Jamil Chade/Estadão
Jamil Chade/Estadão

Ricardo Teixeira tem residência no paraíso fiscal de Andorra

Membros do governo do principado já concederam direitos de moradia ao ex-presidente da CBF

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2013 | 06h00

GENEBRA - Ricardo Terra Teixeira é residente de Andorra, um paraíso fiscal sem acordo de extradição com o Brasil e com sérios problemas com autoridades europeias por causa de suas práticas de aceitar dinheiro não declarado de fortunas de todo o mundo. Membros do governo confirmaram que o principado já concedeu o direito de residência ao cartola brasileiro. Há dois dias, a Rádio Catalunya, de Barcelona, anunciou que Teixeira havia iniciado os trâmites para ter sua residência no paraíso fiscal. Mas, no principado, fontes que administram o caso de estrangeiros confirmaram que não só o trâmite era real como as autoridades já haviam dado o sinal verde desde o final de 2012.

Nas últimas duas semanas, a reportagem do Estado vem revelando os bastidores das contas da CBF e como um terço do dinheiro arrecadado pelos amistosos da seleção acabavam em contas fora do País, inclusive em Andorra e em uma empresa registrada em nome do presidente do Barcelona, Sandro Rosell. No total,  8,4 milhões por 24 amistosos iriam para a empresa do cartola catalão. Segundo o Estado apurou, Teixeira conta com dois endereços fixos em Andorra. Um deles é na Avinguda de Sant Antoni, 24. La Massana. O outro é Xalet Can Xiripa, Aixuverri, Sant Julià de Lòria.

Os trâmites para convencer as autoridades foram realizados graças a seu amigo pessoal, Sandro Rosell. O presidente do Barcelona colocou dois de seus diretores para ajudar o brasileiro no pedido de residência e no depósito do dinheiro. Cerca de  4,9 milhões entraram em uma conta na Banca Privada d’Andorra como depósito inicial. O banco é liderado por Ramon Cierco, um dos diretores de Rosell no Barcelona.

Quem também foi fundamental foi Joan Besoli. Sua empresa, a Comptagest, teria auxiliado nos trâmites. A companhia, porém, tem mais um sócio: o próprio Rosell. Sua sede fica em Sant Julià de Lorià, justamente o povoado onde está uma das residências de Teixeira. Pelo acordo, ele precisa passar 150 dias do ano no principado. Em troca, ganha o direito de ter contas legais no país e todos os demais direitos de um cidadão, menos votar e ter um passaporte. Em Andorra, Teixeira não poderia ser extraditado ao Brasil caso seja condenado eventualmente no País.

As revelações do jornal, porém, criaram um mal-estar dentro do governo de Andorra, que vem tomando medidas e ações para provar aos demais países europeus que não está usando seus bancos para lavar dinheiro ou esconder recursos que não foram taxados. Nesta quarta, a assessoria do governo não respondeu ao pedido de esclarecimento por parte da reportagem. Membros do governo, porém, admitiram que o caso chegou até a mesa do ministro do Interior de Andorra, que agora estuda uma resposta diante da repercussão da notícia. O temor do governo é de que o caso Teixeira acabe prejudicando os esforços de Andorra em mostrar que não aceita dinheiro não declarado.

Andorra insiste que, quando deu a residência a Teixeira, não sabia dos esquemas montados com o dinheiro da CBF.

Mas as autoridades de Andorra não podem justificar que não conheciam o passado do brasileiro. Documentos da Justiça suíça apontam que, no caso da empresa de marketing ISL e as propinas pagas a dirigentes esportivos, Teixeira era um dos principais beneficiados.

LARANJA

O pagamento ao ex-presidente da CBF ocorria por meio de uma empresa que ele teria estabelecido em Andorra. Um intermediário era usado para então transferir, em nome do brasileiro, o dinheiro para suas contas. O agente retirava os ativos em espécie e alimentava contas de Teixeira. O nome do banco não foi revelado. No total, a Justiça suíça identificou transferência de mais de US$ 4,7 milhões para a conta 4004028 em nome de Ricardo Terra Teixeira em Andorra. Os subornos ainda eram alimentados por outras quatro contas abertas entre 1998 e 2001, indicadas apenas com os códigos CQUE 206-P0078232.0, CQUE 206-P0078233.0, CQUE 206-P704605.60L e CQUE 206-P790860.70P.

Segundo os documentos da Justiça suíça, os primeiros pedidos das autoridades para que a Justiça de Andorra colaborasse com o caso foram enviados em janeiro de 2006. Em novembro daquele ano, testemunhas seriam ouvidas em Andorra a respeito das movimentações de Teixeira e Havelange. Em 2007, uma testemunha também seria questionada na Alemanha.

O caso chegou a ser bloqueado, com ações na Justiça questionando a transferência de documentos de Andorra para a Suíça. Mas o recurso seria derrubado e, finalmente em 2008, os cartolas seriam indiciados.

"Baseado nos resultados das descobertas da investigação, processos foram abertos contra Ricardo Terra Teixeira e Jean-Marie Faustin Godefroid Havelange no dia 1 de outubro de 2008", confirmou a Justiça suíça. Menos de dois anos depois, eles seriam obrigados a pagar uma indenização milionária para ver encerrado o caso. Pessoas envolvidas com a comissão técnica da seleção revelaram, em condições de anonimato, que não teria sido por acaso que, em 1998, a CBF organizaria um amistoso justamente contra Andorra, faltando uma semana para a Copa do Mundo da França. O jogo teria sido um "agrado" de Teixeira às autoridades do principado.

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