Alexandre Vidal|Flamengo
Pedro marca gol em jogo transmitido apenas pela FlaTV Alexandre Vidal|Flamengo

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Rescisão da Globo com times do Rio coloca transmissões em xeque no País

Emissora alega quebra de exclusividade após Fla passar jogo na internet; especialistas apontam cenário incerto aos clubes no futuro

Raphael Ramos e Ricardo Magatti , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Pedro marca gol em jogo transmitido apenas pela FlaTV Alexandre Vidal|Flamengo

A Rede Globo anunciou nesta quinta-feira que rescindiu o contrato de transmissão do Campeonato Carioca. A emissora do Rio alegou quebra da exclusividade prevista no contrato após o Flamengo transmitir pela internet partida contra o Boavista na noite de quarta-feira. 

Especialistas em direito e marketing esportivo ouvidos pelo Estadão analisam que as decisões tomadas por Globo e Flamengo e a Medida Provisória 984 publicada pelo presidente Jair Bolsonaro reforçam que o atual modelo de negociação de transmissão de jogos de futebol no Brasil está ameaçado e o cenário é incerto para o futuro.

A MP dá aos clubes a prerrogativa de vender os direitos de transmissão dos seus jogos quando forem os mandantes independentemente de qualquer negociação com o adversário. Até a edição da medida provisória, era preciso ter a anuência do visitante para televisionamento das partidas. Foi com base na MP, inclusive, que o Flamengo transmitiu o seu jogo do Campeonato Carioca na FlaTV e chegou a ter mais de 2,2 milhões de acessos simultâneos.

A resposta da Globo veio com a rescisão do contrato de transmissão de todo o campeonato. A emissora anunciou que vai manter os pagamentos previstos para este ano, mas a partir de 2021 não o fará mais.

Estima-se que a Globo pague cerca de R$ 100 milhões para transmitir os jogos do Carioca, sendo R$ 18 milhões para cada um dos grandes clubes do Rio. Uma menor parte fica com a federação e os demais times, que perdem boa parte de suas receitas sem os direitos de TV.

“Entramos num jogo de xadrez e a Globo movimentou peças interessantes. Os reflexos já são sentidos, pois muitos financiadores do futebol que trabalham amparados em adiantamentos de receitas com TV sumiram. O mercado está parado porque falta entendimento se haverá receitas da Globo no futuro”, disse Cesar Grafietti, economista e consultor do Itaú de finanças e gestão no esporte.

Em 2011, o mercado brasileiro de transmissões esportivas viveu situação semelhante, quando o Clube dos 13, que tratava dos direitos de TV em bloco, foi “implodido” após o Corinthians decidir negociar individualmente os seus jogos.

“A gente está numa espécie de limbo porque não há a menor perspectiva de resolver esse impasse. No fim das contas quem sai perdendo é o torcedor. Meu receio com isso tudo é que a negociação de forma individualizada tem uma tendência de causar um desequilíbrio na competição”, analisa João Marcos Guimarães, advogado especialista em direito desportivo.

APELO PRESIDENCIAL 

Nesta semana, dirigentes de oito clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tiveram reunião com o presidente Bolsonaro, em Brasília, e pediram o apoio ao projeto de Lei 3.832, que altera a Lei da TV Paga para que empresas de telecomunicações possam atuar na produção de conteúdo esportivo. Esse grupo de clubes vendeu os direitos de transmissão da TV fechada para a Turner, empresa pertencente ao conglomerado AT&T, dos Estados Unidos, e teme que os contratos sejam rompidos. 

Professor de marketing esportivo da ESPM, Ivan Martinho acredita que os clubes brasileiros terão dificuldades para se adaptar a um novo mercado. “Discordo da ideia de que a emissora é vilã e os clubes são mocinhos. A ideia de ter uma liberdade maior para negociar com vários potenciais interessados, ou então criar seu próprio produto para transmitir seus jogos, é teoricamente bonita, mas, por outro lado, os clubes vão ter um grande desafio de passar a cuidar de uma área que eles nunca cuidaram até então, se eles tiverem de criar seu próprio produto. Construir audiência é algo muito difícil”, disse.

ANÁLISE: Bruno Maia

'Mercado não está preparado para assumir as consequências'

A Globo fez um movimento de resposta, em nome da sua interpretação dos fatos. Não vejo que essas decisões sejam positivas ao esporte, mas cada um dos lados está tentando deixar claro seu tamanho na briga.

Já existem novos agentes no mercado de transmissão mesmo antes da edição da MP. O Facebook já transmite a Liga dos Campeões e a Libertadores. A DAZN tem o direito de torneios internacionais. Isso já tenderia a acontecer. 

Mas a forma como tudo está ocorrendo é negativa para o futebol. É evidente que, às vezes, é preciso ter movimentos que chacoalhem as estruturas, mas as coisas têm consequências e não podemos esquecer dos processos legais do País. O mercado não está preparado para assumir as consequências e pode haver uma precipitação que coloque em xeque esse novo modelo. Podemos ter uma “ressaca” daqui a dois anos em relação ao que está se desenhando agora. 

*ESPECIALISTA EM INOVAÇÃO E NOVOS NEGÓCIOS NA INDÚSTRIA DO ESPORTE, SÓCIO DA 14, AGÊNCIA DE CONTEÚDO ESTRATÉGICO E EX-VICE-PRESIDENTE DE MARKETING DO VASCO

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Ao contrário do Brasil, negociação das transmissões esportivas na Europa é coletiva

Critérios estabelecidos pelas maiores ligas do continente tornam mais equilibrada a distribuição do dinheiro dos pacotes

Raphael Ramos e Ricardo Magatti, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 05h00

Nas principais ligas da Europa as negociações de direitos de transmissão são coletivas, assim como a distribuição do dinheiro arrecadado. O campeonato de maior sucesso é o Inglês, com arrecadações bilionárias e audiência global.

A Premier League centraliza, organiza e comercializa os pacotes de transmissão de todo o campeonato. O dinheiro é repartido entre clubes de maneira a não provocar grande desequilíbrio na disputa. Metade das receitas é dividida igualmente para todos os clubes da Primeira Divisão; 25% varia conforme a posição da equipe na tabela de classificação e o restante é distribuído de acordo com o número de partidas transmitidas pela televisão.

Essa regra vale para as transmissões internas. Com relação ao mercado exterior, o dinheiro da TV é dividido igualmente para todos os clubes que disputam o torneio.

O modelo inglês, que começou a ser implantado ainda na década de 1990, virou exemplo para outros campeonatos do continente, que seguem o mesmo formato, apenas com pequenas variações. Na Espanha, por exemplo, a diferença está nos 25% referentes à presença do público nos estádios e audiência televisiva gerada. As regras foram feitas para tentar minimizar o domínio da dupla Real Madrid e Barcelona e não “estrangular” financeiramente as demais equipes do país.

A mesma coisa ocorre na Itália. A diferença é que no Campeonato Italiano o porcentual dos fatores de torcida e audiência é menor, de 20%. Essa mesma lógica, no entanto, não funciona em Portugal, onde a negociação dos direitos de transmissão se assemelha ao Brasil e é feita individualmente. O Benfica, por exemplo, criou o seu próprio canal de televisão, onde transmite todos os seus jogos como mandante. A estratégia foi seguida pelo Porto, outro grande clube do país. Assim, as duas equipes dominam as transmissões esportivas e arrecadam bem mais do que os seus adversários no campeonato nacional, que não possuem o mesmo potencial para atrair parceiros.

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