofia realmente profissional? Essa é a resposta que o novo comandante da entidade precisa encontrar. Ou ele ainda crê em Gaspar? Se quiser prosseguir, Tite deve trabalhar com profissionais selecionados por critérios outros, não apenas amizade e/ou confiança pessoal. Não que os seus escolhidos sejam incapazes, pelo contrário. Mas não deu certo.

O técnico deve continuar. Por ser o melhor do país, por sair do Mundial mais calejado, por já ter demonstrado que é capaz de aprender com as derrotas, por merecer um ciclo inteiro de Copa, não apenas dois anos. Ele pegou o bonde no caminho e teve que corrigir erros de Dunga. Com mais tempo, deve fazer melhor. Mas sem o baralho nas mãos. Tite perdeu a chance de manter tamanho poder quando deu as cartas.

 

*COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E COMENTARISTA DA ESPN

 

 

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