Ricardo Teixeira com o pé fora da CBF

O ciclo de Ricardo Teixeira na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) parece próximo de um fim melancólico e sorvido em suspeitas. Três lesões coronarianas e quatro mandatos seguidos deixaram o dirigente sob intenso desgaste. O problema de saúde culminou com uma angioplastia e seu afastamento do cargo por um período mínimo de seis meses, já em curso. A péssima administração da CBF, sua omissão em assuntos relacionados ao futebol e denúncias de que cometeu crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, entre outros, podem levá-lo, se confirmadas, à privação da liberdade.Teixeira chegou ao comando da CBF em 1989 nos braços do então genro, João Havelange, que, na época, presidia a Fifa e desfrutava, portanto, do status de referência mundial do esporte. Fez acordos com os eleitores - as federações estaduais de futebol -, distribuiu benefícios, assumiu compromissos políticos, financiou campanhas, compôs a diretoria da CBF com amigos fiéis. Não esqueceu quase nada, a não ser assistir a jogos de futebol. Este ano, por exemplo, não foi visto em nenhuma partida do Campeonato Brasileiro.O estilo agressivo e elitista de Teixeira, pouco afeito a entrevistas e esclarecimentos, acirrou-se depois de se ver envolvido na confusa história do vôo das muambas - o avião que trouxe de volta os campeões do mundo de 1994 desembarcou no Brasil com excesso de bagagem não-declarada à Receita Federal. Ao longo dos anos 90, acumulou desavenças com outros dirigentes esportivos, como Eurico Miranda e Eduardo Farah, e teve atritos sérios com Pelé. O foco central de algumas dessas crises era movido por interesses comerciais, relacionados a contratos da CBF para gerir a marca "futebol".A partir do contrato milionário com a Nike (US$ 160 milhões, por 10 anos), a CBF passou a dar prejuízo, de acordo com dados levantados pela CPI da CBF/Nike da Câmara dos Deputados. A forte presença da empresa de marketing esportivo nos negócios da seleção brasileira expôs uma nova realidade: a equipe obrigava-se, por exemplo, a disputar uma cota anual de amistosos programados pelo patrocinador. O atrelamento e a falta de transparência no contrato motivaram o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) a iniciar uma campanha pela instauração de uma CPI no Congresso.A reação de Teixeira foi rápida. Ele passou a manter contatos mais estreitos com outros deputados - a bancada da bola - e até enviou ao Distrito Federal o então técnico da seleção, Vanderlei Luxemburgo, com a intenção de fortalecer o lobby anti-CPI. Isso aconteceu pouco depois de o dirigente sofrer forte pressão do ex-senador José Roberto Arruda para manter o Gama, de Brasília, na Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. Como não interveio a favor do clube brasiliense, Teixeira passou a ser alvo de críticas severas de Arruda e seus correligionários.Sob investigação - Estava cada vez mais difícil para Teixeira manter os negócios da CBF sob sigilo. Em meio a sucessivos vexames do time de futebol nas eliminatórias do Mundial de 2002 e a várias acusações contra Luxemburgo, durante a Olimpíada de 2000 - a de que, por exemplo, recebia participação pela venda de jogadores convocados para a seleção, o que nunca foi provado, a impopularidade de Teixeira crescia. O clamor para que a CBF e seus dirigentes fossem investigados tornou-se insustentável com a pífia eliminação do Brasil nos Jogos de Sydney - perdeu um jogo para Camarões, com dois atletas a mais.Rebelo conseguiu quorum, a CPI da Câmara nasceu e, no seu rastro, os senadores também entraram em circuito para criar a CPI do Futebol. A longa investigação parlamentar contra Teixeira ganharia fôlego com a exibição do Programa Globo Repórter, em 17 de agosto deste ano. A reportagem deixou dúvidas quanto à lisura de negócios na CBF. Uma delas, a de como a entidade, que dava lucro até 1996, pôde acumular prejuízos depois de firmar o contrato com a Nike. Outro ponto questionava os motivos que levaram parte do dinheiro da CBF a contas particulares de seus funcionários e presidentes de federações.O programa ainda revelou o súbito aumento de patrimônio de Teixeira, informando a respeito de possíveis transações do dirigente em paraísos fiscais. O presidente da CBF depôs na CPI da Câmara em 10 de abril e foi convocado mais tarde para explicar-se novamente na CPI do Senado.Protelou sua ida a Brasília várias vezes até apresentar quadro de doença cardíaca. Agora, aguarda o desfecho da investigação da Justiça Federal do Rio sobre denúncias da primeira CPI, ratificadas pelo Ministério Público Federal.

Agencia Estado,

28 de outubro de 2001 | 12h46

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