Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Ricardo Teixeira 'desviou' dinheiro da CBF em esquema com Valcke e Rosell

Justiça na Espanha decide processar Rosell por esquema no Brasil, envolvendo um total de 26 milhões de euros

Jamil Chade, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2018 | 19h19

Em um esquema que movimentou 26 milhões de euros e que envolveu até mesmo o ex-secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, Ricardo Teixeira desviou recursos da CBF. A acusação faz parte da decisão da Justiça da Espanha de processar o ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, por ter organizado um “emaranhado” de contas e empresas de fachada para lavar o dinheiro. 

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Documentos do processo obtidos pelo Estado apontam que uma organização criminosa “procedeu em ocultar as quantidades ilicitamente desviadas por Ricardo Terra Teixeira”. Ele teria se utilizado de dois mecanismos para realizar a operação. 

O primeiro se refere “à venda por parte de Teixeira, representando a CBF, dos direitos da seleção de futebol de seu país, a uma empresa mercantil árabe com sede nas ilhas Caiman”. 

A operação contra Rosell eclodiu em maio de 2017, levando o catalão para a prisão por envolvimento no esquema milionário com Teixeira e até Valcke. As investigações na Espanha tiveram início depois que a reportagem do Estado revelou com exclusividade como os cartolas tinham criado um sistema para desviar recursos da seleção brasileira, por meio de uma série de empresas de fachada. 

De acordo com a Justiça espanhola, Teixeira teria desviado 8,5 milhões de euros, além de outros 6,5 milhões de euros por Rosell,  “em prejuízo da CBF”.  “Para dar aparência de legalidade à cobrança desse dinheiro, os investigados levaram à cabo uma série de contratos de fachada”, diz o documento. 

Com um emaranhado de empresas, um mecanismo foi criado para transferir dinheiro “para as contas de Teixeira” ou de testas de ferro. O documento aponta para uma série de transferências para contas relacionadas com o brasileiro. Em uma delas, ele recebeu 1,1 milhão de euros e, em outra, 460 mil euros. 

A outra forma de desvio seria o “contrato de patrocínio assinado pela CBF com a marca esportiva Nike, com intervenção da sociedade de Rosell, denominada Ailanto”. De acordo com a justiça espanhola, a Ailanto se apresentou como “intermediária de negociações entre a CBF e a Nike, em 2008”.

 

Segundo as investigações, houve um encerramento do contrato entre a Nike e a CBF em 2011. Nele, foi estabelecido um pagamento de US$ 26 milhões. A suspeita, porém, se refere a um valor de 12 milhões de euros que foram destinados para Rosell, na condição de intermediário.

O catalão confirmou que recebeu o valor e que usou parte dele para “devolver” um empréstimo que havia obtido com Teixeira, de 5 milhões de euros. 

Mas a justiça espanhola concluiu que sua alegação sobre o pagamento “não se ajusta à realidade”, ja que o dinheiro acabaria numa conta cujo beneficiário final “é o próprio Teixeira” e mesmo de Jerome Valcke. O francês foi um dos principais aliados do cartola brasileiro na Fifa e organizou, anos depois, a Copa do Mundo, em 2014. 

“De tudo isso se deduz que os cinco milhões que aparentemente Teixeira emprestou para Rosell estavam relacionados com os supostos ingressos ilícitos obtidos por Teixeira e canalizados através de Rosell e Pedro Ramos, a benefícios de todos eles, principalmente de Teixeira e, neste caso também de Jerome Valcke”, aponta o documento.

A justiça espanhola não dá detalhes dos valores transferidos para Valcke e nem para onde teria ido esse dinheiro.  

Rosell continua preso na Espanha, enquanto Valcke está sendo investigado na França e na Espanha. No Brasil, porém, o Ministério Público Federal ainda não agiu em relação a Teixeira, ainda que houvesse um pedido de captura internacional emitido em maio de 2017.

 

 

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