Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Ricardo Teixeira movimentou R$ 464 milhões em 4 anos

Dirigente presidia o COL da Copa de 2014 na época das transações

Andreza Matais, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2015 | 19h15

A Polícia Federal indiciou o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira pelos crimes de falsificação de documento público, falsidade ideológica, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. O ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell também foi indiciado por falsificação de documento público e ocultação de informações. Como moravam no exterior, a PF indiciou Teixeira e Rosell sem a presença deles. Os dois, contudo, conforme o inquérito, "tomaram conhecimento dos fatos e não tiveram interesse em desmentir". 

O Coaf, órgão de investigação financeira do Ministério da Fazenda, registrou movimentação atípica de Ricardo Teixeira dentro do Brasil de R$ 464,5 milhões entre 2009 e 2012. Somente num dos negócios ilícitos, segundo a PF, os dois ex-dirigentes teriam ganhado R$ 45 milhões, metade do valor para cada um.  

O inquérito não tem relação imediata com o escândalo de corrupção da Fifa, mas, conforme investigadores ouvidos pelo Estado, pode dar subsídios à apuração que está em curso nos Estados Unidos e culminou com a prisão de dirigentes da entidade maior do futebol mundial em Zurique na última semana. Entre eles, José Maria Marin, ex-presidente da CBF. 

O inquérito no Brasil foi concluído em janeiro deste ano, mas somente agora foi tornado público. As investigações duraram dois anos e tiveram como base reportagens do Estado e da TV Record sobre negócios do ex-presidente da CBF. Além de Teixeira e Rosell, foram indiciados: Claudio Honigman (descrito como parceiro comercial de Teixeira e Rosell e sócio do ex-presidente do Barcelona na 100% Brasil Marketing), Vanessa Almeida Precht (sócia da Alianto Marketing LTDA) e Claudio Abrahão (irmão de Wagner Abrahão, presidente do Grupo Águia, que realiza as viagens da CBF).

As investigações revelaram que Teixeira não declarou dinheiro mantido no exterior, simulou a compra de ações usando o nome de uma empresa para "movimentar altas somas de dinheiro" e fez transações imobiliárias de fachada. No inquérito, ao qual o Estado teve acesso, a PF afirma que nas declarações de imposto de renda do ex-dirigente "não existe referência alguma a contas bancárias em seu nome no exterior", o que configura crime de evasão de divisas. Reportagem do Estado revelou que Teixeira possui 30 milhões numa conta secreta em Mônaco. 

A PF destacou no inquérito informações da procuradoria da Suíça segundo as quais Teixeira teria recebido 12,7 milhões de francos suíços de suborno enquanto esteve na CBF, de 1989 a 2012, inclusive envolvendo a realização de Copas do Mundo, ao considerar que "ele vem praticando atos contra a administração pública brasileira, com exigência de vantagens para práticas administrativas da CBF, contra a administração pública estrangeira e o sistema financeiro nacional". 

APARTAMENTO

A PF acusou Teixeira de simular operação de compra de vários imóveis, entre eles uma cobertura na Barra da Tijuca, no Rio porque "ele não teria como justificar a compra". Ele adquiriu de Claudio Abrahão o apartamento no bairro nobre por R$ 720 mil. O imóvel, contudo, é avaliado em R$ 4 milhões. 

Em depoimento à PF, Claudio justificou o preço porque o imóvel estava "em mau estado de conservação, precisando de reforma" e disse não ter relação "pessoal" com Teixeira. O dinheiro teria vindo de contas no exterior "conseguidos irregularmente, por meio de suborno."

Um dos negócios investigados pela PF é a simulação de operação de compra de ações de Teixeira e Rosell numa transação que envolveu a cifra de R$ 22,5 milhões. A PF descobriu que eles usaram o nome da Alpes Eletronic Broker para simular uma opção de venda a ambos. A Alpes negou em depoimento relação com Teixeira, mas confirmou que Claudio Honigman era diretor da empresa. A simulação envolve a venda de um avião da 100% Brasil Marketing para a Alianto Marketing por R$ 8 milhões. Essas duas firmas têm como sócio o ex-presidente do Barcelona. Ou seja, ele vendeu a aeronave para ele mesmo. 

Vanessa Precht chegou a atender o Estado, mas, assim como durante o inquérito, não quis se manifestar. "Vocês ligam para o meu advogado. Se você conseguiu o telefone da minha casa, você vai conseguir o dele também", disse antes de desligar o telefone sem identificar o responsável por sua defesa. A reportagem não conseguiu contato com Cláudio Hongman, Sandro Rosell e Cláudio Abrahão.


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