Hélvio Romero/Estadão
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Respeitem o futebol

É apenas um clamor por times que entrem na cancha para jogar, fazer seu melhor

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2019 | 04h30

Dois dos principais clubes do País, donos de torcidas que figuram entre as cinco maiores do Brasil. Um é o atual campeão brasileiro, outro já foi três vezes vencedor da Libertadores e do título mundial. Quando São Paulo e Palmeiras se enfrentam, muita tradição entra em campo. Mas a história parece perder a importância nestes tempos de negação ao futebol.

Sábado os velhos rivais entraram no Pacaembu para não perder. Não havia desejo de vitória, algo nítido já nos primeiros 45 minutos. Tricolores davam a bola para os palmeirenses que, com seu elenco caro e técnico, mais uma vez mostraram pobreza de jogo coletivo tendo de manejá-la por muito tempo. Em crise, os são-paulinos não eram melhores, longe disso.

Antes do intervalo o São Paulo cruzou muitas vezes e até finalizou, embora não tenha levado perigo. O Palmeiras, por sua vez, teve a posse da pelota por 60% do tempo na primeira metade da peleja, mas arrematou uma única vez. Mesmo assim sem a direção da meta adversária. E o time de verde não parecia sequer incomodado com isso.

Inaceitável a desfaçatez de quem adentra o gramado e não busca fazer seu melhor. “O time está desinteressado”, dizem alguns. “Com esses jogadores não dá para fazer mais”, minimizam outros. Passadores de pano à parte, nada disso pode ser entendido como justificativa para tamanha falta de qualidade voluntária.

Qual profissional, seja lá de que área for, tem direito de não dar o máximo? De alegar pouco interesse para se defender do mau desempenho e pouco empenho? Imagine você trabalhando assim. Alguém dirá ao chefe para ser compreensivo? Surgirão defensores para sua acomodação, alegando que deseja apenas manter o emprego?

Técnicos de futebol que arquitetam equipes covardes, sem compromisso com a vitória mesmo quando há bom material humano, contam com advogados de defesa informais, sempre prontos a encontrar uma explicação para a pobreza futebolística dos times que põem em campo. Fruto do corporativismo da mediocridade.

Nesse círculo vicioso, o futebol sofre, apanha. Sábado ele foi castigado com 130 passes longos, aqueles lançamentos/chutões que atravessam a linha central do gramado a todo instante em cotejos de tão baixo nível. Mas o pior de tudo é ver tanta gente se acostumando com tão pouco, tolerando tamanha penúria no trato da pelota.

Vagner Mancini assumiu interinamente o São Paulo um mês e dois dias antes do clássico. Em cinco partidas venceu uma, empatou duas e perdeu outro par de vezes. O time reduziu o número de passes trocados, ampliou a quantidade de lançamentos (a chamada ligação direta) e segue patinando sem sair do lugar.

Luiz Felipe Scolari ganhou o Campeonato Brasileiro em 2018, foi presenteado com mais reforços de qualidade e põe em campo um time de “camarões”, como ele mesmo diz. Mas poderia fazer algo bem próximo, mesmo sem eles, com sua filosofia de jogo conhecida, que não se sustenta há tempos nos grandes centros do futebol.

Resultadistas dirão que ainda assim o time ergueu o troféu da Série A no ano passado, ignorando o nível fraco do futebol local e sem lembrar as eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores. Poucos parecem preocupados em ver treinadores extraindo de seus elencos tudo, ou mais, do que podem oferecer. E o que se vê? Jogos vergonhosos como o de sábado.

Você não está lendo uma tese em defesa do chamado “jogo bonito”, subjetivo e não necessariamente competitivo. É apenas um clamor por times que entrem na cancha para jogar, fazer seu melhor, não recusar a bola, buscar o gol. Times que respeitem o futebol.

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