José Luis da Conceição/Estadão
José Luis da Conceição/Estadão

Richarlyson declara bissexualidade pela primeira vez: ‘Mundo não está preparado para esta discussão’

Com passagens marcantes por São Paulo e Atlético-MG, ex-jogador de 39 anos fez revelação em entrevista para podcast sobre homofobia no futebol

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2022 | 11h01

O ex-jogador Richarlyson declarou pela primeira vez ser bissexual. A revelação veio à tona no podcast "Nos Armários dos Vestiários", do GE, e produzido pela Feel the Match, que aborda a homofobia e o machismo no futebol do Brasil. Com passagens marcantes por São Paulo e Atlético-MG, chegando a ser convocado para a seleção brasileira, o atleta teve a carreira marcada por insinuações maldosas sobre a sua sexualidade, mas nunca admitiu qualquer situação. Atualmente, ele é comentarista do SporTV. 

"A vida inteira me perguntaram se sou gay. Eu já me relacionei com homem e já me relacionei com mulher também. Só que aí eu falo hoje aqui e daqui a pouco estará estampada a notícia 'Richarlyson é bissexual'. E o meme já vem pronto. Dirão 'Nossa, mas jura? Nem imaginava'. Cara, eu sou normal, eu tenho vontades e desejos", disse Richarlyson. 

"Já namorei homem, já namorei mulher, mas e aí? Vai fazer o quê? Nada. Vai pintar uma manchete que o Richarlyson falou em um podcast que é bissexual. Legal. E aí vai chover de reportagens, e o mais importante, que é pauta, não vai mudar, que é a questão da homofobia. Infelizmente, o mundo não está preparado para ter essa discussão e lidar com naturalidade com isso", disse. O preconceito tem sido combatido com bastante força nos dias atuais, de todas as formas. Mais pessoas falam e demonstram abertamente sobre duas opções sexuais. E com naturalidade. 

Richarlyson despontou para o futebol com a camisa do São Paulo - clube cuja torcida é constantemente alvo de chacotas homofóbicas. Pelo tricolor paulista, foi tricampeão brasileiro (2006, 2007 e 2008) e fez parte do elenco que derrotou o Liverpool no Mundial de Clubes (2005). Aos 39 anos, o ex-jogador recentemente estreou na função de comentarista esportivo no canal SporTV.

Volante de grande vigor físico, Richarlyson nunca teve dificuldade para conquistar seu espaço com os treinadores com quem trabalhou. Festejou também o título da Libertadores com o Atlético-MG e dois Estaduais com o time de Belo Horizonte. As boas atuações, porém, não livraram o atleta de ataques homofóbicos, tampouco as colocaram no patamar de ídolo. Sua carreira foi bastante honesta e bonita.

"Eu não queria ser pautado por causa da minha sexualidade, de eu ser bissexual. Eu queria que as pessoas me vissem como espelho por tudo aquilo que conquistei dentro do meu trabalho. Eu nunca coloquei a minha sexualidade à frente do meu trabalho, e nunca faria isso. E eu não estou falando isso agora porque parei de jogar. Muita gente maldosa vai falar isso, que falei agora porque não jogo mais. Não. Eu nunca falei porque não era a minha prioridade, como não era hoje, mas me senti à vontade para falar. Eu queria que não existisse essa pauta. Eu queria estar falando aqui da minha nova carreira (comentarista). Mas é importante (que se falem desse tema também)."

A entrevista com Richarlyson é a primeira da série "Nos Armários dos Vestiários", que vai contar com depoimentos e revelações inéditas de jogadores, árbitros, ex-atletas, torcedores e outros personagens do universo da bola. A produção será apresentada pela jornalista Joanna de Assis e pelo influenciador William de Lucca.

Bruno Maia, sócio-fundador da Feel The Match, é o produtor e diretor geral do projeto. Ele ressalta a importância de produções como essas para que pautas afirmativas avancem na sociedade. "O futebol tem um papel importante nisso e nós, que trabalhamos nele, precisamos evoluí-lo para além da tecnologia. É papel de todos que estamos nessa indústria. O esporte começou como algo restrito aos homens, numa sociedade que reproduzia estes privilégios naquela época. Mas o mundo, ainda bem, não é mais assim. Contar essas histórias e dar visibilidade a elas é combater a intolerância e o preconceito". 

O executivo revela ainda que uma das principais dificuldades foi encontrar fontes com coragem para falar sobre um assunto tão delicado ainda. "A história de pesquisas da Joanna de Assis foi fundamental para vencermos as inseguranças de quem nunca tinha tratado abertamente o tema. O primeiro episódio será importante neste aspecto, porque, a partir desse, a gente acredita que mais pessoas vão se encorajar a participar dos seguintes, que ainda estão em produção. Eu admiro profundamente a coragem de todos que aceitaram contar suas histórias na nossa série". 

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